RELATO DE UMA VIAGEM AO CEARÁ (2-2)
Por O Santo Ofício | 7 julho, 2009
Por Franklin Jorge
Juazeiro, Crato e Barbalha, cidades conurbadas que se destacam no âmbito do Vale do Cariri, devem o seu progresso e desenvolvimento à indústria da fé, que fez da primeira um centro de romarias onde desfila todos os dias uma população flutuante de milhares de pessoas que alimentam seu pujante comércio.
Sob a égide do Padre Cícero, essas cidades desfrutam de uma posição de destaque em relação aos demais municípios do Ceará, um estado onde à pequena empresa e o cooperativismo dominam sobre o gigantismo e criam melhores condições de vida para uma significativa parcela da população.
Neste caso, o próprio clima ajuda e o governo fez a sua parte, construindo açudes e vigiando para que o estado não se despojasse inteiramente de suas matas nativas. Justamente o oposto do que ocorreu em nosso Rio Grande do Norte.
No caso específico de Juazeiro, podemos dizer que são duas cidades embutidas em uma só. A dos romeiros, que corresponde à cidade velha, onde rola o dinheiro e a miséria, e aquele outro mundo criado pela riqueza, que corresponderia, para simplificarmos, ao primeiro mundo. Aqui estão as belas mansões, construídas entre árvores e protegidas por muros altos que as sonega aos olhares dos curiosos.
Em Juazeiro, especialmente, os contrastes são muito vivos e evidentes. Impressiona, na cidade velha, pouso dos romeiros, todas as mazelas que decorrem da pobreza e do atraso, que eu sintetizaria no mau cheiro que exala desse conglomerado de problemas sublimados por uma fé cega nos poderes do Padre Cícero.
A grande indústria de Juazeiro é a da fé que move montanhas. Uma indústria que não conhece crise nem sofre com a queda da Bolsa. Lá, pareceu-me em franca expansão, o que é visível inclusive nas sucessivas reformas que ampliam as igrejas que vão perdendo assim o seu desenho arquitetônico original em nome de uma demanda que ignora qualquer conceito estético.
Dia e noite chegam e partem os romeiros, em torno dos quais gravita toda a economia do município. Uma economia pujante que se ramifica e se fortalece sob a proteção de bentinhos e escapulários, graças ao Padim Padre Cícero.
As igrejas não fecham, pois a fé, em Juazeiro, não dorme nem tira férias. Na catedral em obras, em torno da qual os romeiros se penitenciam e consomem, um padre roliço e abusado recebe a confissão de dezenas de homens e mulheres silenciosos e pacientes que formam aos seus pés uma grande fila.
Refestelado numa cadeira colocada num ângulo da catedral, ele mordiscava com pachorra eclesiástica as bordas de um copo de plástico, completamente indiferente à confissão dos penitentes, numa cena um tanto felliniana, que nos revela o automatismo sacrílego com que se desincumbe de suas obrigações de pastor de almas.
[2002]




4 Comentários
Wesley Feitosa on 8 de julho de 2009 at 8:40.
Li as duas cronicas sobre essa viagem ao Ceará. Franklin observou e viu o que para nós, cearenses, teria passado despercebido. O final dessa crônica é simplesmente antológico.
Frederico Freyre on 8 de julho de 2009 at 11:59.
Franklin Jorge sempre iconoclasta, mas muito bom mesmo!!!
Eustórgio Wanderley Neto on 8 de julho de 2009 at 12:38.
Aposto que Franklin deve ter sido ou é um grande leitor de Eça.
Valério Marques on 8 de julho de 2009 at 15:17.
Toda essa bandalheira teve o seu lado bom: desmontou as pretensões do deputado João Maia, que queria ser governador do RN e fazer do irmão Agaciel, chefe dessa quadrilha do Seridó, dseoputado federal ou ministro do Superior Tribunal de Contas.