RETORNO AO NINHO

Por O Santo Ofício | 3 janeiro, 2010


Discurso de Anna Maria Cascudo Barreto na abertura do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo

Estamos diante de um sortilégio. Desejo antigo, guiado por seres de outra dimensão, hoje realizado por soldados envergando a farda da paixão. Os pássaros viajores retornaram ao seu ninho centenário. Atravessaram túneis de ventanias agressivas, voaram acima de difíceis labaredas. Muitas vezes ausencia de alimentação, períodos de desânimo. Perderam asas, se desfizeram das plumas mais preciosas, abandonando gravetos importantes para o conforto dos filhotes.

Simbolicamente, a ausencia do justo reconhecimentp dos seus iguais provocou feridas jamais cicatrizadas. Mas elas prosseguiram seu vôo teimoso seguindo roteiros traçados pela sua destinação. Aves persistentes seguiram guiadas pelas nuvens dos sonhos, sua bússola o sol do amor, tecendo arabescos nos galhos indiferentes, construindo o objeto final: o ninho estrelado.

Nós, os Cascudo Roberti Leite e os Cascudo Barreto, somos operários da indústria da fé. Os dragões do pessimismo não alcançarão nossas fronteiras. Lentamente fomos afastando as barreiras e penetrando o reino encantado cascudiano, rabiscado de passos, crivados de olhares, cobertos de perguntas. Parodiando Dom Quixote, vencemos batalhas impossiveis, lutas sangrentas se tornaram rosas de esperança, graças a espada do sorriso.

Camilo, Daliana, Newton, Camilla, Diogo, Alana, Woldney, Múcio e até a pequena Cecilia, somos pontes de carne, ligando o ontem ao amanhã. Nossos mortos estão presentes nos nossos corpos e almas. Na hereditariedade o passado e o presente se fazem futuro.

Varamos as portas de esmeralda da casa, ninho familiar. Aqui resideram meus avós maternos, o Desembargador José Teotônio Freire e Sinhá, nasceu minha genitora, a doce caçula Dahlia: o Coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo, o avô paterno, aqui pediu a mão da adolescente para o seu filho Luís. Também essas paredes assistiram ao nascimento do primogenito Fernando Luis e da autora destas linhas. Na casa grande parte da gigantesca obra de Câmara Cascudo foi elaborada. Casamos na sua sala, Fernando e Marly, Camilo e eu. Residimos com nossos pais e filhos, 18 anos. Festejos, comemorações, alegrias e tristezas, foram testemunhadas deste local. Meus filhos aqui brincaram e também os netos estudaram, nos formamos, tivemos momentos de extrema tristeza e motivos de honra e alegria.

Agora o Instituto Câmara Cascudo, fruto de labor persistente, suor e teimosia abençoada de três gerações, surgem como um presente à cidade tão amada pelo seu inspirador, galanteio feito roteiro cultural às gerações atuais e àquelas que sucederem.

O Ludovicus é batizado com a mesma energia de quando o Santo Padre João Maria, na Igreja do Bom Jesus das Dores, fez o sinal da cruz na fronte do recém-nascido Luís, e o abraçou como adivinhando quem ele se tornaria…

O objetivo do Instituto Câmara Cascudo – Ludovicus – que fundamos, é a preservação, divulgação, a continuidade da pesquisa e a gerencia do patrimonio cultural de Câmara Cascudo, todas as suas nuances, faces e objetivos.

A casa foi restaurada pela familia residente na cidade do Natal desde 2005 e estará aberta à visitação a partir de janeiro de 2010. O essencial permanece: as fotos dos amigos e familiares, os móveis, acervo biobibliográfico, as assinaturas nas paredes dos visitantes. As coleções – museológicas, etnográfica africana e indígena brasileira, conviverão com a biblioteca rara, a pinacoteca, a simplicidade franciscana do cotidiano familiar, a ternura das fotos, um pouco das múltiplas homenagens, medalhas, colares, diplomas, troféus, recebidos com humildade pelo mestre.

Ele, que amava o povo e suas manifestações acima de tudo, considerado o mais brasileiro dos escritores, que pesquisou todos os ramos do conhecimento humano sem perder seu sorriso espontaneo, oferece seus conhecimentos, sua magia, com a acessibilidade e carinho que o caracterizaram.

Nosso combustível foi o de acender a labareda da permanencia no tempo, guardiã da eternidade. é chegada a hora de se dar as mãos ao escritor, é a época das parcerias, dos patrocinios, idéias para que os ideiais sejam mantidos.

E os crepúsculos que ele colecionava na privilegiada memória, com flores de opala, cantaros de rubi, esteiras de ouro e corolas de luz prateada nunca mergulhem na escuridão do olvido, nas sombras do esquecimento. Tal espetáculo diário que o Criador nos oferece gratuitamente inspire as autoridades, os politicos, os empresários, os cidadãos, enfim, a toda cidade do Natal, para a necessidade de cultivar e apoiar com a firmeza da gratidão e a consciencia da tradição.

Natal, 30 de dezembro de 2009
Anna Maria Cascudo Barreto
Presidente do Ludovicus


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