A PAISAGEM HUMANA DE TOUROS
Por O Santo Ofício | 31 agosto, 2009
O VELHO RAPSODO
Por Franklin Jorge
Touros – No tempo em que São Pedro andava com Nosso Senhor pelo mundo, pregando o Evangelho, conta-me o velho numa voz pausada que uma noite os dois se arrancharam numa casa e ao se deitarem, disse Jesus, Pedro, vamos rezar…
O dono casa ouviu e, enfadado, sem saber que hospedava o Salvador em pessoa, mandou que eles acabassem com aquele converseiro e fossem dormir, pois ele não estava conseguindo pregar os olhos… Mesmo assim, Jesus e S. Pedro continuaram rezando…
José Zacarias Libânio, Seu José, nascido em Touros em 1925, é o contador de histórias da Vila de Carnaubinha, uma praia rústica a um quilometro da sede do municipio. Esteio de uma família numerosa, coordena o Terço dos Homens que se reúne uma vez por semana na capela de Nossa Senhora de Fátima para orar, a poucos metros de sua casa.
…O dono do casa, já agastado pela desobediencia dos hóspedes, se levantou de ligeira na mão – uma especie de chicote usado para instigar os animais de carga – e deu tres lamboradas no lombo de São Pedro para faze-lo calar e retirou-se de volta ao seu quarto.
São Pedro, voltando-se para Jesus, disse, Senhor, vamos embora, pois estou com o lombo ardendo… Jesus lhe pediu que tivesse paciência, e continuaram rezando.
O homem reclamou mais uma vez, dizendo que não agüentava mais aquele falatório e, furioso, voltou e deu mais duas lamboradas no lombo de São Pedro, a quem Jesus pediu mais paciência e os dois continuaram rezando como se nada tivesse acontecido. Rezaram até o amanhecer do dia, quando continuaram a viagem pelo mundo afora.
São Pedro não conhecia o país. Andaram umas quatro léguas, até que alcançaram uma várzea bonita onde encontraram uma ossada humana. São Pedro toda vida foi caviloso e deu um pontapé no esqueleto.
Aí Jesus mandou que ele perguntasse àqueles ossos de alguém que um dia foi um homem como qualquer um de nós e lhe perguntasse o que mais gostava quando era vivo. Eu, enfadado de tanto andar, reclamou São Pedro, ter de voltar para fazer uma pergunta dessas à um monte de ossos, era só o que faltava! Mesmo assim, instigado por Jesus, ele voltou e fez a pergunta.
A caveira respondeu que o que mais gostava de fazer era comer muito, morar debaixo da sombra e de ter entre os seus filhos um que servia a Jesus. Ouvindo aquela voz saída de parte alguma, São Pedro reconheceu naqueles ossos o seu próprio pai; e, arrependido, recolheu o esqueleto num saco e voltou para encontrar Jesus. E, juntos, enterraram os ossos do pai de São Pedro dentro de uma igreja…
Seu José é contador de histórias com um talento inato para prender a atenção do ouvinte. Histórias contemporâneas do Descobrimento do Brasil, narradas originalmente em Portugal pelo mítico Trancoso, sobrevivem em sua memória prodigiosa.




8 Comentários
Magda Brandão on 31 de agosto de 2009 at 17:50.
Vivendo e convivendo com a gente simples do povo, o escritor Franklin Jorge faz hoje o que o Mestre Cascudo fez no passado. Franklin é o “homem do século”!
Assuero Neves de Oliveira on 31 de agosto de 2009 at 19:26.
Devagar e sempre, o jornalista Franklin Jorge vai redescobrindo o nosso velho RN para os novos norte-rio-grandenses, daqui e de fora!
Leila Abrantes Hossner (Curitiba-PR) on 31 de agosto de 2009 at 21:03.
Trabalho meritório o seu, ouvindo e recolhendo a tradição diretamente da boca do povo. Não me lembro no momento de nenhum outro jornalista que esteja fazendo o que faz há tanto tempo e que o coloca numa situação privilegiada como profissional e como intelectual dedicado a produzir uma obra de referencia para as futuras gerações. Meus parabéns, Franklin.
Lira Dornelles on 31 de agosto de 2009 at 22:42.
Franklin, pode escrever alguma coisa sobre esse “Trancoso”?
Sibelly Ramalho Marinho on 1 de setembro de 2009 at 11:37.
Essas cronicas publicadas em “A Paisagem humana de…” são muito gostosos e dão um toque especial a esta página que faz parte dos meus Favoritos. Ao escreve-las Franklin vai compondo um grande livro do imaginário da nossa brava gente. Coleciono todas elas e repasso aos meus amigos com a recomendação que leiam o que temos de mais precioso atualmente.
Venâncio Torres on 1 de setembro de 2009 at 12:23.
Há anos venho “descobrindo” a nossa terra através dos escritos de F. Jorge. É um grande jornalista preocupado com o que vale a pena ser lembrado.
Afrosidio Miranda on 1 de setembro de 2009 at 21:17.
Estou aguardando novos escritos sobre esse povo de Touros. Uma maravilha esse velho contador de histórias.
regina coeli on 2 de setembro de 2009 at 10:05.
quero mais!