MORRE O ESCRITOR LUIS ROMANO
Por O Santo Ofício | 22 janeiro, 2010
Por Franklin Jorge
Faleceu nesta tarde, vitima de câncer, o escritor Luis Romano, caboverdiano radicado em Natal desde os anos 60. Primeiro embaixador do seu País, após a independencia, aqui conviveu intimamente no primeiro círculo de intelectuais, como Luis da Câmara Cascudo, Edgar Barbosa e Américo de Oliveira Costa, aos quais se juntariam depois, Eulicio Farias de Lacerda e Sanderson Negreiros.
Deixou Luis Romano inúmeras obras, em prosa e verso, além de estudos bastante apreciados sobre aspectos da cultura caboverdiana, da qual foi, por toda vida, um grande divulgador. Recentemente, um estudante da USP entrou em contato comigo, através de e-mail, para pedir-me informações sobre o escritor, cuja vida e obra seriam objeto de estudos acadêmicos.
Privei durante vários anos da sua amizade e o visitei, por diversas vezes, em sua casa à Avenida Afonso Pena, onde vivia na companhia da mulher e dos filhos, escrevendo e lendo. Nesses encontros, fez-me confidencias sobre suas amizades literárias. Tinha uma grande admiração por Edgar Barbosa, que chegou a prefaciar-lhe seu livro mais conhecido.
Certa vez, ao servir-me um delicioso e estranho licor, quebrei as regras da civilidade e quis repeti-lo, mesmo sabendo que infrigia alguma lei tácita. Afinal, a boa convivencia social tem regras que não podem ser arranhadas. Por isso, vendo que fora longe demais, pedi-lhe desculpas pela ousadia.
Ele disse tratar-se de um Cordial, e, segundo a praxe, bebia-se um único cálice de boas vindas. E, ainda um pouco chocado com a minha má educação, serviu-me uma segunda dose, o que repetiu-se todas as demais vezes em que depois estive em sua casa. Uma vez, para sondar a qualidade do produto, serviu-me um cálice de aguardente fabricada em sua longínqua Cabo Verde. Disse-lhe, sinceramente, que preferia seu Cordial.
Quis saber onde adquirir tão espirituosa bebida e ele me revelou ser a pessoa que a fabricava havia muitos anos. Diante disto, acanhei-me de pedir-lhe a receita. Mas, acrescentei que, se tivesse uma receita daquelas, certamente ficaria rico, comercializando-a. E ele, sem delongas, acrescentou que até pensara em me dar a receita, mas, considerando o meu propósito de auferir lucro com uma receita criada por seus ancestrais, desistia de me dar a fórmula.
Tratava-se de uma receita que passava de pai para filho há várias gerações. Composta por um mix de ervas, frutas secas, vinho tinto e aguardente, levava no minimo dois anos curtindo e, depois, vinha a parte mais trabalhosa: precisava ser filtrada, no mínimo, umas cinco vezes…
Anos depois, consolidada a nossa amizade, ele me surpreendeu certo dia, mandando-me que me munisse de papel e lápis, pois queria ditar-me algumas palavras. Era a tão desejada receita com a qual, em momentos especiais, obsequio meus amigos, servindo-lhes um cálice dessa bebida rara a que dei o nome de Hullaballoo, um estado de espírito.




7 Comentários
Daniel Krüse - Jardim Europa (SP) on 23 de janeiro de 2010 at 10:37.
Uma magnifica libação ao morto ilustre.
Violante Sierra on 23 de janeiro de 2010 at 11:01.
A nênia e a consoada em poucas palavras.
Mirna Fonseca - Belém on 23 de janeiro de 2010 at 13:38.
Como vcs são eruditos! Foram da Grécia a Roma em duas linhas. Brilhante leitores.
Amadeus Morelli on 23 de janeiro de 2010 at 18:36.
Digno de um grande mestre.
Iracema Diotima on 23 de janeiro de 2010 at 20:10.
Sempre aprendemos navegando nesta página de Franklin Jorge.
Martino Lopes on 23 de janeiro de 2010 at 21:31.
Confesso que estou encantado com O Santo Ofício de Franklin Jorge.
Angelique on 23 de janeiro de 2010 at 22:48.
Eu também!