ACADEMIA HOMENAGEIA MARIA EUGÊNIA
Por O Santo Ofício | 30 setembro, 2009
Da Redação
Natal - Transcorre no próximo dia 7 de outubro o centenário de nascimento da escritora Maria Eugênia Maceira Montenegro, escritora mineira que se tornou norte-rio-grandense ao casar-se em 1938 com o engenheiro agronomo Nelson Borges Montenegro, de tradicional familia do Vale do Assu, politico e proprietário rural em Ipanguassu, de onde foi prefeito e elegeu-se deputado estadual.
Cumprindo um dos seus ritos mais tradicionais, a evocação dos mortos, a Academia Norte-rio-grandense de Letras – da qual Maria Eugenia fazia parte – promoverá uma sessão solene dia 6 que terá a academica Anna Maria Cascudo Barreto como oradora. Eram ambas grandes amigas e a escolha não podia ter sido mais adequada, assegura Franklin Jorge.
Associando-nos à comemoração, publicaremos aqui todos os dias, até 7 de outubro, parte do que o escritor e jornalista Franklin Jorge produziu sobre a vida e a obra da escritora, que conheceu quando tinha apenas 14 anos e passou a frequentar a sua biblioteca particular, instalada num velho casarão colonial à Praça Getulio Vargas 19, na cidade do Assu. Uma amizade que os uniu por mais de 40 anos, até a morte da escritora após um longo sofrimento moral e físico.
Dando inicio a estas publicações, abrimos a série reproduzindo um texto de autoria do ensaista e professor do Departamento de Letras das Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Márcio de Lima Dantas, aqui publicado, acompanhado dos respectivos comentários dos leitores.
Quem quiser enviar depoimentos sobre a vida e a obra da escritora, asseguramos aqui a sua publicação, numa homenagem singela á memória de uma mulher admirável que, além da literatura e das artes plásticas, dedicou-se tambem á politica; foi prefeita de Ipanguassu, quando construiu a Biblioteca Pública Poeta João Lins Caldas e o Teatro Municipal Sinhazinha Wanderley, que os prefeitos que a sucederam extinguiram. Atualmente o município não tem biblioteca nem teatro…
Eis o que escreveu o professor Márcio de Lima Dantas em 19 de maio de 2009:
DAS BODAS ENTRE A MEMÓRIA E O EXÍLIO
Por Márcio de Lima Dantas
Professor de Literatura Portuguesa da UFRN e ensaísta
A meu ver, o que caracteriza a literatura autobiográfica da escritora, poeta e ensaísta Maria Eugênia Maceira Montenegro é o fato de ter sido edificada sobre um lastro de humilde sinceridade, de quem não está à procura de alinhavar experiências de vida visando plasmar um mito, inscrevendo seu número na cena literária do estado do Rio Grande do Norte. O livro Saudade teu nome é menina: memórias de uma menina feia, sua obra-prima, rege-se sob o postulado de uma necessidade imanente.
Quem conhece-a de perto sabe a envergadura dessa potência que a fez se embrenhar pelo mundo da literatura, embora seja uma pessoa interessada nos inumeráveis flancos da realidade. Sua voz sincopada, com uma suave nuance daqueles habituados ao mando, expressa uma sanguínia ancestralidade de quem se sente na obrigação interior de riscar seus rastros na História do lugar onde viveu, mesmo que tenha trocado “os cabelos verdes das montanhas” de Minas Gerais pelas periódicas secas da Várzea do Açu.
O livro é estruturado em capítulos breves, como se fossem crônicas autônomas, interligadas por uma cronologia tacitamente implícita. Com efeito, cada parte vale por si mesma, lembrando um pouco a maneira como Machado de Assis organizou os livros Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas: esquetes independentes, encerrados por uma síntese do que foi discorrido, encerrando na cabeça do leitor uma imagem mental rutilante e semanticamente densa.
Detentora de uma enorme faculdade de construir arrojadas e belas metáforas, junta-se a isso uma notável capacidade de entregar generosamente ao leitor os elementos constituidores de uma paisagem ou ambiente, para que se produzam imagens psíquicas nítidas que possibilitam de exilar momentaneamente o leitor da realidade nem sempre apetecível.
Aí é que entra a principal qualidade do livro. É que a linguagem consegue mesclar revérberos de uma oralidade advinda de uma narradora com uma retórica requintada, plena de ressonâncias ancestrais (seu pai era português; sua mãe, mineira de descendência burguesa) somando-se a um fluente manuseio das palavras no interior das frases, extraindo cadências sinuosas, enlevando o leitor e conduzindo-o ao mágico mundo do esquecimento e da quimera que a literatura cria.
O fato é que a linguagem suplanta despoticamente qualquer tentativa de aplicabilidade de uma teoria crítica rastreadora de índices, objetivando enquadrá-los em categorias ou conceitos. A prosa clara e escorreita seduz o leitor para mergulhar despido dos seus conhecimentos acadêmicos ou autodidatas. O lúdico se instala, seduzido pelas belas imagens contraídas pela menina-personagem quando do seu contato com o entourage que a circunda: flores, familiares, eventos do cotidiano são rastreados para que revelem uma essencialidade capaz de edificar um indivíduo com uma enorme responsabilidade perante a vida.
Contudo não se pode fugir à constatação de que a autora se permitiu uma excessiva liberdade no manuseio da linguagem, mormente quando se deixa arrebatar pelas exclamações no final de frases adjetivadas possuídas por enlevos incontroláveis e sentimentalistas. Sorte sua a de ter aposto na apresentação do livro o “sem pretensões literárias”, recurso que, de certa maneira, justifica os arroubos encomiásticos.
Quando, no primeiro capítulo do livro, evoca sua primeira recordação – a mordida do seu primeiro amiguinho de infância –, ou seja, a dor causada pelos dentes do garoto no seu pequeno seio de menina, a autora sutilmente nos sugere a motivação filosófica fundadora de toda autêntica literatura: o insofismável sofrimento humano.
[O professor Márcio de Lima Dantas publica aqui às segundas-feiras, mas nas últimas semanss, por problemas técnicos, o tem feito irregularmente...Nossas desculpas]
3 comentários para “DAS BODAS ENTRE A MEMÓRIA E O EXÍLIO”
.Irma Soledade disse: 19 de maio de 2009 às 23:48
Prof. Márcio: Não sei se D. Maria Eugênia, pessoa bonissima que teve um fim tão cheio de melancolia, teve a satisfação de ler este artigo. Há uma grande ternura nas suas palavras e mais que o conhecimento de um especialista a sensibilidade de quem é capaz de perceber o fenômeno humano em sua essencialidade. Quero que saiba que as lágrimas me vieram espontaneamente e de maneira irreprimivel ao ler este precioso ensaio para uma obra que tem todo o encanto da infância.
.Irma Soledade disse: 19 de maio de 2009 às 23:51
Estou ainda tão perturbada e comovida com a leitura desta página que esqueci de acrescentar o que me moveu a escrever estas linhas: seu ensaio é uma oração. O senhor, sendo um intelectual, é também um espirito religioso.
.Rizolete Fernandes disse: 21 de maio de 2009 às 10:27
Prof. Márcio,
Seu texto “As bodas entre a memória e o exílio” reinventa, na realidade, o casamento do conhecimento com a poesia. Como sempre, um passeio que explora e desnuda sentimentalmente a alma. Bonito!
Sua admiradora, a poeta
Rizolete Fernandes




6 Comentários
Selma on 30 de setembro de 2009 at 12:30.
Estou estranhando essa data: já li em FJ e em Marize de Castro que Maria Eugênia nasceu em 1915. Quem está errado??? A Academia? Ou os autores citados?
Rizete Medeiros on 30 de setembro de 2009 at 13:20.
Homenagem merecida, esteja certa ou não a data do centenário. Sempre é tempo pra comemorar o que é bom.
Olegário Veras on 30 de setembro de 2009 at 13:36.
Só assim eu relia essa cronica que falou tanto ao meu sentimento. É bom ter amigos que zelem por nossa memória!
Hermes on 30 de setembro de 2009 at 15:01.
Justa homenagem. Agora a familia vai saber tirar o seu quinhão…
Maria Barbosa - Ipanguaçu on 30 de setembro de 2009 at 15:44.
Que importancia tem se a data do centenário está certa ou errada? O importante é que se lembraram finalmente de uma grande benfeitora de Ipanguaçu.
Nany Pinto on 1 de outubro de 2009 at 6:24.
A escritora Maria Eugenia Maceira Montenegro nasceu em Lavras, Minas Gerais, em 7 de outubro de 1915.