LEMBRANDO MACEDONIO

Por O Santo Ofício | 9 agosto, 2009

Por Franklin Jorge

Natal — Visita ao decano dos jornalistas do Rio Grande do Norte, o cearamirinense Aluisio Macedônio Lemos, disseminador de jornais e revistas entre os quais, Canaviais e A Juriti, que circulou por mais de 30 anos e em cujas páginas cheguei a publicar incipientes cronicas que espelhavam o adolescente inquieto e fatigado que fui.

Já não o avistava havia muitos anos, pois ambos nos mudamos (ele para outro bairro de Natal — do Alecrim para as Quintas profundas–, eu para a Amazônia infernal e misteriosa). Maior de noventa anos, magro como uma folha, encontrou em Dona Laurice, sua segunda e última esposa, a companheira abnegada que era tudo na redação de sua revista de periodicidade cada vez mais incerta: compositora, revisora, impressora, administradora, vendedora, cobradora etc, tudo isto resumido numa única palavra — secretária. Muito discreta e dedicada, tinha um pequeno buço e usava óculos do tipo fundo de garrafa…

Macedônio, Aluizio M. Lemos, não me esperava. Fui entrando de casa adentro, guiado por sua neta, Célia, que me localizara na redação do Diário de Natal e anunciou minha presença em plena manhã ensolarada. Veio D. Laurice receber-me e avisar da satisfação do marido ao saber de minha visita inesperada e matinal, mas, como ele não esperava ninguém àquela hora, só podia apresentar-se depois de tirar a barba e vestir-se adequadamente.

Quis dispensa-lo de tanta formalidade, mas lembrei-me de que, como todo intelectual, era Macedonio vaidosíssimo e tinha um grande apreço pela própria aparencia. Por isso, esmerava-se em apresentar-se bem composto, pois intintintivamente sentia-se uma figura representativa à maneira dos principes. Ele próprio, por toda a vida, o Principe dos Poetas do Ceará-Mirim, onde viveu e fez politica ao tempo do Integralismo, entre os anos 30 e 40.

Conversa animada entre papéis velhos, prensas tipográficas (era tipógrafo de profissão) e impressoras enferrujadas, velhissimas, caixas de tipos empastelados, nesgas de papel amarelado contendo provas tipográficas de artigos que jamais seriam impressos, por faltar-lhe os recursos necessários, como a saúde e a energia que desafia e vence dificuldades materiais mais prosaicas — como a falta de dinheiro…

Conhecemo-nos e privamos por mais de 30 anos e não posso dizer que ele mudara alguma coisa nesse longo tempo decorrido desde o dia em que, entre os dezesste e dezoito anos, bati á sua porta levado pela curiosidade. Sempre a mesma fibra e as mesmas convicções impereciveis. Em Natal, foi dos primeiros a apoiar Djalma Maranhão — que o visitava em seu antigo sobradinho da Rua dos Paianazes, já praticamente soterrado pelas enxurradas, estragos que o prefeito Agnelo Alves, sucessor de Djalma, se recursara a indenizar… Só percebiamos que se tratava de uma casa de dois pisos depois que entravamos nela após descermos um lance de escada precedida por uma muralha de tijolos e caliça erguida dificultosamente para conter as enxurradas.

Foi frequentando sua casa e tomando vez por outra seu café com leite que me conscientizei de que o artista e todo homem de convicções seria sempre pobre e à mercê das mais vulgares contingencias. Porém ali estava um forte. Um homem de quem se podia dizer que as contigencias não puderam quebrantar. Terá morrido de pé, como sempre viveu, obscuramente, da arte da tipografia e quanod moço, no tempo em que viveu no Pará, praticando um jornalismo retórico e adjetivado, já fora de moda. Porém, apesar da obsolescencia do seu estilo e da estreiteza do seu mundo social, sabia perceber o talento e não se escandalizava com o novo. 

Confesso que não soube extrair dele, isto é, de sua experiencia de vida e de sua memória os fatos e as personagens que compuseram o seu universo afetivo e mental, nem reparei que era visitado frequentemente por figuras como o major Pedro Sylvio de Moraes, testemunha ocular da história, entre outros, que viveram de fresco a história politica do Rio Grande do Norte.

Nesse nosso último encontro, ocorrido se não me engano em 1993, relembrou a meu pedido a Diocésia — em sua primeira fase sediada no célebre Café Magestic e animada pelo nosso grande modernista, o poeta Jorge Fernandes, da qual fizera parte Luis da Câmara Cascudo, Jayme dos Guimarães Wanderley, ainda nos anos 20, ou seja, no auge da belle epoque provinciana. Nessa fase fora eleito Rei de Natal, em suntuosa cerimonia o açougueiro José Laurindo que evoco em meu livro “O Spleen de Natal”.

Extinta a Diocésia, por cansaço, morte ou desinteresse de seus antigos membros, foi ressuscitada alguns anos depois por um outro grupo de intelectuais natalenses a 25 de dezembro de 1965, no pomar do poeta e tipógrafo João Carlos de Vasconcelos, à Rua Mipibu 440, Petropolis. Macedonio foi um desses ressuscitadores e a frequentou em sua segunda fase, quando dela participaram além dele e de Vasconcelos, os poetas Antidio de Azevedo, Monsenhor José Alves Landim, Antonio Fagundes e Cosme Lemos sobre os quais Macedonia teria muitissimo a contar, tivesse eu então mais tempo para ouvi-lo.

A Diocésia restaurada manteve um jornal do mesmo nome, informa-me. O clube literario extinguiu-se nos anos setenta quando da eleição para escolha do Principe dos Poetas do Rio Grande do Norte, na qual sagrou-se realmente o poeta Luiz Rabelo, de quem o grande satirico Sebastião Soares, seu rival na arte trovadoresca, alfinetou em glosa da qual só me lembro do mote:

            Sabe fraudar elieções

            e legar aos outros a derrota…

 

Bons tempos! esses, quando as guerras eram poéticas e a munição, versos.

[Fragmento do livro "Os Lares", inédito]


2 Comentários

Arthur Mesquita on 9 de agosto de 2009 at 16:41.

Moro em Natal há muitos anos e nunca tinha ouvido falar em Macedonio. São artigos como este que fazem a diferença e fazem do seu autor um verdadeiro jornalista cultural. O resto é colunista social do mundo da cultura, não tem capacidade de ajuizar valores e orientar os leitores para o consumo do que é bom e válido.

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Oscar Brandão Filho on 9 de agosto de 2009 at 17:04.

Leitura bem interessante!

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