A PAISAGEM HUMANA DE AFONSO BEZERRA
Por O Santo Ofício | 17 agosto, 2009
ENCONTRO MARCADO COM AFONSO [2a. e Última Parte]
Por Franklin Jorge
Natal – Afonso desce do táxi sorrindo, sobraçando um jornal dobrado em dois. Corpulento, de estatura mediana, surpreende-me, colocando em minhas mãos duas cartas escritas pelo humanista Edgar Barbosa em 1928, que ele trouxe especialmente para mostrar-me, por causa de meu parentesco com o humanista de Ceará-Mirim. Mas, não antecipemos…
Pareceu-me à primeira vista que já o conhecia havia muito tempo e logo nos acamaradamos em animado bate-papo, sentados no terraço daquele simpatico chalé amarelo da Rua Pinto de Abreu 84, em torno de uma pequena mesa sobre a qual a nossa anfitriã e sua prima logo nos serviu um odoroso café acompanhado de bolo e tapiocas feitas na hora.
Vou deixa-los sozinhos, disse-nos Aldorisse, retirando-se; para que possam ficar bem à vontade e conversar, pois creio que os dois tem muito o que dizer um ao outro. Afonso já o lê há muitos anos e desconfia que vocês têm o mesmo tronco familiar…
Num dado momento, Afonso abriu o exemplar do jornal que trouxera consigo e de entre as suas páginas retirou duas cartas, velhas de mais de oitenta anos, que Edgar Barbosa escrevera ao seu amigo e colega de jornalismo, Afonso Bezerra, escritas quando ele teria cerca de 19 anos. Uma, manuscrita; a outra escrita à márquina; ambas já amarelecidadas. Numa delas, Edgar congratula-se com o amigo por manter-se enraizado na terra natal e se diz nostálgico do bucolismo horaciano. Mal consigo disfarçar a emoção que me domina ao lê-las…
Enquanto a noite se adensava sobre o Barro Vermelho, um dos logradouros mais carismáticos e caracteristicos de Natal, conversamos sobre uma infinidade de assuntos que de uma forma ou de outra tinham a ver com as cidades de Afonso Bezerra, o Ceará-Mirim, Natal e o estado de Minas Gerais, onde Afonso de Ligório Bezerra Sobrinho encaminhou-se na v ida e se casou com uma mineira.
Primo de Afonso Bezerra, que deu nome à sua terra natal, devotou-se desde moço ao resgate da história e dos valores culturais da antiga Carapebas, desmembrada do municipio de Angicos em 1953. Assim fico sabendo que Afonso Bezerra era filho de João Batista Alves Bezerra, na intimidade chamado Seu Zuca, tio de Afonso que tem o mesmo nome do primo, menos o “Sobrinho” que lhe foi acrescentado certamente para diferencia-los.
Ele me informa que foi lendo Aluizio Alves, em seu clássico “Angicos”, que despertou para a importancia dos escritos deixados por seu primo, falecido em 1930, aos 22 anos. Disse Aluizio que algum dia a obra do prococe jornalista e ficcionista, dispersa nas páginas dos jornais, seria reunida em livro para conhecimento e admiração da posteridade.
Sem nenhum objetivo definido, instintivamente, como costuma ocorrer em circunstancias semelhantes, Afonso passou a colecionar tudo o que dizia respeito a seu primo e homonimo. Até que se tornou o guardião dos acervo constituido por seu tio Zuca, que guardara com todo carinho os recortes datados de tudo o que o filho escrevera e publicara na imprensa da época. Foi esse material laboriosamente conquistado que foi parar nas mãos do históriador Manuel Rodrigues de Melo e se transformou no livro, hoje uma raridade bibliográfica, “Ensaios, Contos e Crônicas” (Editora Pongetti).
Esse livro tem uma história curiosa que ainda não foi contada e que Afonso me recomenda, que se eu vier a conta-la devo antes de publica-la submeter o escrito à sua avaliação. Ele não o diz, mas deduzo que teme provocar algum mal entendido, já que para todos os efeitos o livro que reuniu postumamente a obra do seu primo foi organizado e apresentado por Manuel Rodrigues, o ilustre construtor da sede da nossa Academia de Letras à Rua Mipibu.
Durante anos Afonso guardou e conservou em seu poder o espólio deixado pelo primo. Quando decidiu ir morar em Minas Gerais, procurou o escritor e lhe entregou recortes e manuscritos, esperando que ele os organizasse em livro. Ao regressar, seis anos depois, Manuel Rodrigues lhe devolveu tudo, sem faltar nada, no mesmo pacote.
Afonso foi procurar o governador Aluizio Alves, para cuja eleição colaborara. Aluizio autorizou a publicação do livro, mas como estava deixando o governo, e como só havia uma cópia do livro, Manuel Rodrigues o aconselhou a esperar pela posse do novo governador, Monsenhor Walfredo Gurgel. Homem experiente, Manuel Rodrigues disse se que em fim de governo tudo pode acontecer e que não seria prudente entregar os originais naquela circunstancia. Já ocupando o cargo de governador, Monsenhor Walfredo mandou publicar o livro, do qual Afonso de Ligório Sobrinho possui um único e precioso exemplar.




8 Comentários
João Lucas Rodrigues on 17 de agosto de 2009 at 11:58.
O povo de Afonso Bezerra agradece sua delicadeza em nos colocar em evidencia de maneira tão simpática e digna de admiração.
Nadja Coelho on 17 de agosto de 2009 at 12:28.
Parabéns pelos 106.800 acessos.
C. LUNA on 17 de agosto de 2009 at 12:34.
Valeu a espera! Simpatizei muito com essa figura. que exemplo de vida: alguém que faz o bem sem esperar recompensas.
Afra Leitão da Fonseca on 17 de agosto de 2009 at 18:14.
Que figura, esse Afonso de Ligório! Se tivéssemos mais homens como ele o mundo seria certamente diferente do que é. O povo de Afonso Bezerra está de parabéns de ter alguém como ele para servir de exemplo às futuras gerações.
Paulo Ricardo Bezerra on 18 de agosto de 2009 at 8:27.
Prezado amigo virtual, criei um blog sobre a cidade de Afonso Bezerra, cujo endereço é rnafonsobezerra.blogspot.com gostaria que desse uma olhada e se possível colocasse entre os links indicados de seu blog, pelo menos por alguns dias, já que devido a grande aceitação do seu blog muitos vão poder ver o blog da cidade de Afonso Bezerra.
Afra Leitão da Fonseca on 18 de agosto de 2009 at 12:17.
Parabéns pelos acessos que comprovam sua audiencia. 107.126! Um grande feito que só é possivel conseguir com trabalho, seriedade e competencia.
Zuza Feitosa on 18 de agosto de 2009 at 12:20.
Parabéns pelos 107.130 acessos. Você, Franklin Jorge, tem leitores fiéis e está no caminho certo! E parabéns ao povo de Afonso Bezerra: este homem admirável, de quem você fez o perfil, é um exemplo de idealismo.
José Maria on 28 de maio de 2010 at 18:26.
O prefeito Jackson é uma grande decepção. Podia ter realizado o governo que todos esperam dele, mas está na contramão. Conversa muito, não age. e tem um péssimo secretariado, gente despreparada, sem projetos, sem planos, sem capacidade de ação.