UM POTIGUAR NO RASTRO DO TEMPO

Por O Santo Ofício | 5 setembro, 2009

Por Marcelo Abreu, do Correio BrazilienseBrasilia

- Em Jardim de Piranhas, cidadezinha quase próxima a Caicó, no Rio Grande do Norte, o vento fez a curva. É longe, longe de dar dó. E foi lá que, há 53 anos, nasceu o homem que falaria do tempo como se o tempo fosse ele mesmo. Depois de quase três décadas, ele, que jura ter 1,67m, continua falando do tempo com disposição de gigante. Luiz Cavalcanti é assim: cresce ao falar do que mais gosta de fazer. Filho de Severino Germano e Docelina, o menino queria ser arquiteto. Como, arquiteto? Em Jardim de Piranhas nem faculdade tinha. Quando ele completou quatro anos, a mãe morreu. Aos oito, foi-se o pai. E a educação de Luizinho, como o chamam até hoje em família, ficou aos cuidados de uma irmã mais velha. E foi pra casa dela que ele se mudou quando decidiu morar na Paraíba. Em Campina Grande, depois do ginásio e do científico, Luiz ainda sonhava em ser arquiteto. Arquiteto? Em Campina Grande também não tinha faculdade. Aí, ele teve que mudar de ideia. Decidiu que seria engenheiro. Mas a concorrência era muito grande. Luiz ouviu o conselho de um amigo: “Faz outro curso da área de exatas, tu passa e lá dentro muda pra engenharia”.

Esperto que era, Luiz, então, se inscreveu em meteorologia, na Universidade Federal da Paraíba. Foi aprovado com boa pontuação. E começou a estudar, de olho na mudança para engenharia. Deu-se um ano pra sacramentar a ideia. “Com poucos meses de faculdade, me apaixonei pelo curso. Me entusiasmei com aquela ciência que tratava ao mesmo tempo de matemática, física e química”, conta.

E lá se foram cinco anos e meio. Aprendeu ali que o tempo é muito mais do que medição atmosférica. Era a própria vida. Nunca mais o rapaz de Jardim de Piranhas pensou em arquitetura. Esqueceu a engenharia para sempre. Formou-se. Pensou no pai e na mãe, no dia em que recebeu o canudo de bacharel em meteorologia. E agora, o que fazer? Onde arrumaria trabalho? “Apareceu um estágio remunerado de quatro meses, de um salário mínimo, em Brasília. Não pensei duas vezes.”

Em 1983, Luiz desembarcou no Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ficou hospedado em um hotel de trânsito, dentro do próprio local onde faria o estágio. Aqui, logo se encantou pelo verde de Brasília. Virou um dos estagiários que ajudavam a prever o tempo da capital da República. Termina o contrato de quatro meses. Voltar pra Campina Grande? Mais uma vez, contou com a sorte. Por meio de uma tabela especial do Ministério — o país ainda vivia o regime militar —, Luiz foi efetivado no instituto. Virou o rapaz que sabia se ia chover ou não, fazer frio ou calor, se a seca arrebentaria ou não. Só que agora com carteira assinada. “Comecei a fazer isso ao vivo para a tevê. Em pouco tempo, era o chefe da divisão técnica do centro de análise e previsão do tempo do Inmet”.

O menino de Jardim de Piranhas que aprendeu a ler e interpretar o tempo casou-se na terra de JK. Nasceram os dois primeiros filhos. Separou-se. Casou-se pela segunda vez. Mais um filho. Separou-se. Está no terceiro casamento, desta vez sem filhos. E se derrete ao falar dos meninos: “A mais velha passou pra jornalismo aqui, na UnB, e em Santa Catarina. Preferiu estudar fora. Ela sempre foi muito aplicada e inteligente. Os mais novos estão no segundo grau”.

E como ele sofre, o homem potiguar. “Desde menino, minha paixão foi o Botafogo. Ele já me deu muitas alegrias. Hoje, só sofro…” Em Campina Grande, onde virou adolescente, aprendeu a torcer pelo Campinense Grande, o time da juventude. “Tá na lanterna da Série B do estado”. Melhor parar por aqui…

Voltemos, pois, ao tempo. O miúdo Luiz se agiganta ao falar do assunto que lhe palpita a vida. “Quando eu era menino, o tempo era apenas o meu bem-estar. Assim que acordava, olhava logo pra janela. Sabia se ia dar ou não pra tomar banho no rio. Hoje, todo dia, quando acordo, continuo olhando da minha janela. É como se voltasse à minha infância…”

Hoje, porém, o menino não toma mais banho no rio. Para executar as atividades do tempo, além do trabalho da equipe de nove previsores, ele conta com supercomputadores, capazes de cálculos inimagináveis e análises sofisticadas de radares e satélites para montar os mapas do instituto. Viajou cinco vezes à Europa para fazer cursos na sua área. E revela, sem medo de errar: “Nossos índices de acertos para Brasília estão entre 90% a 95%. Podemos fazer uma excelente análise com até cinco dias de antecedência. É muito bom para uma semana. Em meteorologia não existe adivinhação. Os dados são científicos”. Cheio de orgulho, conta: “Recebemos o ISO 9000 (certificado de qualidade), com índices superior a 80% de acertos”.

Sobre as críticas que o instituto eventualmente recebe, ele manda um recado: “A gente não faz o tempo. Prevemos. Só atingiremos 100% de acertos quando a gente virar Deus”. Mas admite, também, que, há 20 anos, quando estava começando, os equipamentos eram obsoletos. “Os dados de que dispúnhamos eram reais, mas a interpretação deles dependia muito da subjetividade do previsor.”

Luiz é mais conhecido em Brasília do que nota de R$ 2 e do que seu Fiat Tempra branco 1995, carro que o leva e traz há 14 anos. “Aonde eu vou, a primeira pergunta que me fazem é se vai chover ou não. É o garçom no restaurante, na loja de parafuso, na padaria, na frutaria da 315 Sul, onde moro. Ouço e respondo com a mesma satisfação da primeira vez.” E explica por que, perguntando: “Você é capaz de citar uma atividade humana que não precisa de informação do tempo?”. Ligeirinho, ele mesmo responde: “É claro que não. O tempo se faz presente na agricultura, nos transportes de todos os tipos, na pecuária, na produção agrícola e na vida pessoal de cada um de nós”.

Mas a pergunta que ouve na rua é a que mais faz tocar o telefone do instituto. “Em casamento, é a primeira coisa que fazem. Em festas de criança, as mães chegam a perguntar se vai chover naquele dia no quintal da casa delas porque ali é o local do pula-pula. Tem gente que liga pra saber se pode pegar o avião sem susto. As pessoas perguntam tudo. É o tempo interferindo na vida delas”, observa, tinindo de contente.

Nos momentos de lazer, Luiz gosta de comer bem. E não dispensa um bom sarapatel na Feira do Núcleo Bandeirante ou uma carne de sol em algum restaurante nordestino de Brasília. Quando quer descansar, foge com a família para Olhos D’água, onde tem uma casinha. É lá que ouve o seu Gonzagão, o rei do baião, como gosta. “Tenho todos os discos dele, mas também escuto música clássica e uma boa MPB. Só não consigo escutar funk”, entrega.

Daqui a sete anos, Luiz se aposentará. Em quase 27 anos, nunca tirou licença-prêmio. Guarda-a para somar com o tempo final de serviço. Mas já planeja: “Vou comprar um jipe e sair pelo interior do Brasil, fotografando. Quero fotografar natureza e pessoas. Conhecer gente. Depois do tempo, fotografia é o que mais gosto de fazer”.

A primeira previsão meteorológica de que se tem notícia foi publicada no jornal A Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1917. Foi o marco. Era o grande acontecimento da época. O trabalho foi realizado com uma pequena rede meteorológica e uso de telégrafo. Hoje, 92 anos depois, muita coisa mudou. Existem supercomputadores, satélites e radares de última geração. Leitura precisa, beirando a perfeição. “Todos os dias, intuitivamente, assim que acordo, olho pra janela”, assume Luiz, o homem que fez do tempo um aliado.

 

 


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