A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [3-5]

Por O Santo Ofício | 6 agosto, 2009

RETRATO FALADO DE MONSENHOR CAMINHA [3a. e última parte]

Por Franklin Jorge

Pau dos Ferros - Quando cheguei aqui, mais ou menos da sua idade, houve um choque entre meus paroquianos e eu. O povo daqui queria muito bem ao meu antecessor, Monsenhor Militão, um homem  manso manso. Eu, aom contrário, era moço forte, impetuoso e, se me permite, de sangue e hormoniosm ferventes. O choque foi inevitável. além disso eu passei a andar armado. Quero dizer, tinha um revolver.

Dom Jayme Câmara queria que Pau dos Ferros tivesse um padre forte que reagisse ao marasmo e vitaminasse a diocese com novas pastorais. Como vigpario de Pau dos Ferrosm ganhei também as paróquias de Vitória – atualmente Marcelino Vieira – e de Luis Gomes. Padre novo e cheio de energia, trabalhei muito e fui avançando aos poucos, mas avançando e vencendo resistencias, pois o trabalho vence tudo. O trabalho é a prática da fé.

Chegou um tempo em que, depois de muitas batalhas ganhas e perdidas, Pau dos Ferros fez as pazes comigo. Todos comrpeenderam finalmente a razão de minha e reconheceram que eu estava certo, mudando as coisas que estavam paradas.

Por seu comportamento nada ortodoxo, o padre Caminha chegou a ser ameaçado por maridos ciumentos e pais zelosos, motivo pelo qual passou a andar com uma arma d efogo na cintura. Todas as noites, a pé, eu dava uma volta por toda a cidade e arredores, para cansar-me e controlar meus impetos de moço. eu era um cearense destemido, como o meu pai, e o serviço religioso não me acovardara.

Nunca em nenhum momento minha vida duvidei da existencia de Deus. Nem mesmo quando era seminarista e enganado pelos atrativos da carne duvidei de minha vocação. Essa idéia de geração espontanea que dispensa a existencia de Deus foi desmentida por Pasteur, um médico, um cientista francês. Tudo, porém, no plano religioso, é mistério. Deus, por Si mesmo, existe desde sempre. Nós somos suas criaturas, nascidas de sua magnanima vontade. Se a religião não tivesse mistperios seria humana e não divina. A religião é em essencia misteriosa, tantomquanto Deus é infinitivo e misericordioso. Já a inteligencia humana é finita.

Apaixonado dos estudos filosoficos, encontrou Monsenhor Caminha na cidade remota e pacata a solidão necessária para expandir-se espiritual e intelectualmente. Há anos relê Aristóteles, Platão, Thomas de Aquino, Santo Ambrósio, os Doutores da Igreja. Lendo-os, não estou só, pois essa leitura me dá pretextos de ruminações infindáveis. O senhor, apesar de jovem – ele o diz embrulhando as palavras num sorriso malicioso – é um ser aristotélico, como tenho notado aqui enquanto conversamos. Suponho que tenha muito prazer na leitura dos filósofos… Sou? Pergunto-lhe um pouco desconcertado. Ele reafirma com um aceno de cabeça amável e distinto.

Deus é infinitamente paciente. Só Deus, como sabe, é infinitivo. E, se Ele infinito, não há lugar para outro deus, ensinam os Doutores da Igreja. A Trindade – tres pessoas numa só -, juntamente com o amor, confirma isso. Sabia que Gargarin, o astronauta russo, ao pisar na Lua rezou?

Quando moço eu tinha quatro teorias que pdoem ser desnastradas do que vou lhe dizer a seguir sem nenhuma ordem. O que aprendi através dos livros, outras que descobri no convivio com o povo. A ingornacia salva muito, pois se faz perdoável pela graça de Deus. Todas as faltas hmanas são perdodas quando há o arrependimento. Deus não despreza nem subestima o pecador que apela para a sua misericórdia infinita e justa. Por isso, afirmo-lhe quen não acredito na existencia do inferno nem em penas eternas.

Ah notou que sou intrinsecamente otimista em relação a salvação do homem. Poucos, pouquissimos deixarão de salvar-se. O homem é capaz de tudo. ele chegou á Lua. Salvar-se seria o menor dos seus esofrços. Se ele quiser… Basta-lhe apelar  à infinita misericórdia de Deus, que não sonega o perdão por ser feito de amor. Esse Deus de chicote em punho, esse Deus punitivo e achacador é invenção de seus detratores ou de criaturas sem fé.

Para Monsenhor Caminha o pior dos pecados decorre da inteligencia. É o orgulho intelectual que perdeu Lucifer, um anjo de luz que, orgulhoso de sua inteligencia, atirou-se nas trevas. E a maior virtude, a humildade que apaga todos os pecados. Deus repelte os soberbos. Já a fé é um dom gratuito de Deus…

Ah voc~e me faz perguntas tão desconcertantes, dificeis de responder. Preferiria ter calado algumas, para pensar melhor sobre elas, mas o repórter tem pressa, diz — rindoe balançando-se na cadeira. No começo de minha vida sentia-me desnorteado. Fui salvo pela fé. como padre entendi depois de muito sofrimento que uma de minhas missões seria a de compreender e consolar.  Foi nisso que pus minha energia e meu intento.

Sobre o desconcerto do mundo a que tem aludido nessa conversa, diria que resulta da falta de união entre as familias, do egoismo e do individualismo dominantes. a mulher, filha de Eva, reabilitou-se pelo cristianismo. Já o sexo, tão presente nessa já longa confissão, acho-o respeitável, pois nele Deus pôs o dom da vida. Depois de uma pausa, acrescenta um fato que teria ocorrido recentemente, numa reunião pastoral. Alguém lhe teria perguntado que,s e fosse papa, o que faria dos homossexuais. Não hesitei em responder. E respondia pessoa que me interrogara arespeito, que deixaria que eles vivessem a sua vida.

[Fim do Retrato Falado de Mosnenhor Caminha]


4 Comentários

Maria Ruth Pécora on 6 de agosto de 2009 at 16:10.

Já estava ansiosa para ler a continuação deste artigo. Pensava que ia ser publicado ontem. Um personagem interessantissimo, esse Mons. Caminha aqui retratado. Que grande figura humana! O final deste relato é um achado, um arremate digno de um ser profundamente humano. Franklin Jorge, receba os parabéns de uma leitora diária dos seus escritos.

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Ruy Scinara on 6 de agosto de 2009 at 19:46.

Escrevo para assinar embaixo do que disse Ruth Pécora.

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Anacelly Sabóia on 6 de agosto de 2009 at 21:41.

Grande mons. Caminha aqui revisto por Franklin Jorge.

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Humbelina Marinho on 9 de agosto de 2009 at 16:59.

Obrigada, Franklin Jorge, por evocardesta maneira tão “à sua maneira” essa figura para mim desconhecida até a leitura desses artigos.

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