RAUL BOPP E EU
Por O Santo Ofício | 18 outubro, 2009
Por Franklin Jorge
Nascido quatro meses antes de Luis da Câmara Cascudo, em 1898, o autor de “Cobra Norato” havia pouco se aposentara ou estaria se aposentando da vida diplomática, aí por volta dos anos setenta, depois de viver mais de 30 anos no exterior.
Morava então num amplo e imponente edifício neogótico, na Praia do Flamengo, onde moraria também o poeta João Cabral de Melo Neto e outros membros ou ex-membros da diplomacia brasileira e estrangeira. Uma curiosa construção, luxuosa e sombria, numa das áreas residenciais mais valorizadas do Rio de Janeiro, um pouco imprópria — pareceu-me — como residência de um espírito tão jovial e dionisíaco como o de Bopp, um gaúcho cosmopolita que logo me acolheu com simpatia e cordialidade surpreendentes num homem de sua idade. Ao contrário de colegas seus, não menosprezava a informalidade.
Notei que havia nele uma certa ansiedade no sentido de reatar laços com o Brasil. Especialmente com os jovens, como eu, com o pé na realidade brasileira e ao mesmo tempo interessado em nosso passado histórico. Acho que foi isto e o fato de ser eu norte-rio-grandense, melhor dizendo, um nordestino, que terá despertado o seu interesse por mim. O nordeste fazia parte da sua cultura e da sua afetividade. Com o tempo, ele passou a ver algo de Oswald de Andrade em minha personalidade e o dizia com ar divertido.
Ao receber-me em sua casa, depois de conversarmos algumas vezes no escritório de Enio Silveira, na Academia Brasileira de Letras e no PEN Club do Brasil, disse-lhe que aquele edifício sempre despertara em mim uma grande curiosidade. Ao passar diante dele, eu ficava imaginando que tipo de pessoas o habitariam… Não sei por que, lembrava-me o Edificio Dakota, em Nova York. Ou o túmulo de um faraó.
Nesse dia conversamos sobre Natal, o Potengi, Jorge Fernandes e Cascudo, que ele conhecera talvez no Recife, ao tempo em que estudara Direito, nos longínquos anos 20 ou já depois, quando da aventura antropofágica de que foi um dos expoentes ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Conversamos também sobre o mistério das casas e as sugestões que despertam em alguns transeuntes que ficam fantasiando dramas, como Maria Helena Cardoso, que procurava adivinhar se nesta ou naquela casa moraria um criminoso, um pervertido ou um santo… As casas têm alma, sim, retrucou. Lembro-me que saí dali inebriado por um surto de felicidade.
Gaúcho de Santa Maria, porém criado a partir de um ano de idade em Tupaceretã, na região missioneira, voltamos a conversar depois sobre a vida rural (tínhamos ambos a mesma devoção telúrica), sobre os sortilégios da noite misteriosa e a grandeza inominável da Amazonia e da sua mitologia autóctone onde ele vivera e para onde eu iria alguns anos depois, levados, ele e eu, em grande parte, pelo espírito de aventura e por uma incontentável curiosidade intelectual que nos fizera intuir quando éramos ainda muito moços, que, de alguma forma, o Sul não norteia ninguém.
“O Norte…Todo homem sente obscuramente, na alma, a atração e o apelo do Norte”, disse-me então e eu anotei ao despedir-me, já sentado à uma mesa na Confeitaria Colombo, diante de uma xícara de odoroso e delicioso café que me servia o Gonçalo.
[...]




7 Comentários
Mirna Uchoa on 18 de outubro de 2009 at 12:29.
Lendo Franklin e aprendendo…
Ilma Procópio de Moura on 18 de outubro de 2009 at 19:14.
Desconfio que v. apenas começou a remexer nos seus guardados e deve haver ainda muito mais para ser revelado aos seus leitores. Quem o lê (desde os primeiros anos dos anos 70) sabe que v. ainda tem muita jóia rara para trazer a público. Esse artigo sobre Raul Bopp é uma preciosidade, como os que escreveu em outra ocasião sobre Peregrino Junior, Pedro Nava, Clarice Lispector, José Américo de Almeida, Guimarães Rosa e outros sobre autores nossos, como o José Humberto Dutra, Antonio de Souza, Nisia Floresta, Nilson Patriota, Maria Eugenia Montenegro, Newton Navarro (etc etc). Sua produção é vastissima e tem densidade e faz de v., nesse momento, um dos escritores brasileiros mais importantes. Seu azar foi nascer nesta terra de invejosos. Só isso.
Caio Konder (Estocolmo) on 18 de outubro de 2009 at 19:22.
Acabei de ler com a convicção de que o sr. deu novamente vida ao grande e injustamente esquecido poeta e homem finissimo que escreveu “Cobra Norato” e “Urucungo”, entre outros poucos titulos que fazem de Raul Bopp um dos nossos grandes criadores literários. Como carioca nato, só tenho a agradecer sua gentileza e senso de justiça.
Caio Konder (Estocolmo) on 18 de outubro de 2009 at 19:23.
Post Scriptum.
O Norte, de fato, tem carisma…
Seu Blog é uma excelente publicação e ajuda a projetar a cultura brasileira.
Wanda Reyes on 19 de outubro de 2009 at 8:26.
Bopp é um grande poeta. Há muito não era lembrado.Valeu!
Fernando D´Angelo on 20 de outubro de 2009 at 12:15.
Uma verdadeira missa cantada em memória de um grande poeta, nosso grande surrealista.
Ednaldo Dwight on 21 de outubro de 2009 at 18:35.
Vc sempre fazendo goals!!!