UMA TARDE COM MARIA HELENA CARDOSO

Por O Santo Ofício | 16 junho, 2009

 

Por Franklin Jorge

 

Num fim de tarde de um mês e de ano que não lembro mais, Walmir Ayala levou-me para conhecer uma sua amiga que, segundo me disse, havia muito gostaria de receber-me em sua casa, para ouvir música e conversar sobre um tema recorrente entre ambos – a permanência de Lúcio Cardoso, irmão de nossa anfitriã, que se impressionara com os traços físicos e literários que teríamos em comum. “Ao ler seus Poemas Diabólicos e depois, ao ver o seu retrato, senti-me compelida a conhecê-lo”, disse, num tom caloroso que me deixou inteiramente à vontade.

 

Maria Helena recebeu-nos numa sala, não sei se grande ou pequena, talvez demasiadamente atulhada de coisas – sólidos móveis trabalhados a mão, talvez por artesãos mineiros, uma coleção de imagens sacras, alguns objetos em prataria e cristais, tudo, certamente, herança de família – e quadros, muitos quadros, pintados nos últimos anos por Lúcio e por grandes artistas, seus amigos e companheiros de boemia. Por toda a parte, discos e livros bastante manuseados displicentemente esquecidos sobre mesas e poltronas. Notei que ela ouvia, quando chegamos, Maria Callas, havia pouco falecida.

 

Eu a descobri como escritora ainda no Assu, quando eu teria pouco menos de vinte anos, numa pequena biblioteca do Projeto Mobral, instalada numa casa depois demolida para alargamento do chamado Beco do Padre, ao lado do solar da escritora – também mineira – Maria Eugênia Maceira Montenegro. Era o seu livro de estréia, já mulher madura, “Por onde andou meu coração”, numa edição da José Olympio, em conjunto com o Instituto Nacional do Livro, destinada às bibliotecas públicas. Depois, li “Vida Vida”, que me despertou menos interesse, embora estivesse ali presente a escritora de uma obra feita para durar.

 

Magra e elegante sem afetação, o cabelo bem cuidado inteiramente branco, melhor dizendo prateado, lembrou-me o de minha avó inclusive pela semelhança do corte e do penteado. Em minha ansiedade, crivei-a de perguntas sobre Lúcio e o circulo de intelectuais que gravitava à sua volta, como Clarice Lispector e Otávio de Faria, além dos irmãos Pentagna, riquíssimos protetores de artistas como os espanhóis perseguidos pelo franquismo, Rosa Chacel e seu marido, o pintor e ex-diretor geral dos Museus Reais de Espanha, Timoteo Perez Rubio, com quem Vito Pentagna, inspirador do autor de “A Crônica da casa assassinada” teria tido um ardente e tumultuoso affair amoroso. Walmir ouvia tudo, pacientemente, como um protagonista importante desse brilhante grupo de artistas cosmopolitas que prefigura, entre nós, uma espécie de Bloomsbary carioca.

 

Lelena – pediu-me que, a exemplo de seus velhos amigos, a tratasse assim – serviu-nos deliciosos biscoitinhos feitos em casa, segundo tradicionais receitas mineiras, acompanhados de uma bebida feita com vinho tinto, sagu e leite, que eu bebia pela primeira vez, em pequenos goles, deliciando-me. Era, segundo disse, a sua especialidade gastronômica e a fazia porque sempre agradava aos seus convidados e ás pessoas que de alguma forma queria obsequiar. Não hesitei em pedir-lhe a receita, simplíssima, afinal, como as boas coisas da vida.

 


8 Comentários

Suzana Marquez-Lopez - Urca on 16 de junho de 2009 at 22:46.

Valioso este depoimento para os estudos da nossa literatura. Estou acompanhando esta publicação com crescente interesse e satisfação poucas vezes obtida em minhas leituras de amante das Letras. Franklin é um humanista,tem sensibilidade e a sorte de conviver com o que havia de melhor na cultura brasileira do século passado. Estes depoimentos sobre o Rio e seu universo cultural colocam-nos diante não apenas de um escritor, de um memorialista digno de um Villaça, mas de um cronista e de um historiador ao qual recorreremos no futuro.Faço votos que este sitio tenha vida longa!

Reply

Marcelo Saenz on 18 de junho de 2009 at 11:06.

Estou de acordo com Suzana. Seus artigos contém muitas informações originais que enriquecem o nosso conhecimento sobre a literatura. Leio regularmenteo que publica e sempre tiro algum proveito. Obrigado.

Reply

Luis Carlos, Laranjeiras-Rio on 18 de junho de 2009 at 15:08.

Estou fazendo uma tese sobre Maria Helena Cardoso. Preciso consulta-lo sobre aspectos de sua vida e obra. Li outros artigos seus sobre personalidades culturais do Rio e me despertou o interesse por sua obra que me parece bem pessoal. Os artigos sobre logradouros do Rio são excelentes e revelam, no que escreve, um grande memorialista.

Reply

Luiz Baracat on 6 de julho de 2009 at 23:03.

Lindo! Que preciosidade uma tarde com Mª Helena Cardoso. Hoje tenho 28 anos, mas descobri Mª Helena Cardoso, ” Por onde andou meu coração”, aos 13 anos, em um verão no qual tive de passar dois meses na fazenda devido a grande seca. Minha única alegria era ir na cidade devolver e pegar livros na biblioteca, eram horas a fio lendo livros e mais livros. Mas foi uma tarde na casa da cidade que achei, esquecido tão memorável Obra, que havia pertencido a uma de minhas irmãs.
Li e jamais me esqueci, de curvelos da tamanha familiaridade na narração de vida da escritora, com a minha.

Reply

Alexandre Tambelli on 19 de novembro de 2009 at 15:48.

Franklin! Bom ler sua crônica que cita brilhantes poetas brasileiros do Século XX, como Vito Pentagna, Lucio Cardoso e Walmir Ayala. Eu procuro entender como Vito Pentagna não é lido nem entre os poetas… Este é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos! Um abraço, Alexandre!

Reply

julio dias gaspar on 30 de novembro de 2009 at 16:59.

Franklin, que emoção ler esta crônica. Sou aficcionado por esta mulher desde os anos 70, quando li Por onde andou meu coração, que marcou minha vida. nossa, queria ter tido o privilégio de conhecê-la. Quem sabe vc não se dispõe a compartilhar com seus leitores a receita da tal bebida que leva vinho tinto, sagu e leite! Abraços, Julio

Reply

Silvia Mascarenhas Vianna on 31 de maio de 2010 at 23:12.

Acabo de ler Por onde andou meu coração. Foi emocionante não só pela qualidade literária do livro, mas também porque a autora fala de pessoas de minha família, pois sua avó Leopoldina era irmã de meu avô o senador José Cândido de Sousa Vianna e do médico a quem ela se refere várias vezes, Dr. Antonico de Sousa Vianna. Maria Helena se refere a um fato sempre relembrado por minha mãe: os Viannas vivam brigando e se casando com os Mascarenhas. Minha mãe, Rachel, era Mascarenhas, bisneta do velho Mascarenhas da Companhia Cedro e Cachoeira, e meu pai, Oscar de Campos, era Vianna, filho do senador José Cândido de Sousa Vianna. Meus pais viveram por muitos anos em Curvelo, quando Maria Helena já se havia mudado de lá. Muitos casos que ela conta me foram narrados por minha mãe. Fascinante o livro de Maria Helena.

Reply

Moacir Manoel Felisbino on 28 de outubro de 2011 at 11:47.

Franklin, parabéns pelo belo texto sobre essa queridíssima escritora mineira tão desconhecida e injustiçada pelos nossos “doutos” teóricos. Quando leio os depimentos acima, me dói o coração detanta ternura diante do amor e devoção com que as pessoas se referem à Maria Helena. Queria muito travar contato com Silvia Mascarenhas Vianna, Julio Dias Gaspar, Alexandre Tambelli, Luiz Baracat, Luis Carlos e Marcelo Saenz. Não podemos permitir que uma escritora tão genial caia no esquecimento. Um Abraço.

Reply

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>