LUIS ROMANO, INVENTOR DO CABO VERDE
Por O Santo Ofício | 23 janeiro, 2010
Por Franklin Jorge
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Vacinado contra as fanfarras publicitárias, Luis Romano encontrou em Natal um refúgio, por muitos anos pacífico e bucólico, para a elaboração de uma obra que lhe requeria tempo e fé.
Engenheiro de profissão, especializado na extração e beneficiamento do sal e do petróleo, jamais negligenciou o seu trabalho de criação, destacando-se como ficcionista, poeta e ensaísta inspirado na cultura, na tradição e nos costumes de sua terra natal, o arquipélago de Cabo Verde, que passa a existir literariamente através do seu talento e de uma vontade que jamais se rendeu aos obstáculos que geralmente se interpõem entre o homem e o sonho, para dificultar a obra e fazê-lo desistir.
Romano, porém, venceu inclusive a doença e os achaques da velhice e, hoje, vivendo em Petrópolis, à avenida Afonso Pena, tem no trabalho de criação e reflexão o pão com que alimenta cotidianamente o seu espírito fortalecido pelo ideal.
Desde jovem, em seu nomadismo que o levou, sobretudo por motivação profissional a diversos países da África, da Europa e da América do Sul, escolheu o caminho das realizações e não o do prazer e da dispersão. Assim, nesse comércio obsessivo e paciente com idéias e palavras, construiu lentamente ao longo de mais de sessenta anos a extraordinária representação de algo fora do tempo, ou seja, a grandeza contida num vasto e significativo painel cultural que justifica sua própria existência.
Li-o pela primeira vez no Açu, creio que em 1966, quando ao vasculhar as preciosidades da biblioteca particular da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, sua amiga e admiradora, descobri um exemplar de “Famintos” com um autógrafo do autor.
Notei que o prefácio fora escrito por um primo-irmão de minha avó, o que aumentou o meu interesse por uma obra que me descortinava a literatura de uma terra distante que se resumira até então para mim pelo esplendor selvagem de suas praias e por ter sido, no alvorecer do Brasil, um entreposto do comércio de escravos para o Novo Mundo…
E, por último, o chão e a salsugem cantados por Cesária Évora, uma voz que vem de muito longe, consubstancida em misteriosa ancestralidade. Uma voz visceral e telúrica.
Creio que teria de catorze para quinze anos naquela ocasião. Ambientado em sua terra, “Famintos” impressiona por seu contundente realismo, ao radiografar a seca e o séqüito de misérias que acompanha o destempero climático. Guardei desde então o nome do autor, sem suspeitar que, por astúcia do destino, um dia nos tornaríamos amigos.
Prisioneiro do demônio da pesquisa, Luis Romano tomou para si, com uma precisão que nada deixa ao acaso, a árdua e apaixonante tarefa de dotar o seu país de uma literatura e de um idioma literários próprios.
É, neste sentido, um escritor adâmico, aquele que nomeia pela primeira vez tudo o que existe de singular e relevante em Cabo Verde, no âmbito das letras, da sociologia, da etnografia, do folclore e da antropologia cultural.
Dotado do espírito de águia de um ancião, nada escapa ao seu instinto literário. Porém, a mais grandiosa invenção do seu poderoso intelecto é o Cabo Verde, a maior de suas obras, sua pátria e sua língua.
Fragmento do livro Leituras Potiguaress [Inédito]




9 Comentários
Marizela Nogueira on 23 de janeiro de 2010 at 9:28.
Dessa plêiade de escritores resta apenas, agora, o Sanderson…
Thiago França on 23 de janeiro de 2010 at 9:46.
Isto não quer dizer que o Sanderson está com o “pé na cova”, não?
Carlos de Miranda Gomes on 23 de janeiro de 2010 at 11:11.
Uma bela homenagem. Certamente o espírito de Luis Romano deve estar feliz. Um abraço de Carlos de Miranda Gomes
Raphael, Anjo_Roqueiro on 23 de janeiro de 2010 at 13:32.
Um grande pequeno ensaio.
Maria Helena on 23 de janeiro de 2010 at 14:49.
Uma requintada oração fúnebre.
Mikhael Berioska, Campo Grande on 23 de janeiro de 2010 at 18:21.
Para quem tem talento e cultura qualquer pingo é letra.
Bento Cirne Lima - Porto Alegre on 23 de janeiro de 2010 at 19:04.
Franklin nos ensina aqui a arte de reescrever.
Dominique Lanza on 23 de janeiro de 2010 at 20:03.
Um necrológio digno de Bossuet.
Fabrizzio Curtius on 24 de janeiro de 2010 at 9:31.
Pax aos Mortos.