Homenagem a Maria Eugênia [3-7]

Por O Santo Ofício | 3 outubro, 2009

 A BIBLIOTECA DE DONA GENA

 

Por Franklin Jorge

 

 

Mais que a escola, educaram-me as bibliotecas. Amando os livros com o mesmo amor tátil que alguns homens devotam ao cigarro, ocorre-me destacar aqui, especialmente, a biblioteca de Dona Gena, Maria Eugênia Maceira Montenegro (Lavras, MG,1915/2006), que freqüentei entre catorze e dezessete anos, enquanto meus amigos da mesma idade brincavam e, à maneira deles, se divertiam.

 

Como Borges – que exaltou a biblioteca paterna –, creio não ter lido em vão aqueles queridos volumes, transcendentes estrelas e astros simetricamente dispostos no céu profundo e claro de um bonito e aristocrático solar da praça Getúlio Vargas, 19.

 

Estava escrito, em alguma página do enigmático livro da vida que nessa biblioteca sonhada por Dona Gena algum dia um jovem curioso e tímido, querendo saber o que outros ignoravam, entreteceria de leitura sua adolescência inquieta.

 

Nessa biblioteca cosmopolita que prefigurava o paraíso na terra, senti a radiação mental de autores invulneráveis como deuses e li, pela primeira vez, Gide e Clarice, Nietzsche e João Lins Caldas, Pessoa e Cornélio Penna, Tagore e Rachel de Queiroz, Virgínia Woolf e Nelson Rodrigues, Camus e Gilberto Freyre, Washington Irving e Murilo Mendes, Schopenhauer e José Geraldo Vieira, além da obra poética de Bandeira, Cecília , Henriqueta, Jorge de Lima, Drummond e Cassiano Ricardo, que logo depois orientaria  minhas primeiras tentativas poéticas.

 

E, pairando sobre esses autores e, confundindo-se com a multiplicação espectral da realidade que os livros proporcionam, a presença de uma amiga atenciosa com quem podia conversar sobre essas leituras que se acrescentavam a tudo que eu já lera, levado pelo instinto do que busca baudelaireanamente o seu semelhante, ou, ainda, esclarecido pela experiência de minha avó materna, uma mulher culta e nervosa que sabia escrever e conversar com fluência e espírito.

 

Imbuído do sentimento de gratidão devido ao inefável licor vertido por esses livros e pelas palavras de Dona Gena sobre o meu espírito, escreveria, anos depois, ‘’Paraísos de Papel’’, numa superação da impotência, da humilhação e da angústia, ao tempo em que vivia em Rondônia, um lugar que os cabalistas afirmam ser um dos ‘’portais’’ do inferno, ou segundo outros, uma terra de expiação e desdita.

 

Ali, sozinho e injustificado, atormentado pelo desejo de criar uma obra, comecei a escrever “Paraísos de Papel”, mergulhado na paz da Biblioteca Pública Francisco Meireles, da qual tornei-me um desfrutador constante e notado por todos. Algumas vezes, fazia-me transportar pela memória involuntária à minha adolescência no Açu e a uma outra biblioteca, forjada por Dona Gena, como uma pousada para o prazer e a perdição de alguém que desde cedo sabia que o seu verdadeiro destino seria a literatura.

 

E, por sabê-lo, muito antes que uma cigana de passagem pelo Sítio Estevão o dissesse, ao interpretar as linhas da minha mão, dispus-me a criar o meu próprio cânone, no âmbito sereno de uma ordem, não obstante ignorasse ainda que Jung havia incluído a leitura na mesma categoria dos sonhos e, talvez, dos pesadelos.

 

Por alguns segundos que todavia me pareciam eternos, eu voltava a ouvir Dona Gena discorrendo sobre suas leituras ou convocando suas lembranças de João Lins Caldas, poeta numeroso e único que antes de mim freqüentara sua biblioteca, privando por muitos anos da sua amável companhia e tornando-se, nessa longa convivência enriquecida pela admiração recíproca, o seu próprio mestre.

 

Algumas vezes, como prêmio laboriosamente conquistado, Dona Gena extraía de uma pasta um ou outro manuscrito do seu infortunado mestre e amigo e o lia em voz alta, dramatizando certos versos, tal como os ouvira há muito tempo da boca de Caldas, a quem reverenciávamos como a um altíssimo poeta.

 

Eu a ouvia, encantado, tendo entre nós sua mesa de trabalho ornada com dois grifos de bronze que sustentavam exemplares do Moraes e do Caldas Aulete, ambos herdados do seu pai, o engenheiro português Bernardino Maceira, de quem terá herdado mais que esses dicionários o gosto pela arte. Interrompendo-se em alguns trechos, para lembrar que Caldas chorara ao dizer-lhe este ou aquele verso, em seguida Dona Gena prosseguia a leitura, imprimindo à voz toda a emoção que o poeta comunicara através inflexões embargadas pelo sentimento.

 

Siderado pela diabólica palpitação daquelas vozes silenciosas, aprisionadas nos livros de uma biblioteca, vivi e morri de paixão com Tonio Kroger, Hamlet e Raskolnikov, para que no futuro tivesse motivos para refletir e escrever sobre a espécie de felicidade que resulta da usufruição da amizade e dos livros.

 

De súbito, chamado à realidade pela bibliotecária que, como uma divindade infernal anunciava o fim expediente, eis-me novamente caminhando com o meu obscuro destino pelas ruas de Porto Velho, ou de Milão, ou do Rio, ou de Buenos Aires, ou de Estocolmo, ou de Natal, pensando, sem escrever uma linha, na miserável contingência a que chamamos de condição humana.

 

Como pouco ou quase nada sabemos de nós mesmos, Dona Gena, sem o saber, cumprira fielmente o princípio básico que norteia a verdadeira e autêntica atividade intelectual – expresso na desinteressada transmissão do conhecimento.

 

À sombra benigna dessa e de outras bibliotecas que perlustrei e incorporei ao que sou e tenho sido ao longo desses fatigados cinqüenta anos, algumas vezes terei intuído que, como um dom gratuito atribuído por algumas potência celeste, recebi e perdi uma coisa infinita?    

 

[1990/2006]


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