EM MEMÓRIA DE MARTHA SALÉM

Por O Santo Ofício | 31 agosto, 2009

Por Franklin Jorge

Faleceu no último sábado em Natal e  foi enterrada no Cemitério de Nova Descoberta dona Martha Wanderley Salém, assuense de velha estirpe, prima em segundo grau da Baronesa de Serra Branca, D. Belisária, primeira grande proprietária rural potiguar a libertar seus escravos e a recepciona-los com um jantar em que, vestida de touca e avental, os serviu solenemente da mesma maneira como se acostumara a ser servida.

Ainda menina, o pai a levou para conhecer a prima baronesa em seu solar, atualmente a Casa de Cultura do Assu. Uns setenta anos depois, D. Martha me contava que ficara decepcionada, pois esperava encontrar uma grande personagem, luxuosamente vestida e coberta de jóias, cercada de serviçais, e deparara com uma mulher simples, falando pouco e baixo, curiosa acerca dos familiares, modestamente vestida… Era D. Belisária uma dama ascética e piedosa, sendo o seu único luxo a carruagem puxada por duas imponentes parelhas de cavalos puro sangue que a transportava do Assu aos seus dominios de Serra Branca, em Santana do Matos. Dona Martha a descrevia como uma mulher “quase sem carnes, chochinha e sem graça…”

Amiga de mais de quarenta anos, adorava ouvi-la discorrer sobre o passado da nossa querida e velha cidade. Lembro-me a propósito do quanto aprendi sobre os hábitos alimentares dos assuenses há mais de 100 anos; dos assuenses, claro, da sua categoria social e de outras peculiaridades etnográficas que eu ia buscar no fundo da sua memória.

Filha de Minervino Wanderley, tesoureiro e administrador das propriedades e bens pertencentes à Paróquia de São João Batista, que apesar de santo chegou a ser um grande latifundiário, fez parte da primeira turma de alunas do tradicional Colégio Nossa Senhora das Vitórias, administrado por religiosas austríacas que lhe ensinaram três idiomas, o alemão, o inglês e o francês.

Voluntária avant la lettre, dedicou-se por mais de setenta anos a ensinar esses idiomas, especialmente o alemão que era a língua natal de suas inesquecíveis mestras estrangeiras. Há uns cinco ou seis anos, almoçando em sua companhia, perguntei-lhe se recebera alguma vez alguma manifestação de reconhecimento do governo alemão e ela respondeu-me que não.

Nesse mesmo dia – um domingo – ao voltar para casa, escrevi um artigo a respeito e, após publica-lo no Mensageiro Potiguar, mensário criado pela jornalista Nadja Lira, remeti-o ao embaixador alemão em Brasilia, encarecendo o pioneirismo de Dona Martha como propagadora entre nós do seu idioma. Pouco depois, ela foi procurada pelo cônsul que a homenageou, se não me engano, com uma comenda…

Por muitos anos lecionou sem cobrar nada dos alunos que escolhia, por simpatia ou por qualquer uma outra razão misteriosa, nunca por dinheiro. Ela me contou em certa ocasião que começara a ensinar após ter enviuvado, para preencher o grande vazio em que mergulhara e que se agravaria depois com a morte de um dos seus três filhos, o médico Emilio Salém.

Por muitos anos Dona Martha viveu em Mossoró. Soube muito de Mossoró por seu intermédio. Antes de conhece-la pessoalmente, conhecia sua casa no Alecrim, na Avenida coronel Estevão, famosíssima, justamente, porque ali morava uma mulher excepcional que se dedicava à pintura (era uma requintadíssima aquarelista), á jardinagem e ao idioma alemão.

Dizia-se admiradora dos meus escritos e muito do que escrevi sobre o passado do Assu colhi durante nossas conversas, a última num almoço memorável em sua casa. Sempre se fazia presente em minhas noites de autógrafos, como a do Natal Shopping, quando lancei meus “Fantasmas Cotidianos” e tiramos naquela ocasião a nossa única foto. Ela chegou inesperadamente, sem convite, na companhia de Martha Maria, dizendo-me que o fazia em nome do Assu.

Tinhamos em comum o mesmo tronco ancestral – Gaspar, o capitão da guarda do principe Mauricio de Nassau, que aconselhava aos filhos “seja sempre um fiel Wanderley” -, pela minha avó paterna, Diolinda, a querida “Vovó Diola”, uma autentica Wanderley  (da Fonseca) pernambucana…

O Assu perde em Dona Martha uma das suas últimas grandes damas. Fina, inteligente, dotada de multiplos talentos, eximia na arte da conversa.

 


12 Comentários

Minervino Wanderley on 31 de agosto de 2009 at 14:24.

Obrigado, amigo.

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Uma ex-aluna de alemão on 31 de agosto de 2009 at 14:53.

Foi uma grande mulher e o jornalista Franklin Jorge a retratou perfeitamente neste admirável artigo.

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Mary on 31 de agosto de 2009 at 15:35.

Fui aluna de D. Martha. Tudo o que está escrito aqui é verdade e dou fé.

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Eulália Fonseca on 31 de agosto de 2009 at 19:21.

O genero humano ficou mais pobre…

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Abelardo Filho on 31 de agosto de 2009 at 21:31.

Quanta gente interessante F.Jorge tem conhecido! E sempre tem a generosidade de compartilhar o conhecimento delas com os seus leitores. Essa D. Martha me pareceu um exemplo de vida. Tem razão o leitor que afirmou que sua morte desfalca o genero humano.

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Jandyra Simonetti on 31 de agosto de 2009 at 22:23.

Nunca tinha lido nada sobre a baronesa de Serra Branca, nem sabia o seu nome…Agora me vem o jornalista Franklin Jorge com esse depoimento que ouviu dessa sua querida amiga que acaba de falecer. Como temos uma história rica e desconhecida! Villaça é quem tem razão: “Franklin faz o grande jornalismo, aquele que é cultura e conhecimento”! Sucesso, Franklin. Seu Blog é show!

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Rossana Chacon on 1 de setembro de 2009 at 8:42.

Conheci pouco a D. Martha, mas mesmo com este pouco conhecimento, afirmo que tudo o que está escrito acima sobre ela é verdade! Pessoa fina destas que parece não se fazer mais!
Condolências a família.

Rossana Chacon

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Mariana on 1 de setembro de 2009 at 11:29.

Resquiecat in pace!

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vicente vitoriano on 3 de setembro de 2009 at 22:44.

não conheci dona martha, mas a notícia de seu falecimento me tocou muito. creio pelo fato da sua abnegação em ensinar arte até bem há pouco tempo, segundo me consta. ao lado de d. marieta lima, irmã miriam, terezinha davi, ela forma uma constelação de professoras de arte cuja memória não podemos deixar evanescer. grato a você franklin pelo primoroso registro.

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Tereza de Fátima on 6 de novembro de 2009 at 10:28.

Parabenizo o jornalista Franklin Jorge, pela reportagem, ouvi muitas vezes minha avô falar sobre dr. Emílio Salém,moro vizinha a casa da cultura, onde foi o castelo da baronesa,nobre mulher de atitudes tão generosas.

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Profa. Silvia de Sá Leitão on 18 de agosto de 2010 at 10:38.

Prezado Franklin,

Parabenizo pelo artigo ressaltando a professora Martha Wnderley. Senhora de tamanha representatividade para a historicidade Assuensse e norte-riograndense.

Sinceros sentimentos a toda a familia.

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jose maria on 24 de outubro de 2010 at 11:07.

eu tive o imenso prazer de ser aluno dessa grande e maravilhosa senhora.

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