VERDE POR FORA, VERMELHO POR DENTRO

Por O Santo Ofício | 31 outubro, 2009

Por Franklin Jorge

 

Confesso que me causou estranheza o anúncio de que o jornalista Rubens Lemos Filho, o Rubinho – assim chamado por amigos e puxa-sacos – seria o secretário de comunicação da governadora recém eleita. Por um motivo muito simples: o moço havia servido ao candidato adversário, ex-governador.

Surpresa semelhante a que senti quando, alguns anos antes, o governador eleito Garibaldi Alves, o escolhera para a mesma função. Neste caso, por um motivo muito simples: Rubinho, além de muito jovem, era um ilustre desconhecido. Soube-se, no máximo, que era filho do radialista Rubens Lemos, que fora preso político etc etc. Talvez Garibaldi, político esperto e incapaz de botar a mão na cumbuca, quisesse deixar claro que no seu governo haveria lugar para todos os credos e cores.

Ora, logo pensei em países onde os compromissos são encarados com mais seriedade e a ética faz parte da prática de vida das pessoas e, especialmente, dos profissionais, razão pela qual um ex-ministro, por exemplo, fica impedido de exercer funções por um determinado numero de anos em empresas privadas que possam se beneficiar do seu conhecimento privilegiado obtido no exercício do cargo público.

Assim, o anuncio do nome de Rubinho, para servir aos interesses de Wilma de Faria, soara-me como uma espécie de estranhamento. Eu teria lido bem? Seu nome – o de Rubinho, claro – teria sido mesmo incluído na lista dos secretários nomeados? Por que? No mínimo, esse seria um governo de coalização, ou seja, que teria a participação do ex, apesar da luta renhida, entre a governadora eleita e o ex-governador derrotado, que ainda fedia a chifre queimado.

Mas, não. Era isso mesmo. Rubinho é que aderira ao novo governo, deixando claro para todos a sua vocação de governista nato. Não digo aqui que o seu pai, já falecido, o teria desaprovado. Talvez Rubens pai é que não tenha contado com essa mesma sorte de melhorar de vida, ele que, como sabemos, comeu o pão que o diabo amassou, por causa do seu ingênuo proselitismo de esquerda que quase o matou à mingua.

Dele me lembro de um fato que, na ocasião, me fez inchar de raiva. Foi assim: um dia, o editor Carlos Lima me telefonou e me pediu que entrevistasse Rubens Lemos, seu amigo de antigas campanhas, que estaria por aqueles dias lançando um livro de poesia por sua Editora Clima, que eu ajudara a divulgar trazendo a Natal, pela segunda e ultima vez, o escritor Jorge Amado, que lançou a sua “Tieta do Agreste” na inauguração da Livraria Clima, na velha Ribeira. Um dos maiores acontecimentos culturais que Natal já viu.

Não me opus, e fiz a entrevista que não rendeu o que eu esperava. Na verdade, como poeta, Rubens estava bem abaixo da critica. Contudo, sensibilizado pelo malogro de sua vida, passei por cima de alguns pudores e escrevi o melhor texto de que fui capaz.

No dia seguinte, ao abrir o jornal, notei que o meu texto fora inteiramente modificado; de minha lavra, tinha apenas, em verdade, a assinatura. Imediatamente, chamei o chefe das oficinas do jornal, Baltazar, e o interroguei a respeito da metamorfose pela qual passara o texto no lapso de tempo em que foi escrito e composto pelo linotipista (o sistema de impressão era outro, ou seja, ainda não havia internet nem computadores naquele tempo), após ter passado de minhas mãos para Baltazar e deste para as do linotipista…

Baltazar me disse então que o próprio Rubens, pessoa dos Alves, fora às oficinas e pedira o texto, reescrevendo-o integralmente e atribuindo-me a autoria de conceitos a respeito da sua poesia que jamais me passariam pela cabeça… Agora, o episodio constrangedor, que na época me fez ver o radialista com outros olhos, passa a fazer parte da nossa história cultural, vocacionalmente pobre, suburbana e vulnerável às empulhações.

 


3 Comentários

João Barreto on 31 de outubro de 2009 at 7:56.

Opa! Aqui tem coisa.

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NABUCO on 31 de outubro de 2009 at 11:12.

Brilhante resgate da nossa história, mesmo constrangedor e vergonhoso , o episódio precisava ser conhecido.

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Acrisio Santiago de Moura on 1 de novembro de 2009 at 11:25.

Eu tambem senti a mesma perplexidade…”Rubinho” era pessoa de Garibaldi, tanto quanto é de Wilma hoje, e eu pensava que havia mais que trabalho prestado, havia lealdade no serviço que ele prestava ao governador. Estava enganado. Ética não para todo mundo.

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