A PAISAGEM HUMANA DE SERRA CAIADA (1-2)

Por O Santo Ofício | 4 setembro, 2009

 


FRANCISCO TEIXEIRA CONFESSOR


 


Por Franklin Jorge


 


 


               


Eis um homem que aprendeu com o Tempo e só não adivinha porque a mãe lhe cortou o Dom ao contar às pessoas que Francisco, antes de nascer, chorava em sua barriga. Também já veio ao mundo de olhos arregalados para as coisas do mundo, numa época já distante em que no sítio Bom Sucesso, em Santa Cruz do Inharé, só passava carro-de-boi


 


Conheci-o numa concentração política em Serra Caiada, onde conversamos durante horas sobre o seu fraco de andar a cavalo. Em menino e rapaz, na fazenda do seu pai, havia cavalos bons de montaria e Francisco nunca deixou de fazer bonito sobre uma sela. Ainda agora, maior de oitenta anos, tem a sua montaria que o leva para todo canto.


 


Viveu sempre na lagoa dos Novilhos, bebendo e achando graça de tudo. Sempre ganhou a vida viveu comprando e vendendo gado por essas ribeiras do Rio Grande e da Paraíba. Tem filhos que nunca viu, espalhados pelo mundo,vasto mundo. Curandeiro, diz-se do lado do Rei Salomão. É homem valente, mas não mata cobras. Matar cobras atrasaria o seu expediente na terra.


 


Francisco nasceu na riqueza, mas nunca foi rico. Sempre gostou de virar os bolsos. Toda a vida foi um Cão vivo, fazendo farras de doido, andando para todo canto com revólver, punhal e uma Macaca, que ele explica ser uma espécie de chicote usado pelos vaqueiros do Agreste. Nunca encontrou boi que não derrubasse.


 


Agora não está bebendo mais porque está com essa idade, embora seja ainda duro como no tempo em que botava as mulheres mais afoitas para correr.


 


Refletindo sobre a realidade, diz que o político é uma gente poderosa mas sem fiança. Acredita que com a verdade a gente chega aonde quiser.


 


Homem que faz o que quer fazer, nunca estudou, não tem letras, mas doutor nenhum quebra o seu quengo. Quando moço, gostava de beber e sambear. Dançou até o ano passado, conta-me, satisfeito com as suas memórias de dançarino e pé-de-valsa.


 


Trabalhou na agricultura, atividade eu não recomenda a ninguém. Quanto mais se trabalha lavrando a terra, mais a gente deve e morre de fome. Negócio bom, para ele, é criar bois. Não emprega muita mão de obra não. Tem as doenças, sim, mas a lavoura tem as pragas.


 


3 Comentários

Adélia Vanazzi on 4 de setembro de 2009 at 23:57.

Esses perfis ricos de humanidade, por um dos nossos maiores jornalistas, já estão pedindo o formato de livro. Já estou na fila para adquirir e reler com o mesmo prazer com que o faço agora, em dose homeopática.

Reply

Assis Galo on 5 de setembro de 2009 at 1:45.

Vc sempre descobrindo pessoas interessantes e curiosas para entrevistar! Gostei quando o velho diz que já botou muita mulher afoita pra correr… Cabra macho tá aí!

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tertuliano on 5 de setembro de 2009 at 17:46.

ratifico os comentários acima sobre sua forma peculiar de traçar tipos. abs.tertu

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