A PAISAGEM HUMANA DE MACAU (3-3)

Por O Santo Ofício | 9 setembro, 2009

DOIDA POR POLITICA, MEDONHA E SAPECA

 

 

Por Franklin Jorge

Especial para a “Folha de Macau” – Edição comemorativa dos 143 anos do municipio

Macau – Encontramos D. Chiquinha de manhã, sentada na calçada de sua casa à Rua Tenente Victor 224, Centro de Macau. Muito extrovertida, ao ser informada do motivo da visita, reage, dizendo: Voltem mais tarde, minhas pérolas. Preciso me vestir adequadamente. Agora não estou pronta para dar entrevistas. Preciso estar banhada e perfumada para recebe-los… Podem voltar no fim da tarde para eu dizer as belezas da minha cidade…

Magra, hiperativa, talvez um pouco coquete apesar de seus 82 anos, sente-se lisonjeada com o convite do jornal “Folha de Macau” para falar sobre a crônica da cidade e, também, de sua experiência de vida.

Voltamos depois e a encontramos Dona Chiquinha bem vestida e perfumada, esperando-nos, ansiosa, para falar do passado embora declare, num tom vivaz, que bom é o dia de hoje, apesar da velhice. Olhe, minha pérola, estou acostumada com a velhice e não falo mal dela. Faz parte da vida. A única coisa ruim é que vai nos roubando a memória…

Já não me lembro mais de tanta coisa, mas do que me lembro, gosto. Gosto da lembrança dos prazeres e das alegrias que tive na vida. Por isso, gosto da velhice e não tenho medo da morte em si, mas de adoecer e ficar na dependência dos outros. Em minhas orações, peço muito a Jesus que não me deixe sofrendo em cima de uma cama…

Dona Chiquinha salta de um assunto a outro, sem pausa. Quero que conheça minha casa por dentro. Estava em petição de miséria e foi reconstruída pelo prefeito, graças a ação de João Batista, meu vizinho aqui de frente, que falou com o secretário Ubiratã e ele falou com o prefeito, que veio aqui e mandou reconstruir esta casa… Venha, venha ver… Agora, quando já estavam botando o piso, meu filho que trabalha na Petrobras disse que tomava conta do resto.

Ah, cheguei aqui em 1947 e encontrei uma terra boa, rica, muito movimentada, com um comercio pujante. Não sei se já lhe disse que sou filha natural do Assu, nascida no distrito de Água Branca, para onde nunca mais voltei. Meu pai se chamava Luiz Fernandes do Nascimento, que morreu em 1967, e minha mãe, Ana Valentim, que morreu em 1969; ele com 72 e ela com 71 anos…

Naquele tempo não havia aqui tanta violência como há hoje. Minha pérola, o que há hoje aqui é muita carestia e novos costumes. A maconha toma conta dos jovens. Sim, os costumes mudaram… Hoje, se alguém disser que uma moça é virgem, o povo censura; antes, uma boato desses a deixava mal falada. Mas, cada terra tem seus costumes, cada fuso tem seu uso. Temos que acompanhar as voltas que o tempo dá, senão ficamos para trás. O tempo não esperava por ninguém.

Dona Chiquinha já foi “a outra” de um ex-prefeito de Macau. Porém não tem motivos de queixas. A esposa legitima era relacionada com a sua família e nunca a prejudicou em nada. Quando o marido morreu, um filho do casal a procurou para aconselhá-la a entrar com ação na justiça, requerendo parte da herança.

Mas não fiz isto porque considerei que ele já me deixava uma boa herança, os dois filhos que tivemos. Mesmo assim seu filho, Floriano Bezerra, ex-deputado, insistiu. Não entrei com nenhuma ação, por este motivo e também por consideração à viúva, que nunca fez alarde contra mim. Adoro meus filhos e considero eles a minha verdadeira herança, como esta filha que mora comigo e o meu neto de treze anos.

Dona Chiquinha, aposentada como costureira, casou,  mas o marido a deixou. Fiquei só por muitos anos, na casa dos meus pais. Até que arranjei essa relação com Venancio Zacarias, com quem tive esses dois filhos. Ele era prefeito quando comecei a viver com ele, que me deixou essa herança viva. Aqui em Macau as mães só podem dizer que têm filhos iguais aos meus, melhores não…

Uma das paixões de Dona Chiquinha, que continua ainda muito viva, é a política. A política que promove, às vezes, muitos chafurdos e abala a vida das pessoas. Aqui em Macau a política é uma coisa. Só vendo pra crer. Uns atrasam a vida da cidade, outros a ignoram. E assim vamos levando a vida…

Hoje temos um prefeito que começou a fazer alguma coisa por Macau. Você já viu como a cidade está iluminada…? Até diminuiu o número das muriçocas que antes comiam a gente viva… O defeito desse atual prefeito é esse chafurdo que ele faz todos os meses, tirando e botando secretários. Nesse governo, ninguém esquenta cadeira nem demora na prefeitura. É um entra-e-sai danado. Só vendo pra crer. Parece que o homem não confia em ninguém.

Por muitos anos o que tínhamos aqui eram as belezas naturais. Nenhum prefeito se dava ao trabalho de melhorar Macau. O doutor José Varela, que chegou a governador e era daqui, só fez por Macau uma maternidade Esse José Antonio Menezes não fez nada por Macau. Não gosto nem de falar o nome desse homem…

Macau nunca teve uma primeira dama como dona Elizabeth. Que mulher! Caridosa, vive de fazer o bem. Ainda hoje está sempre procurando uma maneira de ajudar às pessoas. Sou fã dessa mulher… Sempre fui muito envolvida com política. Entrei na política por acaso e nela conheci Venancio Zacarias.                                                       

 

Um pouco esnobe, orgulhosa de suas relações, informa que em Mossoró tem uma amiga na deputada federal Sandra Rosado, que n ao conhece pessoalmente, mas não lhe sonega o voto. Ainda quero voltar pelo menos mais uma vez nessa mulher que duas ou três vezes por ano, no meu aniversário, no Natal e no Dia das Mães me manda um cartão pelo correio. É muita delicadeza…

Desde que votei pela primeira vez, fiquei com a obrigação de votar sempre que há eleição. E sempre vou a pé até a seção eleitoral, para que todos me vejam e me perguntem o que estou fazendo na rua. Eu respondo que estou indo votar… Por isso não aceito caronas, pois dentro do carro ninguém vai me ver e a pé, todos me vêem e ficam sabendo que fui votar…

Amiga do senador Dinarte Mariz, que a recebia em sua casa, em Natal, guarda dele boas lembranças. Era um velho amigo. Sempre que ia a Natal fazia-lhe uma visita. Quando e chegava lá, Dona Diva dizia, Seu Dinarte Mariz, está preparado para receber a visita de Dona Chiquinha Fernandes…? De Caicó ele me mandava queijos, curimatãs ovadas, mocós sequinhos, caçados nos serrotes da sua fazenda. Mandava por Equivel, seu filho adotivo que ainda mora em Natal, no bairro da Candelária…

Essa amizade com Seu Dinarte começou por causa da política. Fui apresentada a ele por Alfredo Teixeira, que era farmacêutico aqui e de sua esposa, Dona Delfina, que me convidou para ajudá-la na campanha. Sempre votei em Dinarte Mariz. Venâncio era a pessoa dele aqui… Hoje, a herança de Dinarte Mariz está liquidada. Os filhos não souberam levar a sua bandeira adiante. Não sei ouve mais ninguem falar nesse povo…

Ah sempre fumei e andei de sapato alto. Por isso, hoje, não saio mais de casa. Vou lá sair de sapato baixo! O sapato alto foi feito para a mulher. Quando ela sabe pisar firme e delicadamente, o sapato alto é sinônimo de elegância. Uma mulher de sapato alto é muito diferente de uma mulher de sapato baixo. Hoje, por causa da idade, não posso mais usar sapato alto e sair à rua de sapato baixo, não saio de jeito nenhum…

Pois como lhe disse, fumei durante 71 anos. Deixei de fumar de repente, sem ter feito nenhum plano. Todos os dias acordo entre as três e as quatro horas da manhã. Num desses dias, me levantei, liguei a televisão e sintonizei num desses programas da Igreja Universal e fui tomar banho. Quando voltei, o pastor estava abençoado copos dágua e disse que quem estivesse em casa enchesse um copo de água e levasse para a frente da televisão… Foi o que fiz.

Abençoada a água pelo pastor, Dona Chiquinha botou o copo em cima da geladeira. Algum tempo depois bateu um homem à sua porta, oferecendo lambedor de cupim. Minha filha comprou um frasco e eu tomei uma colher do lambedor. Logo me deu sede e resolvi beber a água benta… Pois foi aí que aconteceu o milagre. Quando fui acender um cigarro, arrepunei. Senti um gosto horrível na boca e nunca mais senti vontade de fumar… Não foi um milagre? Agora, não sou evangélica embora me dê com todo mundo e se um evangélico vier orar em minha casa as portas estarão abertas. Mas sou católica. Não praticante, mas católica. Até fui pessoa muito próxima do santo de Macau, o Monsenhor Honório, que me mandava fazer seus mandados, como pegar seus livros que ele tinha deixado em  cima da cama. Monsenhor Honório me chamava de Mazeda. Um dia ele me deu uma cipoada com o cordão de São Francisco. Eu era medonha, medonha (sapeca).


4 Comentários

Maria de Deca (Canto do Mangue) on 9 de setembro de 2009 at 13:00.

Que pena que esta série tenha chegado ao fim…

Reply

Liduina Melo on 9 de setembro de 2009 at 18:24.

Maria de Deca tem toda razão: é uma pena o fim desta série. Pela amostragem, Macau tem muita história e pessoas interessantes que podiam dar o seu depoimento ao jornalista Franklin Jorge.

Reply

Stênio Rocha on 9 de setembro de 2009 at 19:51.

Aqui em Volta Redonda o senhor ia ter muita gente pra entrevistar, como Priquito de Mel. Ela tem cada história que só vendo. Venha, que não vai se arrepender não.

Reply

Sidora on 10 de setembro de 2009 at 1:35.

Que pena que a “Folha de Macau” não seja vendida aqui.

Reply

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>