A CAMINHO DE MACAU

Por O Santo Ofício | 19 agosto, 2009

Por Franklin Jorge

Estarei viajando amanhã para Macau a convite do jornal “Folha de Macau”, editado por José Antonio Dega. Há tempos que não vou a Macau. Pelo que tenho ouvido, seus problemas se agravaram muito desde então. Há roubos e assaltos, além de um prefeito omisso.

Lembro-me de uma experiencia com oficinas de jornalismo que realizei lá, em 1993, para mais de duzentos jovens, dentro de um programa criado por Véscio Lisboa sob a denominação de “100 Dias Ação Cultural”, um empreendimento ambicioso e bem sucedido, que atendeu à fome de cultura da população.

Foram dias esplendidos que aproveitei para conversar com os velhos de Diogo Lopes sobre os costumes e tradições locais. E consegui reunir um grupo de jovens e juntos deflagramos uma ação que chamamos de “Pentear as Dunas”, ou seja, empreendemos uma ação educativa recolhendo o lixo que degradava a paisagem belissima.

Produzi tanto, levado pelo entusiasmo dos meus colaboradores, que cheguei a compor um pequeno livro – “O Ouro de Macau” – que  engrossou o rol dos inéditos. A proposito, transcrevo abaixo um fragmento de umn outro livro, também inédito, contendo as impressões e paisagens que recolhi em minhas andanças pelo Rio Grande do Norte.

Ei-lo:

 EM DIOGO LOPES

 

Por Franklin Jorge

 

Fragmento do livro “Viagens na minha terra” [inédito]

 

Atravessamos o rio e desembarcamos na Ponta do Tubarão, onde acampamos e catamos conchas. Há ilhas entre os mangues, formadas por raízes e plantas aquáticas, onde habitam guaxinins.

 

Praia de difícil acesso, conhecida apenas pelos nativos, em noites de lua cheia vem uma ou outra forma confraternizar nas areias dessa praia quase secreta, cujo acesso só é possível através de canoa. A “Ponta”, uma estreita faixa de praia que alcançamos após a travessia do rio Tubarão, lembra uma espécie de baía com fortificações de manguezais, como o rio Potengi em Natal.

 

Aqui, recém-chegado, visitei primeiro um dos velhos sábios do lugar, bodegueiro e memorialista vivaz, historiador e cronista da Vila de Diogo Lopes. Em sua memória hospitaleira refulge a vida cotidiana com o seu imaginário plástico, vivo e intenso. Conversamos todos os dias, por algumas horas, sentados em tamboretes, em frente da sua bodega, um lugar modesto e sossegado, a poucos metros de um estaleiro onde homens trabalham na construção e reparos de barcos.

 

Conheci primeiro seus netos, rapazes entre si tão diferentes, mas como o avô enraizados na terra, sociáveis e louvados por seu caráter sem manchas. O mais velho, moreno, é um homem da rua e se dedica a cortar cabelos; o mais novo, alourado, não resistiu aos apelos do mar. Mergulhador e pescador profissional, levou-me até às personagens mais interessantes e curiosas de Diogo Lopes. Denilson é o seu nome.

 

Quando conversávamos, no lugar dos banhos, após caminharmos a pé muitos metros de ida e volta, ele me disse que eu certamente gostaria de conhecer o seu avô, homem já idoso, esperto e bem humorado, amante das letras e da leitura. Fez as apresentações com simplicidade, despediu-se lamentando ter compromisso de trabalho e, após o aperto de mão, foi cuidar da vida.

 

A Vila tem uma capelinha consagrada a São Francisco, de quem todos se engraçam por sua humildade e sangue-bom. O povo do lugar dedica-lhe todos os anos, em outubro, uma festa animadíssima e tradicional que atrai gente até de Canoa Quebrada, vinte ônibus lotados de cearenses.

 

Há danças no clube local, passeios, excursões às dunas, banhos na Ponta do Tubarão, a inesquecível travessia do rio, música, ritmo, envolvimentos durante um mês de festa. O povo de Diogo Lopes, orgulhoso de seus costumes, preza as leis da hospitalidade e valoriza a cultura. É também permeável aos modismos e absorve tudo com naturalidade.

 

Lá, com alguns alunos da Oficina de Jornalismo e Cidadania que fiz em Macau, como parte do “Projeto Percursos”, de interiorização cultural, “penteamos as dunas” de Mangue Seco, catando todo o lixo produzido pela negligência de eventuais turistas. Vários jovens vieram para a tarefa e à sombra de cajueiros conversamos sobre arte e meio ambiente, cultura e cidadania.

 


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