A CASA DE CÂMARA CASCUDO

Por O Santo Ofício | 23 setembro, 2009

Por Franklin Jorge

 

 

O endereço residencial mais conhecido de Natal em todos os tempos, ali estive pela primeira vez levado por uma tia, Olga, que colaborara com o professor Câmara Cascudo, auxiliando-o em pesquisa e tradução de textos em língua italiana, ao tempo em que escrevia sobre Dante e a tradição popular no Brasil. Casada com italiano e professora de língua e literatura italianas na Faculdade de Filosofia, passara ali para entregar-lhe um livro ou uns papéis, não lembro mais, pois na a ocasião eu não teria, creio, mais de dez anos. Antes minha tia havia-me dito que iria levar-me para conhecer um grande escritor, seu colega de faculdade. Ao chegarmos,  ela me disse que no futuro eu lembraria deste dia.

 

Subimos a escada, após cruzarmos o portão que se encontrava sem cadeado nem ferrolho, pois naquele tempo a vida em Natal era tranqüila e calma. As ocorrências policiais seriam mínimas, mais relacionadas a desordens provocadas por bêbados e pequenos furtos, conforme os jornais da época. Tia Olga, de bolsa e sapatos de couro, vestia discreta e elegante chemise estampada em tons pastéis, fez-me precedê-la em dois ou três degraus, por ser esta a etiqueta exigida ao cavalheiro que acompanha uma dama.Eu me sentia orgulhoso de fazer-lhe companhia.

 

Antes de tocar a sineta, leu para mim, em latim, os dizeres gravados em um azulejo incrustado ao lado direito da porta, depois tão divulgados, até, por quem não sabia patavina de latim. “Encontrei meu porto…” Logo, ao entrarmos naquela casa, o que vi foi o piano dum castanho brilhante, solitário e emudecido, na pequena saleta que dava acesso à sala ao mesmo tempo de estar e de jantar e às demais dependências, o que incluía a biblioteca que me pareceu muito organizada e bastante atraente para um menino tímido e curioso que se encantou com vários objetos estranhos que soube indispensáveis em certos cultos africanos. À sua volta alguns retratos, inclusive o do maestro Villa-Lobos, com a curiosa dedicatória.

 

Fomos recebidos à porta, de maneira cortês e distinta, por Dona Dahlia, a quem minha tia telefonara antes, marcando a hora da visita, creio que um pouco antes do crepúsculo, pois me lembro que o admiramos na companhia do mestre e de sua esposa de uma das janelas do velho solar que me pareceu uma espécie de caverna encantada e aquela montanha de livros como nunca eu vira antes, a não ser na casa do meu tio escritor e jornalista, autor do magnífico prefácio do livro que Cascudo escrevera sobre a poetisa que o embalara nos braços e que lhe merecera a construção do mais importante monumento funerário em homenagem a um autor norte-rio-grandense.

 

A impressão que tive de Cascudo era a de que se tratava de um gigante. Nunca um homem me parecera mais alto, mais sólido, sob a farta cabeleira revolta, ligeiramente grisalha. Cascudo cumprimentou-me como se eu fora um adulto, o que mais me impressionou em relação à sua figura. Senti que se estabelecera uma misteriosa cumplicidade entre nós, pois naquele tempo eu vivia preocupado em me tornar um adulto, para gozar dos privilégios que gozam os adultos, segundo eu acreditava então.

 

Não prestei atenção ao que os dois conversaram, pois minha atenção vagava entre uma estante e outra, entre um objeto e outro, enquanto eu fazia um esforço tremendo para não ser mal educado e não tocar quaisquer daquelas peças que estavam ali apenas para serem vistas por eventuais visitantes. Dessa primeira visita lembro-me de uma senhora muito amável que somente anos depois saberia tratar-se de Dona Sinhá, cunhada do escritor, que morava em sua companhia. Depois, um pouco antes das despedidas, fomos convidados a tomar um copo de guaraná na sala de jantar, acompanhado de biscoitos champagne, onde não havia ainda o quadro pintado por Moacir de Andrade, que me encantara anos depois, quando já adolescente passei a freqüentar aquela casa e que me levou até Manaus onde conheci o grande artista amazonense, um outro mito do meu universo imaginário.

 

 

Bibliografia resumida de Luis da Câmara Cascudo

 

.Prelúdio e Fuga do Real

.O doente aprendiz

.Canto de Muro

.O Tempo e eu

.Ronda do Tempo

.Flor de Romances Trágicos

.Viajando o Sertão

.Dicionário do Folclore

.A Literartura Oral no Brasil

.Contos Populares do Brasil

.História da Cidade do Natal

.O Livro das Velhas Figuras (sete volumes)


4 Comentários

Amadine Sousa Barros on 23 de setembro de 2009 at 5:32.

Enquanto ferve a água do café, aproveito para saborear o que escreve Franklin Jorge: uma maneira agradável de inaugurar o dia. Obrigada, Franklin, pelo prazer que nos dá, publicando cronicas como esta! Também gosto de ler os comentários: isto é interatividade.

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Djanir Meneses on 23 de setembro de 2009 at 6:08.

Estou achando bom conhecer como vivem os escritores pela ótica destes artigos. Aguardo outros. O autor conheceu muitos escritores e artistas, já deu provas disto publicando artigos sobre as casas de W. Ayala, Maria Eugênia, Bernardo Élis, Cora Coralina, muito bons. Adorei ler. Continue que não lhe faltarão leitores e admiradores.

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Lilian Gontijo Rola on 24 de setembro de 2009 at 2:16.

É sempre bom ler um bom texto, ainda mais sobre este grande escritor.

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ROGERIO on 26 de setembro de 2009 at 13:42.

AMEI!

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