MONSENHOR CAMINHA NA PRAÇA
Por O Santo Ofício | 30 junho, 2009
Por Franklin Jorge
Pau dos Ferros — Abandonada pelo poder público durante muitos anos, a Praça Monsenhor Caminha, em Pau dos Ferros, acaba de passar por uma repaginação que lhe restituiu a dignidade e aos pauferrenses um local de confraternização e convivio humano.
Lembro-me do Monsenhor Caminha, há uns 30 anos, na salinha de sua casa, concedendo-me uma entrevista para o numero de lançamento da “Folha do Alto Oeste”, quinzenário fundado por Honório de Medeiros, Eriberto Suassuna e José Ribeiro, que tive a honra de instalar e editar seus primeiros numeros.
Sobre o jornal, propriamente, há toda uma cronica que ainda não foi colocada em letra de forma mas deverá ser um dia, pois marcou significativamente a história do nosso jornalismo e de 33 municipios da região pelo qual se irradiou em seu crescente e pacifico prestigio cultural, social e politico. Sobretudo politico.
Seja-me permitido aqui falar apenas do Monsenhor Caminha que chegou muito moço a Pau dos Ferros e dessa nossa conversa já remota da qual extraí um texto ilustrado por uma bela fotografia feita por Toinho Dutra, o fotógrafo oficial da “Folha…”, que se revelava assim um excelente repórter fotográfico. É o registro visual do pároco da cidade ,ricamente paramentado, oficiando a Santa Missa na Matriz da Padroeira Nossa Senhora da Conceição, tendo ao fundo o altar mor.
Contava-me então que, muito moço e cheio de energia, encontrara a cidade parada no tempo. Logo se pôs a agir e a escandalizar a sociedade conservadora que se chocou com o seu estilo para o qual contribuíam de alguma forma os hormonios que os votos religiosos não puderam, a principio, domar… Sua maneira pouco ortdoxa de apascentar o rebanho e de comportar-se em face de costumes estratificados, soube-o por terceiros, estendeu-se às alcovas, dando motivos a terriveis falatórios aos quais se juntaram os seus famosos banhos noturnos no Açude velho, acompanhado de mulheres, totalmente nus…
Mas, paralelamente a essa grande energia fisica e espiritual, passou o jovem padre Caminha a desenvolver importante trabalho comunitário, mostrando-se um verdadeiro empreendedor e um reformista que, instigado pela saúde não abria mão do divertimento, fazendo coabitar a seriedade empreendedora com o hedonismo que para muitos dos seus paroquianos não fazia bem à batina… Ora, o Monsenhor Caminha que me falava então, sentado numa cadeira de balanço, fazia ao mesmo tempo o elogio do trabalho que se deve fazer com alegria ed prazer e para o bem geral.
Surpreenderam-me suas confissões, feitas com desnorteadora espontaneidade e bom humor ao repórter ainda moço, creio que pouco mais ou menos da idade que ele próprio teria quando ali chegou por designação do Bispo de Mossoró, para chocar a burguesia local e promover uma verdadeira revolução social.
Instigado pela camaradagem que se estabelecera repentinamente entre o homem velho e o novo que o ouvia atentamente, anotando eventualmente em seu caderninho o que lhe parecia do interesse do leitor, interroguei-o sobre os mais variados assuntos, voltando desse encontro com um excelente material que só usei em parte, já pensando como Mallarmé que tudo acaba em livro. Creio que encantara ao velho já apaziguado pelas experiencias o jovem ávido de vida e ansioso por criar uma obra que justificasse a sua existencia…
De repente Monsenhor Caminha me contou sem citar nome da grande paixão que tivera por uma cantora do rádio a quem, num momento de exaltação amorosa, presenteara com a Cruz Peitoral — insígnia da sua investidura na condição de monsenhor. Uma paixão que de alguma forma o enlouquecera e que o levara a dispor, de maneira profana, de um símbolo sagrado.
Uma década depois, de maneira inesperada e misteriosa, o desfecho dessa história de que eu mesmo não mais lembrava, tanto tempo se passara desde aquela tarde em que entrevistara o pároco de Pau dos Ferros. Uma tarde, em Natal, ao entrevistar Glorinha Oliveira sobre sua trajetória artistica, ela me falava do desvairio dos fãs pelos cantores do rádio, algo em tudo semelhante ao que se vê hoje com os idolos do rock pelos quais os fãs se descabelam. Mesmo os cantores provincianos do tempo áureo do rádio costumavam despertar esse desvairio no público da época.
Já velha então e talvez com a mesma idade de Monsenhor Caminha quando eu o entrevistara para a “Folha do Alto Oeste”, confessou-me Glorinha, sem citar nome, da paixão que despertara em um certo monsenhor do Alto Oeste potiguar que a presenteara com a Cruz Peitoral que a Igreja lhe dera como um galardão…
Monsenhor Caminha, balbuciei, aturdido com o inusitado daquela coincidência. E Glorinha, igualmente surpresa com minha reação: Como soube…?




10 Comentários
Marianne on 30 de junho de 2009 at 14:32.
Nota 10! 10!10! Adorei.Você escreve bem.
Kairo Varela on 30 de junho de 2009 at 15:26.
Você tem uma maneira própria e saborosa de contar as coisas. Essa, sobre o velho pároco de Pau dos Ferros, é uma beleza! Penso que ele não vai ficar chateado por esta cronica.
Honório de Medeiros on 1 de julho de 2009 at 13:31.
Fantástico, Franklin. Tudo na medida certa: forma e conteúdo.
Luzanira Lopes on 1 de julho de 2009 at 20:58.
Foi a maior homenagem prestada a Monsenhor Caminha que tem em Franklin o seu mais sensivel interprete!
Judite Mota on 2 de julho de 2009 at 2:09.
Esse Monsenhor Caminha, aqui descrito pelo jornalista Franklin Jorge, é um grande personagem. Tive grande prazer lendo esta crõnica que de maneira espirituosa nos dá a sua verdadeira dimensão humana.
Marlucia Lins on 4 de julho de 2009 at 15:12.
Gostei demais!
João Francisco Cunha - Tenente Ananias on 5 de julho de 2009 at 0:27.
Parabéns, Franklin Jorge, por nos proporcionar leituras tão salutares.
seu Blog é o que há de bom!
Noberto Fernandes on 5 de julho de 2009 at 9:56.
Parabéns pela homenagem escrita a quem sempre dedicou sua vida a esta Comunidade. Monsenhor Caminha ao meu entender merece uma biografia, já que eternizaram seu nome na Praça principal da cidade.
Abraços a todos os Pauferrenses.
Noberto Fernandes
Fátima Lopes Maia on 5 de julho de 2009 at 19:06.
Mais que a praça que qualquer prefeito pode destruir ou abandonar, esta foi a melhor e a mais duradoura homenagem que se podia prestar à memória de Monsenhor Caminha. O monumento pode ser derrubado, mas o escrito fica para a posteridade e pode ser consultado em qualquer época em qualquer quadrante ou coordenada geográfica. Aqui Franklin pegou o lado humano do religioso e trouxe-o de volta ao convivio de toda gente que o conheceu batalhando por Pau dos Ferros em todos os momentos de sua vida. Parabéns!!!
Francisca Henrique Lopes on 6 de julho de 2009 at 8:48.
Monsenhor Caminha merecia uma homenagem destas! Parabéns, Franklin Jorge!