Homenagem a Maria Eugênia [4-7]

Por O Santo Ofício | 4 outubro, 2009

 

NA CALÇADA O RISO CASTIGA OS COSTUMES [Parte 1-2]

 

Por Franklin Jorge

 

Durante mais de 30 anos um grupo de velhos amigos se reúne todas as noites diante do número 19 de um casarão sesquicentenário, localizado à Praça Getúlio Vargas, na cidade do Açu, para exercitar o superior hábito do bate-papo.

 

Decorado com azulejos portugueses remanescentes de um passado que se dilui sem qualquer registro histórico, o casarão serve de residência a Maria Eugênia Maceira Montenegro – Dona Gena – e Nelson Borges Montenegro; ela, escritora e folclorista, nascida em Minas Gerais em 1915; ele, norte-rio-grandense, engenheiro agrônomo formado em Lavras, proprietário rural no Vale do Açu e chefe político com passagens pela Prefeitura de Ipanguaçu e Assembléia Legislativa do Estado.

 

São os dois os principais animadores culturais deste salão literário que, além de seus fiéis – constituídos de açuenses tradicionais ou honoríficos –, acolhe com freqüência visitantes e curiosos que se deixam seduzir pela prosa viva e espirituosa que flui entre risos e lembranças de um Tempo perdido e reencontrado.

 

Na calçada o riso castiga os costumes, contribuindo ainda para a preservação de um hábito social caro aos sertanejos – o da conversa noturna, relaxadora, gratificante, após uma jornada de trabalho. O poeta espanhol Vicente Aleixandre, Prêmio Nobel de Literatura (1977), pensaria numa sociedade assim quando escreveu que “conocer es reir” (in “Poemas de la Consumación”).

 

Renato Caldas, autor de chistes e epigramas que o povo admirado repete e transforma, popularizando sua verve, integrou por muitos anos esse grupo, desde que o mesmo foi se delineando de forma espontânea e regular em torno dos anfitriões, há quatro décadas.

 

Durante anos seguidos, entre as 19 e 22 horas, Renato contribuiu  para maior glória da crônica da calçada, glosando em versos histriônicos, sotádicos, maliciosos, e líricos, a pulsante realidade da província e do mundo. Essa rotina somente foi abalada quando a doença, afinal, triunfou, aprisionando o poeta na casa dos 80 anos, uma cifra que ele, eterno blaguer, definiu numa de nossas conversas, em sua casa, na Praça Pedro Velho, como “uma doença incurável e mortífera”.

 

Desafiado por um mote de Dona Gena (“No mar da tranqüilidade/Desceram tranqüilamente”), Renato improvisou sobre a conquista da lua:

 

 

                          Pra glória da humanidade,

                          Três astronautas voaram

                          E heroicamente pousaram

                          No Mar da Tranqüilidade.

                          Abriu-se o véu da verdade:

                          O Universo consciente,

                          Curvando-se, reverente,

                          Aos heróis, que, deslumbrados,

                          No Mar da Tranqüilidade

                          Desceram tranqüilamente.

 

 

Embora muitos açuenses continuem duvidando que astronautas norte-americanos desceram na lua, tudo não passando segundo eles de “balela para vender jornais”, o assunto apaixonou a opinião pública. Cidade orgulhosa de um passado cultural ímpar, o Açu rivalizou em muitas ocasiões com a própria capital do Estado. Possuiu teatros e jornais que circularam em grande número desde o século passado.

 

Em 1969, ainda sem aparelhos de televisão, o Açu acompanhou apaixonadamente, em meio a discussões e torneios de glosas, o noticiário da conquista da lua pelo rádio, único veículo de informação imediata a que tinha acesso através da cidade de Mossoró. A primeira emissora local somente seria instalada quase vinte anos depois.

 

A euforia, resultante do feito americano, contaminou sobretudo as camadas mais informadas da população, servindo de estímulo a visitas inesperadas e troca de informações. “Seria possível ao homem, mesmo americano, descer na lua ou tudo não teria passado de fotomontagem? Americano é fogo!” – era o comentário dos incrédulos. Os simpatizantes dos soviéticos, existentes em pequeno e aguerrido número no Açu, a “cidade vermelha” que ostentava ainda em seus muros palavras de ordem marxistas, rebatiam: — “Agora  vamos ver o que os russos farão!”

Povo curioso e sociável, sequioso de informações acerca de tudo na vida, o açuense detinha desconhecidos na rua, para colher detalhes sobre os astronautas que haviam descido na lua. A espantosa aventura de repente inseria a todos no futuro.

 

Os bares, habitualmente freqüentados por uma clientela cativa que lhes confere uma aparência de clube popular desprovido de estatutos e formalidades, se desdobravam para atender à clientela flutuante, incitada pelo desejo de confraternização. O reboliço provocado pelo feito foi generalizado e quebrou a rotina. Lembro-me que meus colegas de escola, em geral indiferentes aos acontecimentos do dia-a-dia, exceção daqueles de inclinações “esquerdizantes”, passaram a discutir com entusiasmo juvenil detalhes da operação.

 

Apolo, deus das estradas e da luz, batizou a nave espacial e conduziu o estro de Renato que, possuído de uma verve inesgotável, criava variações sobre o tema, nem sempre tendo o cuidado de anotar as sucessivas versões. Esta décima de sua autoria, recolhida por Doutor Nelson, foi improvisada na calçada de sua casa:

 

 

                            Abrindo as asas da glória,

                            Na amplidão ilimitada,

                            A “Apolo” deixou gravada

                            O grande feito da história.

                            Nessa imensa trajetória

                            Pelo azul da imensidade

                            O que foi feito, em verdade,

                            Jamais os tempos consomem:

                            Pequeno passo do homem

                            E grande da humanidade.


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