A ÉTICA DO POETA MENTIROSO

Por O Santo Ofício | 15 dezembro, 2009

Por Rafael Duarte* 

Há dois domingos, o Novo Jornal, veículo para o qual trabalho, publicou uma reportagem minha sobre o Beco da Lama. Embora abrangente, com espaço para freqüentadores, moradores, proprietários dos botecos e personagens que habitam aquele pedaço do Centro Histórico, o foco da matéria era a criação da Bamba, entidade recém-fundada por um grupo de freqüentadores do Beco, e sua relação com a Samba, sociedade organizada na mesma região há 15 anos. As duas convergem, pelo menos na teoria, para a luta em defesa do Centro Histórico e, por conta disso, a polêmica foi levantada em cima das razões de se criar uma nova entidade para o mesmo fim. A reportagem cumpriu seu papel de trazer à tona várias questões envolvendo as duas entidades e jogou luz à divisão política que existe, hoje, na região do Beco da Lama.

Era óbvio, como toda polêmica, que a matéria geraria reações diversas tanto a favor como contra. E foi assim. No entanto, nenhuma delas foi tão ardilosa e desqualificante como a acusação a mim imposta pelo poeta e diretor da Bamba, Plínio Sanderson. Baseado em ‘achismos’ e ‘ilações’ mentirosas, o rapaz me incutiu a pecha de antiético por entender do texto que, segundo ele, eu entrevistei o presidente da Samba, Augusto Lula antes e depois de falar com Dunga, o diretor da Bamba. Na imaginação criada e divulgada de forma leviana por Plínio Sanderson, o repórter atuou como leva-e-traz para beneficiar a Samba.

Pois bem. Depois de ler e reler os ataques divulgados por email por Sanderson, que chegaram a mim através de um amigo porque mesmo tendo meu endereço eletrônico o rapaz não me enviou o texto, me lembrei do jornalismo mau-caráter praticado pela revista Veja, “a única revista americana escrita em português”, segundo o jornalista José Arbex Júnior. Na falta do que dizer para atacar e acusar seus opositores, a Veja costuma se valer do mesmo artifício usado agora por Plínio Sanderson: a criação de factóides, mentiras.

E explico. Na semana da festa que celebrou a criação da Bamba, o jornalista Alexandro Gurgel publicou, no blog que assina uma entrevista com Dunga sobre as razões da criação da Bamba. No texto, em formato ping-pong de perguntas e respostas, o diretor da Bamba critica a gestão da Samba e diz rigorosamente tudo aquilo que repetiu a mim, quase uma semana depois. Num jornal, como o senhor Sanderson deveria saber, há uma etapa chamada edição e, no final das contas, acabou ficando de fora algumas coisas, além é claro dos ataques pessoais de ambos os lados. E não foram poucos.

Portanto, Augusto Lula, quando entrevistado na única vez em que nos falamos na semana da reportagem, antes de Dunga, respondeu as perguntas fazendo referência aos ataques direcionados a gestão dele pelo diretor da Bamba e tornado público por Alexandro Gurgel através do blog ‘Grande Ponto’. Mas ainda assim fica uma dúvida: ou a relação de Plínio Sanderson com os blogs é apenas ‘poética’ ou o diretor da Bamba não acredita no sucesso do blog de seu amigo. Alguém precisa comunicar ao poeta Sanderson o que se fala e o que se diz sobre a entidade que ele dirige com um grupo de amigos sob pena de cair no ridículo de inventar fatos para atacar quem quer que seja.

Desde que o ministro do STF, Gilmar Mendes, decidiu acabar com a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, muita gente entendeu o ato como se a porteira estivesse escancarada para quem quisesse se arvorar no ofício. Alguns passaram a acreditar na possibilidade da concretização de um sonho ou desejo frustrado de se tornar profissional sem precisar passar pelos bancos das universidades; outros viram um espaço novo para a picaretagem pura e simples. Pouquíssimos, no entanto, atentaram para o fato de que, mesmo com toda a abertura possível, a prática jornalística decente e responsável deve obedecer a alguns critérios básicos que, ao servir para a profissão, servem igualmente para qualquer situação da vida: a checagem da informação e a pluralidade dos discursos que nada mais é, no jargão jornalístico, que ‘ouvir os dois lados da história’. Nenhum desses dois preceitos e princípios básicos foi respeitado pelo senhor Plínio Sanderson. Não é à toa que temos conceitos distintos sobre ética.

(*) Rafael Duarte é jornalista diplomado DRT 1250


5 Comentários

plinio sanderosn on 15 de dezembro de 2009 at 17:25.

APO(R)ÉTICA

Caro jornalista diplomado, ao ser contatado, mesmo não podendo ir à entrevista na data marcada, fiquei a sua disposição para responder as perguntas, realizadas por telefone, tendo inclusive enviado um dossiê com textos e histórias do beco.

Também sou diplomado, não como comunicador social, mas como cientista social, com especialização em antropologia, e comungo a leitura das entrelinhas do estruturalismo. Então, para quem leu a matéria (alheios e alheados), pura e simplesmente, sem considerar outros veículos, vai ter a mesma opinião, sem “‘achismos’ e ‘ilações’ mentirosas”. Portanto, não foi “artifício usado por Plínio Sanderson: a criação de factóides, mentiras”. Está lá, sem alexia, escrito, publicado, impresso, distribuído e consumido.

Você considerou o que foi dito por Lula (respondendo a um blog?), sobre as pretensas acusações do Dunga. Por que não questionou Dunga sobre as tais insinuações (inverídicas) proferidas por Augusto, quando deixa transparecer que a administração do Dunga não prestou contas? Por que não o questionou sobre acusações feitas PRESENCIALMENTE na entrevista anterior. Mistério: “a prática jornalística decente e responsável deve obedecer a alguns critérios básicos que, ao servir para a profissão, servem igualmente para qualquer situação da vida: a checagem da informação e a pluralidade dos discursos que nada mais é, no jargão jornalístico, que ‘ouvir os dois lados da história’”.

Meu caro Rafael, você sabe que não me detive em acusações, pelo contrário, contemporizei: dicotomia, bipolaridade acabou com a queda do muro de Berlim. Sou o bamba da samba. Agora, “Num jornal, como o senhor Sanderson deveria saber, há uma etapa chamada edição e, no final das contas, acabou ficando de fora algumas coisas, além é claro dos ataques pessoais de ambos os lados. E não foram poucos”. De minha parte, não ataquei ninguém, a única crítica que fiz foi justamente a falta de prestações de contas na administração passada que tem continuidade na atual. Contundente foi à delação de picaretas (“alfinetada” sic!), trazida à tona pela matéria e passou descabida na edição. Quantos pesos e quantas (acusações) medidas? Curiosa edição: deveras capenga.

Meã culpa, errei em não ter enviado antes o i-meio para vossa excelência – sabedor da ordem das entrevistas, deveria (em nome da ética) ter perguntado antes se a leitura (e entendimento) coletiva estava equivocada? – não queria mandar para o endereço do jornal, Dunga ficou de enviar para você e não enviou. Peço desculpa, pela falha, mas não pelo texto: ping-pong-ping, cadê o pong? Mesmo sabendo da sua participação ativa na campanha passada, reluto em acreditar que a matéria tendenciosa tenha sido um ato proposital; concomitante, creio na sua labuta em prol o centro histórico e suas personas.

Contextualizando na blogesfera, o jornalista Sérgio Vilar, no ótimo “Diário do Tempo”, na nota “o tempo passa, o tempo voa”, faz uma analogia entre o gari e o jornalista: “limpa lixo pelas ruas e hoje já ganha próximo do salário de jornalista”, matutei e consegui achar a diferença (ou semelhança) entre ambas as dignas profissões, uma limpa o lixo, a outra (alguns) espalham lama. Como diz Fred Zero Quatro: “jornalistas mortos, não mentem”!

P.S
Apo(r)ético

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boy detonação on 16 de dezembro de 2009 at 18:11.

diploma de jornalista não tem valor nenhum. o próprio cassiano arruda, pra quem você trabalha, disse que não serve nem pra limpar a bunda.

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Abmael Galvão on 19 de dezembro de 2009 at 19:15.

Plínio não tem moral pra fiocar denigrando os outros.

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Jussier on 20 de dezembro de 2009 at 17:15.

Samba e Bamba, duas grandes picaretagens.

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plinio sanderosn on 21 de dezembro de 2009 at 9:02.

ab má el,
É imoral, não sabe nem escrever
FICAR, DENEGRINDO
VÔTS!!!

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