Homenagem a Maria Eugênia [7-7]

Por O Santo Ofício | 8 outubro, 2009

PRAÇA GETÚLIO VARGAS 19

Por Franklin Jorge

 

 

Diversa daquela biblioteca abacial descrita por Washington Irving em “A Mutabilidade da Literatura” – autor que encantou minha adolescência no Açu –, onde os autores, como múmias, são impiedosamente encerrados e ali abandonados para amarelecerem e se desfazerem no pó do esquecimento, a biblioteca de Dona Gena, a escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, não era uma catacumba literária. Seus livros estavam mais gastos pelo uso do que pelo tempo.

Ali, naquele ambiente que me pareceu sempre a ante-sala do paraíso, vivi na companhia de uma miríade de títulos alguns dos momentos mais intensos de minha vida.

Ali, em meio a multidão devoradora das idéias contidas nos livros dessa biblioteca laboriosamente constituída pela literatura mais relevante, oriunda das mais diversas culturas e países, senti-me insaciavelmente curioso, sem saber ainda que a curiosidade tem raízes no inferno, lugar onde vai dar toda a sabedoria.

Instalada numa sala cujas paredes eram revestidas de estantes, algumas envidraçadas e fechadas a chave, pois continham algumas preciosidades forjadas pelo gênio humano, entreguei-me ao prazer solitário da leitura, num ambiente limpo, ordenado e silencioso, em contraste com o tumulto da praça.

Presidia-o uma pequena e delicada aquarela de Martha Salém, em tons terrosos perpassados de uma estranha luz fantasmagórica, e, sobre a mesa de madeira clara, em estilo funcional, inspirada no Bauhaus alemão, os dois grifos de bronze que sustinham todo o Morais – um dos mais completos dicionários da língua portuguesa –, que pertencera ao pai de minha anfitriã.

 

Foi ali, na condição de leitor e de demiurgo de ébrias fantasias juvenis, que descobri alguns autores que seriam os meus mestres secretos e compreendi, sem ainda ter lido uma única linha de Borges, que sem leitura não se pode criar. Na clausura da biblioteca dessa notável mineira transplantada para o Açu, entregue ao rito orgíaco da leitura, ouvindo Debussy – cuja música misteriosa impedia Proust de trabalhar –, e às vezes, acariciando o dorso nervoso de Chérie, amável felina de olhos de ágata e aço, sentia esse tremendo medo de morrer sem construir uma obra que justificasse a minha existencia.

Ali, em meio a

 

                               Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio

                               Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia…

 

Washington Irving, que li na paz dessa biblioteca provinciana, na qual habitavam os grandes gênios da literatura, descobri um Irving mais profundo e diverso do autor de contos fantásticos, entre os quais “Rip van Winkle” que costumava ser incluído no repertório infanto-juvenil de minha geração e foi o primeiro texto seu que li ou ouvi de minha avó, numa daquelas horas de descanso após o almoço, na casa grande do Estevão, hoje pertencente ao doutor Paulo Fonseca.

Autor de uma curiosa “História de Nova York” desde o começo do mundo até o fim da Dinastia Holandesa [1809], publicada sob o pseudônimo de Diederich Knickerbocker, Washinton Irving [1783-1859] é considerado impropriamente, por alguns historiadores da literatura, como o primeiro romântico da América.

 Nascido numa família riquíssima de Manhattan, era um rapaz de hábitos refinados que freqüentava o circulo mundano de sua cidade, a antiga Nova Amsterdã de seus antepassados, fundada pelos holandeses após deixarem Natal, derrotados em sangrenta guerra.

De 1815 a 1832 viveu em Londres, onde escreveu algumas de suas obras mais populares e terá se inspirado para escrever o ensaio sobre a mutabilidade da literatura, ao visitar a Abadia de Westminster, túmulo de vários reis ingleses. Usou nessa obra uma epígrafe extraída de Drummond of Hansthornden, que, por mais que exija da memória, não consigo lembrar…

Washington Irving observou que existem certos estados de espírito de quase rapto, sob os quais fugimos do tumulto e da luz e buscamos algum recanto silencioso onde possamos dar amplidão aos nossos sonhos e, sossegados, como me quedei na biblioteca de Dona Gena, construir nossos paraísos no ar. Lendo-o, aprendi a refletir sobre as páginas que lia…

 

                A Márcio de Lima Dantas.

 

 

 

 


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