A PAISAGEM HUMANA DE MACAU (1-3)
Por O Santo Ofício | 7 setembro, 2009
DEDÉ, UMA MULHER SEM MENTIRAS NA BIOGRAFIA
Por Franklin Jorge
Especial para a Folha de Macau – Edição comemorativa dos 143 anos do municipio
Macau – Há 40 anos vivendo em Macau, onde tornou-se conhecida por seu carisma e por sua integridade, Maria José Fernandes Olegário, a Dedé para todos que a conhecem, orgulha-se de ter nascido em Tabatinga, no Alto do Rodrigues, mas nutre um afeto especial pela cidade de Macau que em sua opinião passou de repente por uma grande transformação. Macau foi maravilhosa para mim, enfatiza.
Quando cheguei aqui, no Porto de São Pedro, o bairro era uma lixeira cheia de gabirus. O mau cheiro estava por toda a parte. Em vez de calçamento, morros de areia. Hoje é o bairro que o senhor vê…
Aos 49 anos, só não é mais feliz porque é hipertensa e por causa dos assaltos de que tem sido vitima e da dificuldade de relacionamento com o pai. Homem violento, apesar de seus 79 anos, recentemente deu uma surra medonha numa filha que teve que procurar socorro médico. Estes os motivos porque não é inteiramente feliz, embora creia em dias melhores.
Dedé é proprietária do Bar Esperança, um lugar modestíssimo onde só vende bebida alcoólica, logo ela que diz detestar bêbados. Mas, viver é um desafio constante. Alegre, apesar das vicissitudes, ela me conta que começou a trabalhar ainda criança para ajudar a criar os irmãos, carregando areia da praia para vender aos fregueses de seu pai, quando ele bebia e ficava incapacitado de produzir alguma coisa para o sustento da família. E ela e o irmão mais velho transportavam a areia fornecida por um velho para atender aos pedidos dos fregueses.
Além do bar, dedica-se também à criação de galinhas, o que faz como uma terapia, para ocupar todo o seu tempo e não ficar em casa, pois do contrário acha que já teria morrido. Sou ativa e hipertensa. Nasci pra lutar. Não sei ficar parada dentro de casa…
Seu desgosto decorre do conflituoso relacionamento com o pai, que batia em sua mãe. Muitas vezes, quando voltava da escola, encontrava a mãe cabisbaixa, envergonhada, chorando, porque o marido lhe batera e até, lhe quebrara o braço. Ele bebe muito e não quer bem aos filhos. Não deseja o bem para os filhos, diz, a voz embargada.
O velho costuma beber e, por último, acertou-se com uma mulher descasada que costuma usar drogas com o próprio filho. Esse relacionamento é motivo de freqüentes conflitos. O velho tem uma aposentadoria e a pensão que lhe deixou a mulher, falecida faz algum tempo. Ele adora confusão… Se ele aparecesse aqui agora o sossego ia embora.
Dedé já teve muitos amores com pessoas do mesmo sexo. Por isso, diz que foi discriminada. Talvez essa desavença com o pai tenha a sua secreta origem nessa opção que hoje, para ela, tornou-se uma coisa corriqueira e não causa mais tanto escândalo como antes. Está nas novelas de televisão, nos filmes, nas publicações. Mas, naquele tempo, quando ela tinha apenas dezesseis anos e se deixou seduzir por uma camarada, a coisa era diferente. Caí em tentação…
Conversamos no terraço do seu bar, à Avenida do Centenário, no Porto de São Pedro, um bairro originalmente de pescadores, mas hoje já bastante descaracterizado, embora os pescadores continuem lançando suas redes e cuidando de seus barcos. Ah, tudo está muito mudado por aqui. Até bem pouco tempo o mau cheiro tomava conta de tudo. Até a brisa estava contaminada.Estou neste local desde 1970.
Muita gente fala mal desse prefeito, que é ruim para muita gente, mas eu estou gostando do trabalho dele. Macau estava suja há muitos anos e agora está ficando limpa. Durante 40 anos vivendo aqui, nunca tinha visto a cidade limpa. Falo o que todos estão vendo, pois tenho o meu meio de vida e não preciso dele para viver. Eu não vivo na casa dele nem ele vive na minha, mas me alegro pelo que ele está fazendo…
Dedé sempre teve em mente tornar-se independente e não ficar sob o jugo de ninguém. Ao contrário dos irmãos que trabalham para os outros, ela sempre teve seu próprio negócio. Sempre fui vendedora. Comecei vendendo baganas pelas ruas de Macau. Vendi muita bagana nas portas dos colégios. Só no Colégio da Ressurreição vendi durante 19 anos. Depois fui para o Mercado, onde tive um bar, até que vim pra cá…
Quando cheguei aqui, neste local, não havia casas não. Era tudo morros e descampados. Agora tornou-se um interior bonito. A única coisa que estraga Macau hoje é a violência. Os assaltos se tornaram uma rotina. A cidade não tem segurança. Já fui assaltada aqui em casa duas vezes. Os meliantes atacam em duplas. Quando fui assaltada pela primeira vez os dois estavam de moleton, capuz e boné. Mesmo assim reconheci um deles pelo andar. Eles me deram coronhadas que me deixaram desnorteada e sem ação. Eu liguei para a policia. Da primeira vez eles vieram mas não deu em nada. Da segunda disseram que não podiam vir porque a viatura não tinha combustível… É essa falta de segurança que estraga Macau.
Tudo o que tem conseguiu com o seu trabalho, sem esperar nada de ninguém. Assim conseguiu, como autônoma, inscrever-se e inscrever a mãe na previdência social. Conseguiu aposentar a mãe, que ao morrer deixou uma pensão para o seu pai se regalar com uma mulher que ele próprio diz ser de vida livre, portanto, tem o direito de deitar-se com todo mundo.
Dedé quer o melhor para os seus. Ajuda aos irmãos e adotou uma sobrinha com quem divide seus dias. Tudo o que tenho, algum dia, será dela. Comprei essa casinha em 1990… Você já percebeu que tenho cabeça e que sou uma pessoa que pensa. Cabeça sobre os ombros não é enfeite, mas utilidade. Sempre as pessoas me deixam por que desaprovam o meu envolvimento com a minha família. Apesar disso, tenho sido muito desejada. Mas não curto jovenzinhas.
Quando já nos despedíamos, Dedé foi lá dentro e voltou com as mãos cheias de confeitos que, sempre sorrindo, nos ofereceu.




9 Comentários
Cida Lopes (Candelária) on 7 de setembro de 2009 at 14:19.
O jornal “Folha de Macau” está de parabéns. Assim como o povo do Vale do Assu que lê artigos como este em exaltação as pessoas mais simples, quando o que se vê em outras publicações é a bajulação dos poderosos. José Antonio Degas está de parabéns.
GEMMA FIALHO on 7 de setembro de 2009 at 14:24.
Adoro ler o que você escreve! Já estou ansiosa para ler os outros dois artigos dessa Paisagem Humana de Macau!!!
Zulima Gomes de Medeiros Dantas (S. José de Mipipu) on 7 de setembro de 2009 at 15:27.
Franklin, nunca deixe de publicar reportagens como esta sobre o nosso povo. Vc é o único jornalista que respeita o povo e o apresenta aos seus leitores sem paternalismo, de maneira digna, é porisso que vc é tão lido e respeitado, porque todo mundo sabe que vc sabe valorizar o que temos de melhor, o nosso povo! Sou fã de tudo o que vc escreve e foi uma benção de Deus terem inventado a internet, porque só assim a gente pode ler vc a qualquer hora, sem depender da boa vontade dos jornais que só publicam baboseira de cronistas sociais, pensando que conquistam leitores, não é nada disso. Fazia tempo que eu não comprava jornais, aí um filho meu telefonou para dizer que tinha um artigo seu na Tribuna: corri para comprar, mas já tinha lido aqui o artigo sobre uma amiga sua que morreu, parenta da baronesa do Assu. Olha, estou colecionando essas “paisagens humanas”: de Touros, de Martins, de Antonio Martins, de Pau dos Ferros, de Macau, de Diogo Lopes, de Serra Caiada, do Ceará-Mirim, do Assu, e ainda espero ler tudo isso em livros. O que vc está esperando para publicar, homem? Se for falta de dinheiro, diga. Eu compro dez exemplares e me encarrego de vender uns 30 entre meus amigos. Não lhe faltam leitores, acredite, meu amigo!
Sueldo on 7 de setembro de 2009 at 15:40.
Dedé, grande figura humana, retratada com sensibilidade e consideração pelo nosso maior escritor e jornalista em atividade. Uma honra do Vale do Açu, apesar de nascido no Ceará-Mirim e d epertencer a tantos outros lugares. Nota 10, meu amigo!
Haroldo Serrano (Areia Branca) on 7 de setembro de 2009 at 16:18.
que personagem interessante! Amei esse artigo sobre Dedé.
Maria Antonia Gonçalves on 7 de setembro de 2009 at 17:43.
Admirável essa Dedé, sabendo viver com dignidade, porisso respeitada em Macau. Não fosse esse seu pai barraqueiro que lhe inferniza a vida…Deus a proteja, Dedé, e lhe dê saúde e tranquilidade.
Joaquim on 7 de setembro de 2009 at 19:13.
Uma grande mulher, essa Dedé de Macau. Jornalismo é o que faz Franklin Jorge. O resto é perfumaria e miudeza.
Luis Filho on 7 de setembro de 2009 at 19:14.
Parabéns.
Raniere Alves - Canto do Mangue on 7 de setembro de 2009 at 19:36.
Não sei como consegue descobrir gente tão surpreendente para entrevistar! Estou contando o tempo, para ler os dois capitulos dessa trilogia sobre o querido povo de Macau!
Quando virá conversar com o nosso povo???