Homenagem a Maria Eugênia [5-7]
Por O Santo Ofício | 5 outubro, 2009
NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [2-2]
Por Franklin Jorge
Na endiabrada Calçada a opinião é livre. Mas há um contrato tácito entre os seus freqüentadores sobre os versos sotádicos, que só devem circular por escrito, embora passem de mão em mão, arrancando gostosas risadas que chamam a atenção das pessoas que transitam pela rua. Como não rir da verve de poetas como Renato Caldas e Chico Traíra? De viva voz, só os versos considerados “de salão”. O costume talvez seja uma deferência á dona da casa, a única presença feminina cativa da Calçada, embora eventualmente outras mulheres a freqüente, quase sempre, de passagem pelo Açu.
Quando prefeita de Ipanguaçu, Dona Gena enfrentou a calamidade uma enchente que deixou centenas de desabrigados, destruiu lavouras, casas e animais, levando-a sob risco de vida a percorrer de canoa as áreas alagadas do município, na companhia de homens que via pela primeira vez. Aberta às experiências, levou socorro ao povo necessitado, enfrentando os perigos com bom humor e determinação. Ela lembra numa dessas noites, sentada diante da sua casa, de uma velha que ajudou a salvar e que, recolhida a um depósito da Cibrazen transformado em asilo, recebeu a visita do médico. Impressionado com o estado da paciente, cochichou para a enfermeira, Essa velha não escapa; está com um horrível piado de peito. E a velha, erguendo-se vivamente do catre, corrigiu o diagnóstico. Não é piado de peito não, doutor; é só um pintinho, coitado, que eu tenho no bolso.
Numa dessas noites, Dona Gena organizou na Calçada um torneio de violeiros, para homenagear parentes mineiros que a visitavam. Um dos violeiros convidados perguntou ao poeta Alípio Tavares sobre a identidade de um menino que parecia ser muito querido por todos naquela casa. Quem é Athinho, companheiro? Alípio, amigo da casa, respondeu em versos –
Ele também é mineiro,
É sangue da mesma raça.
Uma mãe lá, outra aqui;
Uma beija, outra abraça.
Um filho com duas mães,
O pai fica Achando graça.
Doutor Nelson, cronista da Calçada, registrou em seus cadernos os versos que Alípio improvisou para castigar a avareza de João Monteiro, na época, ostentando grandes bigodes dalinianos, que parara um pouco para ouvir a cantoria. O parceiro de Alípio, ao ver chegar ali aquele estranho, animou-se com a perspectiva de recompensa pecuniária, lançou seu improviso de olhos fixos no desconhecido.
Este senhor que chegou
Veio nos trazer melhora.
Quem é este cavalheiro,
Que chegou aqui agora?
Desprestigiando as leis imutáveis da cantoria nordestina, João Monteiro retirou-se da roda sem dar satisfações, ou seja, sem depositar sua contribuição no prato colocado aos pés dos violeiros. Mas Alípio vingou o decepcionado companheiro, compondo um retrato-relâmpago do fujão muquirana.
Lhe afirmo, caro poeta,
Foi o que engoliu a bicicleta
E deixou os guidões de fora.
Enciclopédia viva e teatro, jornal falado d acidade e lenda, a Calçada de da casa de número 19 da Praça Getúlio Vargas, ex-Praça da Proclamação, é uma instituição cultural da cidade do Açu. Seus freqüentadores revivem, no sertão norte-rio-grandense, uma tradição milenar, quando os homens, depois de ganhar o dia com o suor do rosto, se reuniam em torno do fogo alegre ou nas praças, para conversar e contar histórias das Mil e Uma Noites. Herdeiro dos salões literários, remanescente dos usufrutuários dos jardins de Academos, a confraria da Calçada de Dona Gena e Doutor Nelson, como se diz no Açu, sobrevive cordialmente em um mundo desumanizado pela tecnologia e pela pressa.




1 Comentário
Luis Pimentel on 5 de outubro de 2009 at 11:23.
O Assu sempre vivo em sua lembrança, Franklin.