CASCUDO E O PADRE JOÃO MANUEL

Por O Santo Ofício | 14 setembro, 2009

 

Por Franklin Jorge 

 

 

Escrevendo sobre o padre João Manuel de Carvalho [1841-1899], mais jornalista e político do que religioso, nome de grande expressão no Império e nos começos da República, obtive uma desusada atenção dos leitores, encantados com a desabusada criatura que sabia como ninguém ridicularizar seus adversários, botando limão e vitríolo em suas erisipelas morais.

 

Mal publicada a crônica, folheando por acaso um velho livro, bati de frente com uma página escrita pelo polígrafo Luis da Câmara Cascudo em 1938 sobre o nosso irrequieto e polêmico personagem, o padre João Manuel de Carvalho, há muito dormindo profundamente um sono humilde e sem cuidados.

 

Nome de rua no aristocrático bairro de Petrópolis, em Natal, lembra Cascudo a participação do Padre João Manuel na política provinciana e na Corte, onde ocupou posição de destaque também no jornalismo e no clero, pois há pouco mais de um século foi pároco da prestigiosa Candelária, a igreja matriz da capital do Império do Brasil.

 

Apesar de padre, João Manuel cultivava um ódio fiel e constante contra os jornalistas que se vendiam aos poderosos, por entender o jornalismo como uma missão em favor da sociedade e a política, ou seja, os mandatos proporcionados pelo voto, a retribuição natural e justa de seus esforços de militante sempre disposto a pegar pesado cotra seus adversários e desafetos que não eram poucos nem inertes. Portanto, nada melhor que o voto, como pagamento, por sua luta por mais democracia e justiça social.

 

Filho do capitão João Manuel de Carvalho e de Quitéria Moura Carvalho, nasceu em Natal e ordenou-se no Seminário do Maranhão, em 1865. Fundador de “O Recreio”, o primeiro jornal literário a circular no Rio Grande do Norte, começou escrevendo no “Conservador” e tomou gosto pela política, graduando-se rapidamente nessa arte. Diz Cascudo que ele agradou depressa, falando e escrevendo. Poucos anos depois de jurar bandeira ao partido, criou, pela independência e atividade inconsciente de seu espírito, um lugar á parte no estado-maior de seu protetor, o coronel Bonifácio, velho cacique natalense que possuía do Conde de São Lourenço, segundo Cascudo, o raro talento de pôr asas nas costas de quem julgava capaz de vôo e recusando postos de realce para si mesmo. E o jovem padre foi em frente até a deputação-geral, que obteve não de mão beijada, mas porque soube esperar o momento em que o cavalo passava selado e habilmente o montou.

 

Aderindo à República, manteve-se longe do Partido Republicano fundado no Rio Grande do Norte por Pedro Velho, segundo uns, por orgulho, para não dividir seu cacife com um correligionário igualmente prestigioso. Pedro Velho, por sua vez, não se esforçou para atraí-lo, segundo alguns, por temer a sua imensa popularidade. Como deputado, propôs a abertura de estradas e instalação dos correios no Rio Grande do Norte, pouca coisa e de pouca monta, pois como política não era a terra que lhe despertava o interesse, mas os eleitores.

 

Era capaz de despender um esforço imenso para atender aos pedidos de um eleitor. A terra que se lixasse e, ainda mais, a igreja, embora tenha terminado seus dias como vigário de Amparo, importante município do Estado de São Paulo. Lá, mergulhou no ostracismo político, mas ainda mostrou suas garras como jornalista. E escreveu um delicioso livro de memórias, que, devidamente anotado por um bom conhecedor da história política brasileira da época, seria bem vindo se fosse reeditado.

 

Insatisfeito com a Monarquia, decepcionou-se rapidamente com a República. Cascudo conta-nos que, um ou dois dias depois da Proclamação, vestido à paisana, ou seja, de fraque, cartola e plastron [espécie de gravata usada pelos elegantes da época], compareceu a uma festa popular em homenagem ao novo sistema de governo. Usou um valioso camafeu para prender a gravata. Ao despedir-se dos amigos e novos correligionários, notou o desaparecimento da jóia. Procurou-a por toda a parte. Desencantado, curtindo o prejuízo, disse a frase que se tornaria famosa: “Querem ver que a República já começou furtando?”

 

 

 


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