A INTERNET E A CRISE DOS IMPRESSOS [1]
Por O Santo Ofício | 14 janeiro, 2010
Por Rafael Oliveira, do blog Ex Vertebrum
A Declaração de Hamburgo é um documento escrito por um grupo de jornais com objetivo declarado de defender os direitos autorais na internet. Se parasse por aí, seria compreensível e, sob certos pontos de vista, até louvável. O problema começa quando o documento ataca algo que denomina genericamente como “agregadores de conteúdo”, em clara referência a serviços como Google News, Yahoo! News e o Mahalo.
O documento busca se legitimar defendendo que os agregadores seriam os responsáveis pela crise no jornalismo impresso em papel jornal, uma suposição no mínimo superficial e ingênua, se é que podemos esperar ingenuidade da classe. Ao contrário do Brasil, onde os jornais impressos apresentaram aumento de circulação nos últimos anos, apesar de eventualmente alegarem queda nas receitas, a situação no mundo tende a ser o contrário: queda de circulação e de receitas.
Sem tentar estender muito a discussão nesse ponto específico, a queda de circulação pode ser explicada por uma enorme variedade de fatores, entre eles a internet:
Com o barateamento das tecnologias de publicação (tanto as digitais quanto as impressas), tornou-se muito mais simples produzir um veículo de mídia (revista, jornal de bairro ou outras publicações impressas) e monetizar o negócio, de forma que o volume aumentou muito dos anos 90 até hoje, mas a qualidade ganhou mais graus de separação entre o péssimo, o razoável e o ótimo;
Excesso de informações à disposição de qualquer pessoa, em qualquer classe social, com conseqüências como a “Ansiedade de Informação” e o “Paradoxo da Escolha” – fica difícil selecionar o que ler em meio a tantas opções;
Aumento exponencial dos gastos em famílias de classe média, nas quais o orçamento é disponível, mas limitado (vale para o Brasil e para a classe média americana também). Anos atrás, gastos como telefonia celular, TV a cabo e conexão à internet eram inexistentes. O dinheiro que hoje é utilizado nestas contas provavelmente migrou de outros lugares, entre eles a assinatura de jornais e revistas;
Enfim, a disponibilidade de acesso a jornais pela internet, o que – em tese – permitiria ler um jornal online. Este ponto é bastante controverso, uma vez que são poucos os jornais que publicam todo o material do impresso na internet e os que o fazem ainda não encontraram uma solução de navegação para uma boa experiência do usuário e permite ler online todo o jornal como se faz no papel. Aqui se abre outro imenso foco de debate:
- Qualidade da leitura na tela x papel
- Praticidade de manuseio do papel x interface
- Agrupamento do conteúdo online x no papel
- Capacidade de atualização do conteúdo ao longo do dia
Por fim, a questão do imediatismo. Ninguém compra o jornal do dia seguinte para saber que Michael Jackson morreu. O jornal deve assumir outro papel neste caso, o de agregar informações extras, reflexões e desmembramentos do fato jornalístico. Sobre este aspecto, vale a pena ver a entrevista que Celso Freitas concedeu ao Vitrine da TV Cultura abordando o futuro do jornalismo. Se não fizer isso de forma bem feita, muitos blogs e sites o farão. Caberá ao leitor decidir pagar pelo jornal ou ler a fonte que preferir.
Prolongar as discussões acima não cabem neste texto, mas servem para ilustrar o tamanho do problema que os jornais enfrentam, dizendo respeito muito mais ao modelo de negócio do que ao direito autoral em si.
O próprio conceito da distribuição livre de conteúdo é uma noção própria da internet, que levou ao surgimento de iniciativas como o Creative Commons e de movimentos como o Copyleft. Anos depois, com a explosão dos blogs, vieram as discussões sobre o papel do jornalismo e debates sérios sobre o papel dos blogs e do jornalismo no acesso a informação.
Vários outros modelos surgiram, seja pela imprensa tradicional ou alternativa, mas até hoje nenhum se mostrou viável para resolver o buraco da remuneração de conteúdo criado.




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