O RESGATE DA INFIDELIDADE

Por O Santo Ofício | 12 janeiro, 2010

Do site Opinião e Notícia

Por Emanuelle Bezerra

O livro recém-lançado de uma das psicólogas mais famosas da França está causando polêmica. Maryse Vaillant diz em Les hommes, l’amour, la fidélité que a infidelidade masculina é uma coisa boa para o casamento. Ela defende que, ao ser infiel, os homens estão agindo de acordo com sua natureza e que isto é essencial para o funcionamento psíquico deles.

Mais polêmica ainda é a avaliação que Maryse faz dos homens fiéis. Para ela, aqueles que não mantêm casos extraconjugais são homens com “fraqueza de caráter”. A explicação, segundo a psicóloga, é que estes homens tiveram um pai ausente e que, por isso, desenvolveram um ideal de comportamento masculino irreal. “Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”, afirma.

A psicóloga também diz que, ao trair, os homens estão procurando um “espaço próprio”. Totalmente contrária às ideias de Maryse, Mirian Goldenberg, antropóloga, professora da UFRJ e autora dos livros A Outra e Infiel: notas de uma antropóloga, diz que estabelecer um espaço, psicológico ou físico, não envolve se relacionar com outra pessoa. A antropóloga afirma que até mesmo as mulheres buscam essa individualidade no relacionamento. “É comum encontrar casais que querem banheiros separados, por exemplo, mas ter outra pessoa não é a mesma coisa. Não sei se a França é tão diferente do Brasil nesta questão, mas, por aqui a traição é inaceitável.”

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2007 com 2.093 pessoas revela que Mirian está correta em sua colocação. Perguntados sobre o que é mais prejudicial no casamento, a maioria absoluta dos entrevistados respondeu infidelidade (53%), seguida por falta de amor (15%), ciúme (11%) e incompatibilidade de gênios (5%). Para a pergunta “O que é mais importante no casamento?”, 38% das mulheres e 37% dos homens responderam fidelidade. Em segundo lugar ficou o amor (35%) e, em terceiro, a honestidade (15%).

Na enquete realizada pelo Opinião e Notícia na última sexta, 67% dos leitores também discordaram da autora do livro, entendendo que a tese reforça a visão machista dos relacionamentos. Maryse diz que a aceitação da traição masculina seria uma libertação para as mulheres e que seu estudo quer “resgatar a infidelidade”. Mirian Goldenberg considera que, com isso, a psicóloga está tratando o tema como se os últimos 50 anos não tivessem existido. Além disso, a antropóloga diz que esta perspectiva biológica também é equivocada. “Vamos usar parâmetros de quando éramos selvagens para justificar os desajustes culturais? Houve evolução cultural e é esta a questão. Não há mais razão para a mulher aceitar a traição.”

Mirian ressalta o valor da fidelidade nos relacionamentos contemporâneos. Ela diz que atualmente as pessoas procuram um companheiro para ser a pessoa especial um do outro. Diferente do que acontecia no passado, quando a dependência financeira era um fator predominante para a manutenção do casamento. Por isso a importância de se ser o único em um relacionamento amoroso.


1 Comentário

Soraya on 13 de janeiro de 2010 at 8:06.

Os franceses, sempre oportunistas. Agora essa!

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