AUDIÊNCIA DE QUALIDADE EXIGE RECEITA
Por O Santo Ofício | 17 dezembro, 2009
Por Alon Feuerwerker, do Blog do Alon
A evolução explosiva e a disseminação das tecnologias digitais criaram a infraestrutura para o salto democrático definitivo na comunicação. O fenômeno espalha-se como pandemia, e finalmente é possível quebrar a unidirecionalidade. O receptor de informação tem agora condições muito melhores para fazer também o papel de emissor. E as consequências da revolução atingem a todos, dos veículos profissionais às empresas não jornalísticas, das pessoas às instituições — estatais ou não.
Uso aqui a palavra “revolução” com uma elasticidade excessiva, porque a tecnologia é só uma das variáveis. Na abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que acontece em Brasília, o presidente da República pintou um quadro talvez algo fantasioso sobre o novo grau de liberdade dos indivíduos e da sociedade diante de quem possa pretender controlar o fluxo das notícias e das ideias.
O que mudou? E o que não mudou? Caiu radicalmente o custo de distribuir informação, também chamada de “conteúdo”. Antes, os empreendimentos eram intensivos em capital. Um jornal, por exemplo, precisa de forte investimento em papel, gráfica e transporte. Já os custos de produção não mudaram muito. Ao contrário, a produtividade do trabalho deu um salto: com as ferramentas disponíveis, cada hora trabalhada cria bem mais valor do que no passado.
Algo que continua indispensável é capital para atrair audiência. Hoje qualquer um pode distribuir o que produz, desde que acesse a rede. Mas para atingir massa crítica de receptores é necessário dinheiro. Muito dinheiro. O desafio persiste, apenas mudou de departamento. Antes, o capital era fundamental também na produção e distribuição; hoje, é insubstituível na divulgação. Ainda mais diante da abundante oferta de conteúdos, uma concorrência feroz.
Todas as empresas de sucesso na rede, em algum momento, conseguiram capitalizar-se, criaram caixas robustos para pesados investimentos em marketing. Com a promessa de retorno lá na frente, pois audiência é sinônimo de receita.
Como o cidadão comum, cheio de boas ideias e de visões alternativas da realidade, vai competir nessa esfera?
Outro detalhe. Verdade que sempre haverá alguém capaz de escrever melhor do que o jornalista sobre determinado assunto. Mas é impossível para o médico, o dentista, o comerciário ou o professor largarem suas atividades no meio da tarde para cobrir uma sessão da Câmara dos Deputados, ou uma passeata na Esplanada dos Ministérios. Eis por que o jornalismo profissional vai bem, obrigado. Só que ele não vive de brisa.
A internet mudou a vida de quem trabalha com informação. A mudança fundamental: quando o consumidor não gosta, a pancada vem na hora, o sujeito não precisa ficar pendurado no telefone ou esperando na fila da seção de cartas. O que é ótimo. Está mais difícil a vida de quem não suporta a crítica e se vê acima do bem e do mal. Mas daí a achar que os papéis se inverteram tem uma distância grande.
Basta ver o que vai pelos blogs, pelo Twitter e por outras redes: quando o objeto é a notícia, ou a análise, a maioria se limita a comentar, atacar, elogiar, distorcer, criticar, endossar o que é criado profissionalmente por alguém. Conteúdo original e produzido ininterruptamente não é a regra. Uma expressão muito usada nos debates sobre o novo mundo é a capacidade da internet “empoderar” o indivíduo, ou a organização social não hegemônica. A tecnologia sozinha não tem esse dom.
A democratização da comunicação depende de os múltiplos novos atores encontrarem meios de financiamento. Talvez seja um tema para esta Confecom. Ou para uma próxima.




1 Comentário
C ida C on 20 de dezembro de 2009 at 16:52.
A internet é a invenção do século. Está mudando as relaçoes sociais e dando espaço a todos, sem atravessadores.