O PRAZER SEGUNDO DONA ZÉLIA

Por O Santo Ofício | 21 junho, 2009

 

Por Franklin Jorge

 

Mossoró — Uma tarde dessas, após tomar café com uns biscoitos finíssimos, feitos em casa, acompanhei uma amiga em sua visitação constante à senhora sua mãe que há pouco me recebera no café da manhã dos seus noventa anos, data que tive a honra de saudar em um artigo que Mossoró leu e, sem modéstia, creio que a maioria assinou embaixo e deu fé, pelo exemplo de vida que nos proporcionou Dona Zélia Fernandes, ao confiar a todos, desinteressadamente, da sua cadeira, a sabedoria de toda uma vivência feita de persistência, de obstinação, de amor – essa palavra já um pouco aviltada pelo mau uso –, de fé e de esperança. De muita espera, assim seja. Pois esperança é espera.

 

São ambas – mãe e filha – mulheres inteligentíssimas, grandes damas de uma Mossoró aristocrática, personagens duma crônica exemplar repleta de lições, de estoicismo, de compaixão e ceticismo, de perseverança, de exercício de amor continuado, de calamidades pacientemente suportadas e compartidas entre mãe e filha, sem constrangimento, com naturalidade e altivez dignas de autênticas mulheres mossoroenses.

 

Dona Zélia perdeu uma irmã recentemente. Ainda está abalada, curtindo uma parte de si. É assim que se sentiu ao perder essa irmã que, felizmente, com a graça de Deus, não sofreu muito. Tudo aconteceu depois dessa manhã jubilosa que lhe trouxe seus noventa anos. Sentiu-se presa pela depressão. Sentiu até essa vontade de morrer, mas ontem já se recuperara do desânimo e enfrentava plenamente a vida, tendo a alma renovada pela dor.

 

Recebeu-nos sorrindo, de sua cadeira, à entrada da casa, de onde avista tudo e dá as boas vindas a quem entra e acena para os que a cumprimentam. Sua filha, um pouco surda, transbordando temperamento e um espírito que evoca a inteligência da Duquesa de Guermantes, fica em silêncio, ouvindo-nos. Têm ambas uma personalidade que as distingue. E, profusamente, o afeto que as une num nó que não se desatará senão na morte.

 

Penso que são filósofas, difundindo a filosofia de que tudo passa sobre a terra, enquanto caminhamos pelo vale das sombras da morte. Não desdenham nem se entregam à morte como inimigas. Sempre, de alguma forma, a afagam. Certamente são amigas de longa data.

 

Dona Zélia lê de tudo, por prazer, por sentir que a leitura deleita, agudiza a percepção, dissemina conhecimento, instiga o espírito a conviver com a jovialidade e livre da paúra metafísica.

 

Dona duma conversa vivaz, rica de vivências filtradas em lições de vida que promanam da experiência. Apresenta-se tocada pelo azimute do humor, enamorada dessa magia que os livros contém. Ler, para Dona Zélia, resulta em diálogo entre o leitor e o que o autor consignou nas páginas do livro que nos levam do céu ao inferno no decurso da leitura. Dona Zélia diz ter horror a solidão. Nunca, porém, está sozinha, se tem os livros e os prazeres do pensamento. Falaríamos sobre os livros durante horas, talvez dias, naquela sala onde conversamos os três, ao crepúsculo de Mossoró.

 

Edite vai buscar a foto que tirei com a aniversariante, naquela manhã em que tomamos o farto e delicioso café pronto para os amigos e a descendência reunida em uma manhã de festa em que saboreou palavras e contentamento, em crescente júbilo saudando os noventa anos de uma universidade viva. Engordei demais nesses meses em que tenho desfrutado da pax mossoroense.

 


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