EM MARTINS
Por O Santo Ofício | 31 agosto, 2009
Por Franklin Jorge
Martins — Chegamos a Martins às quatro horas da manhã, Marcos Sueldo e eu. Uma névoa fluorescente cobria a serra silenciosa e espectral, coroada por uma solidéu de estrelas hipnóticas.
Notei, a partir do bucólico distrito de Lagoa Nova, que o povo de Martins acorda cedo, talvez para enfrentar o frio que nos enregela a medula.
Cidade dotada de personalidade, estação turística em potencial, os moradores de Martins gabam-lhe as virtudes. Viver nela é rejuvenescer dez anos, graças ao seu ar puríssimo, vivificante, em meio a sítios e pomares que conferem uma atmosfera ecológica à cidade, velha de mais de duzentos anos.
Exceção de um horrendo primeiro andar, construído numa esquina da praça da Matriz, o casario de Martins não tem a presunção reformista de outras cidades que não respeitam a tradição e se danam a derrubar tudo aquilo que lhes parece “fora de moda”. Foi o que aconteceu e continua acontecendo na cidade do Assu, desfigurada em sua arquitetura original. Especialmente depois da chegada de pessoas da familia Vieira Diniz, oriunda de Alexandrias, no outro extremo do estado.
O patrimônio histórico de Martins é limitado e pobre, mas possui alguns exemplares interessantes e bem conservados, graças ao zelo de um povo cônscio de seus deveres na defesa da memória da cidade rica de tradições. Um exemplo dessa cidadania martinense, a reação da professora Azelma Lisboa, diretora da Escola Almino Afonso – que possui em seu acervo algumas raridades bibliográficas, entre as quais uma edição muito antiga de “Os Lusíadas”-, que o então secretário da Educação e Cultura do Estado, professor Dalton Melo, quis transferir para Natal. Felizmente o crime de lesa-cultura ficou apenas na intenção. Certamente, ele não contava com a reação do esclarecido povo de Martins, que fez valer sua autoestima.
Fragmento de “Viagens na Minha Terra” [Inédito]




4 Comentários
Da Mata on 31 de agosto de 2009 at 11:43.
Viagem à tromba do elefante
Vou em busca de procurar cidades, tardes e brisas de lugares antes só apreciados nos mapas e nomes. Belos nomes os da minha aldeia. Tangará, Santo Antonio do Salto da Onça, Jandaíra, Santana dos Matos, etc. Atravesso o elefante rio-grandense do norte. A margem é verde e frondosa. Muitas cruzes nas estradas lembram do reino de lete. Garças suspensas no ar suspendem a manhã tropical. Em Lajes a primeira parada para tomar café. Bolos e canjicas pesadas ao peso. O café aquece o peito dos quatro viajantes e um destino: A Serra do Martins. Terra do meu amigo Junior, que enriquece de lembranças, amizades e sentidos o que a cidade esconde para viajantes apressados. Por sob as cores, sombras e monumentos da cidade escoa um rio de lembranças.
Dia de feira no interior é dia de festa e encontros. Na pequena feira da cidade o meu amigo Junior encontra pessoas da sua infância. Um senhor grisalho olha quase sem acreditar. – É o Junior? – Sim, é ele mesmo, O amigo conterrâneo e contemporâneo. Um milagre que só a vida pode proporcionar. Duas vidas que correm paralelas se encontram na cidade-infância. A professora Francisca encontra o aluno Junior e o abraça. Ali o local onde funcionou a loja onde foi comprado o primeiro livro. O homem volta a ser menino na sua Pasárgada antiga e nunca esquecida. A cidade e a Serra. Sinto como se estivesse lendo uma historia narrada com linhas vivas.
No sábado de feira um homem bêbado vai pelas ruas fazendo discursos. No mercado recém inaugurado muitas frutas, panelas de flandres, chocalhos, tiras, rodas e chapéus de couros. As roupas encontro em qualquer lugar. Em frente uma lan-house e na parede uma gaiola com passarinhos. Cachorros esparramados em plena rua repousam profundamente num silencio de pedras.
No museu histórico da cidade, antiga residência do senador Almino Afonso, muitas fotos de seus moradores mais ilustres. Em uma praça no centro da cidade, próximo à rua das pedras, esconde-se por entre folhas de uma árvore frondosa, o busto do escritor Raimundo Nonato, nascido em Martins a 18/07/1907. Bem próximo a capelinha mandada construir pelo pai que não queria que seus filhos fossem servir á sanguinária guerra do Paraguai.
Do mirante da Carranca uma vista deslumbrante dos açudes, cidades, serras e torreões. A centenária casa de pedra e suas estalactites no sopé da serra é visita obrigatória, com seus quartos, corredores e sala. Do promontório vê-se essa belíssima casa e sinto no ar o aroma do verde que embriaga. Sinto a presença do Rouxinol de Keats. A tarde vai embora com o seu crepúsculo e o manto da noite desce iluminando as cidades de pontos luminosos. Os vagalumes piscam. Lá longe os relâmpagos anunciam vendavais.
A casa de cultura estava fechada (elas estão sempre fechadas). Na Escola Estadual Almino Afonso que completa um século de existência, encontra-se o museu Demétrio Lemos. Além de uma bela coleção em bronze com as figuras ilustres de Dante, Galileu, Milton, Camões, Virgilio, etc; encontra-se uma preciosa coleção de livros raros, com destaque para as edições monumentais de Os Lusíadas, de Camões ( edição Biel dedicada a Dom Pedro II), O Orlando Furioso, de Ariosto e o Inferno, de Dante.
A cidade também abriga uma rica coleção de peças retiradas de escavações. Valiosa coleção arqueológica e paleológica que conta a pré- história da cidade.
Depois de nos despedir da cidade uma breve visita à cidade de Portalegre, também na tromba do elefante. No hotel muitas fruteiras. Depois de nos deliciarmos com as frutas retiradas do pé, resolvemos retornar à Natal via Caicó. Ao passar por Viçosa percebemos com alegria as benfeitorias na cidade do escritor François. Por entre árvores majestosas, vê-se a entrada do conjunto Dr. François Silvestre.
Depois Umarizal, Olho d´agua dos Borges, Patú, Belém e Brejo do Cruz. A fronteira Paraíba- Rio Grande do Norte é perigosa. O sopé da serra da Borborema pode esconder surpresas ruins. A estrada é péssima e nenhum dos dois estados assume esse trecho pouco trafegável.
Almoço em Patú com sobremesa de espécie. Visita ao belo santuário no cume da serra. Bela arquitetura, belas imagens e uma rica coleção de ex-votos. Na capela principal em Cone Prateado uma excelente acústica e iluminação natural. Obra de muito bom gosto de um padre arquiteto.
Chegada a Caicó. A cidade adormece depois da feira e da semana. Na praça da alimentação cerveja só depois das 18h. Uma visita obrigatória á ilha de Santana. Bela construção com uma capelinha e vários teatros e locais para eventos. Só não vimos movimento de gente e esperamos que esse belo equipamento seja melhor utilizado para além da necessária caminhada. Voltamos à noite e ninguém.
Na bela matriz da Santana acontece uma missa. Nessa igreja fui batizado e tenho por ela uma extrema devoção. São belas as imagens de Santana ensinando o menino Jesus.
Bela viagem de regresso ás nossas Ítacas e verdes que te quero. A companhia ilustradas e eruditas dos amigos D. Inácio, Manoel Onofre Jr, Homero e João da Mata fez dessa viagem uma festa de muitas cores, sabores e alegrias muitas. Não fora o prazer da viagem o prazer maior de contar para vocês.
João da Mata Costa
Afrosidio Miranda on 1 de setembro de 2009 at 21:23.
Não tenho duvida de que Franklin Jorge é o maior escritor do Rio G. do Norte. Taí a prova…
Fernanda Costa Lima on 1 de setembro de 2009 at 23:05.
Adoro ler o que escreve F. Jorge sobre as nossas cidades.Ele daria show escrevendo sobre turismo. Nunca pensou nisso, meu caro?
JOSÉ GERALDO GOMES on 2 de setembro de 2009 at 13:31.
FIQUEI COM VONTADE DE IR A MARTINS…