A PAISAGEM HUMANA DE TOUROS

Por O Santo Ofício | 27 setembro, 2009

DONA LINDALVA TAVEIRA

 

 

 Por Franklin Jorge

 

 

Dona Lindalva Taveira, professora emérita, viveu mais de sessenta anos em Santos Reis, bairro que esbarra no Atlântico e homenageia os santos protetores de Natal, Melchior, Gaspar e Balthazar, guardiões do Forte. Nascida em Touros, chegou aqui em 1915, dentro de caçuás, sobre lombos de jumento.

 

Tinha apenas dez anos e a cidade a deslumbrou. Deu-lhe, desde então e por toda a vida, a idéia de metrópole. Aqui, seus pais foram morar primeiro na Ribeira, perto da casa dos futuros sogros de Aluízio Alves. Mas, nunca esqueceu sua terra natal e a homenageou, há muitos, compondo o Hino Oficial de Touros, que assim começa –

 

 

                                   Ó Senhor dos Navegantes,

                                   O mar da vida amainai.

                                   E ao porto que almejamos,

                                   Nossos destinos guiai…

 

 

Conheci-a um pouco antes de tornar-me um jornalista da Tribuna [do Norte], em 1976, como ativista e líder dos moradores de Santos Reis e Rocas, que então reivindicavam a retirada dos tanques de combustível da Petrobrás de Brasília Teimosa, ainda hoje um bairro favelizado e desassistido pelos governantes. Tinha, então, oitenta anos e a energia e a vivacidade de uma jovem.

 

Era uma mulher distinta, inteligentíssima, destemida, branca, magra, de olhos vivos e inquietos, bem humorada, cheia de espírito e verve. Recebeu-me esplendidamente em sua casa, numa praça de Santos Reis, com café, biscoitos, bolos, doce de goiaba, saídos de sua cozinha, e queijo fresco. Morava na companhia da irmã e, por saber do meu interesse por arte, mostrou-me uma pintura feita por um sobrinho, na época, morando no Rio de Janeiro.

 

Dotada da arte da prestidigitação, sabia cativar e impressionar pela palavra e, sobretudo, pela auto-ironia, um atributo do seu talento. Tinha graça, elegância e espontaneidade irresistíveis. Eu me lembro que essa foi uma tarde rica de revelações sobre a cidade e as pessoas que fizeram a história, especialmente, na área da educação, como o professor Clementino Câmara, autor, inclusive, de um maravilhoso livro de memórias, “Décadas”, que está a exigir urgentemente uma reedição.

 

Como supervisora escolar, percorreu o estado. Esteve em Angicos como professora, em 1928, quando teve o menino Aluízio Alves entre seus alunos. Deve te-lo impressionado e, por toda a vida, foi uma referência afetiva e intelectual para o ex-governador que, quando Ministro da Administração, no Governo do Presidente José Sarney, a visitou e por toda a vida nunca deixou, antes nem depois, de ir à sua casa para abraça-la e desejar-lhe vida longa.

 

Dona Lindalva foi amiga de Palmira Wanderley, que costumava visita-la em Santos Reis. Era, segundo recordação de Dona Lindalva, muito comunicativa; e tinha sempre uma palavra gentil para todos. Mesmo assim, confessou, não era feliz.

 

Já “transpondo o Cabo da Boa Esperança”, expressão que usou para enfatizar o pouco tempo de vida que lhe restava, cumulada de gratidão e reconhecimento, mereceu uma grande homenagem do bairro de Santos Reis e do povo da terra onde viu a luz pela primeira vez, sua querida e inesquecível Touros.

 

 

[1986]


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