A PAISAGEM HUMANA DE PAU DOS FERROS [2-5]
Por O Santo Ofício | 4 agosto, 2009
RETRATO FALADO DE MONSENHOR CAMINHA [2a. Parte]
Por Franklin Jorge
Pau dos Ferros –… Minha mãe, Luzia Caminha Freire, era uma mulher humilde e serena, lembra com inefável sorriso, no qualse misturam orgulho filial, satisfação intima e gratidão imensurável, como quando pensamos numa coisa boa que resistiu à milhagem do tempo. O casal teve dezoito filhos homens. O caçula morreu recentemente, informa Monsenhor Caminha.
Ah sobre os meus casos amorosos o senhor não me pergunte, adverte num sorriso maroto e desafiador. Deve poupar-me o esforço de repeti-lo. Não se admire se eu disser que conheço o meu rebanho. Sei que foi a primeira nota de minha biografia que lhe confiaram a titulo de informação. O escandalo empolga e persiste na memoria de todos, embora nosso povo não seja fofoqueiro nem cuide da vida alheia. Embora talvez o senhor nãos e dê conta, também já fui moço e tive a sua idade. E hormonios. Ah os hormonios, os hormonios… Sem eles, o que seria do bicho homem?
Quando fui para o seminário eu namorava uma menina na escola. Ela fez de tudo para eu não ir, mas não teve jeito. Fui. E iria novamente, pois a vocação me chamava. Certamente já ouviu falar no mistério da vocação. Como jornalista é homem culto e bem informado…. Tempos depois, quando voltei de férias, ela já estava noiva de outro, mas o apelo da carne foi mais forte e de repente nos vimos engolfados numa onda de paixão, duma maneira tal que tudo se renovou e contra todas as conveniencias a que a situação nos obrigava.
Monsenhor Caminha sentiu sua vocação abalada. Encarei isto como uma provação, a provação que se impõe em momento decisivo da vida do homem, para que ele faça a sua escolha, apesar de tudo… E, depois de alguns momentos abismado em silencio, acrescentou não saber porque estava ali, naquele momento, a confessar-se a um jovem repórter de Natal.
Não tenho o hábito de fazê-lo, vivendo como vivo em solidão. Meu confessor é Frei Damião… Talvez sua discrição, seu ar sério e essa aura que eu diria vocacionalmente sacerdotal, tenha-me impelido a fazê-lo, graciosamente, sem nenhuma prevenção. O jornalismo, quando responsavelmente praticado, quando se coloca à serviço da ética e da defesa dos direitos do homem, é também uma forma de sacerdócio. É instrumento de iluminação e esclarecimento. Fortalece e renova. Exige, de quem o pratica, a mesma abnegação e autosacrificio que requer a vida religiosa não meramente contemplativa. Pelo que tenho lido do que escreve na Imprensa de Natal, sente-se a clareza das suas convicções e os valores que o dominam. Em outras palavras, o senhor não é um estranho para mim…
Já seminarista fui passar um mes de férias em Quixadá, na casa do meu tio Manuel Freire de Andrade, e namorei logo com tres moças ao mesmo tempo! Em plena mocidade, eu era o que se dizia, “fogo na roupa”… Seria mais apropriado dizer “fogo na batina” — provoco-o — e ambos rimos. Ah sim, tem razão. Muito espirituosa sua correção. A batina, como toda farda, tem o seu prestigio. Exerce certo fascinio de ordem sensual sobre algumas mulheres…
Na volta ao seminário, em Fortaleza, após gozar dessas quermesses carnais, estava macambuzio, rejeitava o gosto das coisas. sofria e pensava continuamente no misterio entre homem e mulher. Pensava em Clara, pensava em Lourdes, pensava em… Pensava em Adão e Eva… Seus colegas diziam, galhofando: Caminha está chumbado… Caminha está chumbado…
Eu estava tristissimo e confuso diante dessa encruzilhada moral. Desesperado, quase. Somente o reitor do seminário, homem perspicaz e caridoso, sabia do caso… Um mes depois dessa permanente aflição que me consumia, recebi um telegrama dando conta do casamento de Lourdes. Li-o num misto de desespero e satisfação. Depois saí gritando pelos corredores do seminaprio, libertas quae sera tamem! Libertas quae sera tamem! Libertas quae sera tamem…
Você, como repórter, está querendo penetrar muito no meu intimo, diz, rindo-se. Não, fique tranquilo, é somente uma constatação, não uma advertencia. Estou gostando dessa conversa. Uma conversa que nunca tive a não ser sob a forma de confissão. Como disse, meu confessor é o Frei Damião, que apenas me escuta e inflige-me penitencias, pois é severo. A questão da confiança é algo que se coloca ou não. Ao ve-lo entrar por aquela porta, senti sua aura — todos têm uma — e tive a certeza deque podiamos conversar como homens. Só lhe digo uma coisa mais. Quem disser que é sem pecado está mentindo. Somos todos pecadores. O homem é vocacionalmente pecador. Pecar faz parte da sua natureza…
Brinco com o monsenhor, dizendo-lhe que a partir deste momento passo a ser tambem seu confessor. Um confessor oficioso, mas confessor. Só não lhe imporei penitencias, prometo-lhe. Pois, quem havia de dize-lo? Até a pouco era Frei Damião quem tinha a paciencia de ouvir-me, assim como tenho sido também seu confessor. Sempre nos confessamos um ao outro. É da indole do pecador confessar-se, o que explica o sucesso da policia…. Mesmo um taumaturgo, um santo como Frei Damião de Bozzano, tem a necessidade de se confessar…
[Continua amanhã...]




4 Comentários
Luis on 4 de agosto de 2009 at 14:39.
Estou adorando ler sobre esse padre de Pau dos Ferros. Grande figura humana!
M.M. on 4 de agosto de 2009 at 16:41.
Monsenhor Caminha teve enfim a homenagem a que fazia jus. E deve isto a Franklin Jorge.
rita medeiros on 4 de agosto de 2009 at 19:29.
aqui está, de maneira singela, um dos maiores encontros jamais registrados pelo jornalismo potiguar. parabéns ao jornalista franklin jorge por mais este grande round. não é à toa que ele tem hoje o blog mais lido.
Valfrido Guerra on 4 de agosto de 2009 at 23:15.
Uma grande entrevista. Humana, rica, densa. Nota 10!