EVOCAÇÃO DE ELIAS SOUTO

Por O Santo Ofício | 11 junho, 2009

Entrevista a Franklin Jorge

Conversamos, dona Maria Luisa e eu, no living do Hotel Via Costeira, entre o mar o que sobrou da floresta atlântica. Extrovertida e elegante, fala com fluência sobre o avô, o jornalista Elias Souto, criador da imprensa diária no Rio Grande do Norte, cujo nome batiza um prêmio de reportagem criado por um seu bisneto.Prêmio, acrescente-se, que não terá continuidade como muitas outras coisas boas que eventualmente acontecem em nosso meio.

Nascida em 1918, não chegou a conhecer Elias Souto, seu avô materno, falecido em 1908, se não através da crônica familiar que preservou lances de uma vida tumultuosa e rica em acontecimentos, persistência e heroísmo na fidelidade a um sonho de liberdade.

Meu avô sofreu muita perseguição de Pedro Velho, em particular, e dos republicanos em geral. Jornalista de Oposição, vivia sendo transferido pelo Governo de um lugar para outro, em represália ao seu comportamento independente.

Paralitico havia muitos anos, ganhando a vida como professor primário, para achacá-lo o governador Alberto Maranhão o nomeou para a cadeira de educação física. Foi um escândalo que acabou revertendo negativamente para o governo, que ficou malvisto até para alguns correligionários providos de decência. Esse ato mesquinho apenas contribuiu para aumentar o prestigio e a popularidade do jornalista, que passou a ser respeitado por todos como um símbolo de resistência a um governo inumano e atrabiliário.

Nunca se vira nada igual sob os governos monarquistas. A tradição de autoritarismo, que marcaria o governo do estado, nasceu com a República, sob a oligarquia forjada por Pedro Velho, organizador do estado republicano no Rio Grande do Norte e, posteriormente, senador.

Meu avô tinha muita fortaleza moral. Homem de têmpera forte, por toda a vida em luta com a adversidade, foi sempre um lutador sertanejo. Aonde chegava, transferido pelo pedrovelhismo, fundava um jornal. Em 1873, no Assu, antes da Proclamação da República, fundou O Sertanejo que sobreviveu até 1876. Um jornal político que se dizia Órgão Conservador. Nesse mesmo ano, tendo adquirido um prelo de qualidade, passou a editar o Jornal do Assu, que, a partir de 1885, passou a chamar-se O Assuense.

Grande abolicionista, Elias Souto fundou oito jornais, entre os quais o Diário de Natal, o primeiro desse nome, que lhe sobreviveria.

Ele teve sistematicamente os seus jornais empastelados pelos governistas. Em Natal, para onde se mudou e onde viveu até a sua morte, o governo utilizava elementos da policia que, disfarçados, invadiam as redações e quebravam toda a maquinaria. Uma noite, Na rua da Conceição, minha mãe e minhas tias acordaram com um barulho enorme e foram olhar pelas frestas da janela o que se passava lá fora. Reconheceram então o coronel Quincó, vestido de mulher, comandando a depredação de um desses jornais fundados por meu avô…

O coronel Quincó, muito gordo e pau-mandado, serviu a diversos senhores, sempre fazendo o trabalho sujo ou agenciando-o, para satisfazer aos poderosos. Conta-se que, quando o presidente Afonso Pena visitou o Rio Grande do Norte, ao agradecer-lhe os préstimos, ele respondeu simplesmente que era apenas “um bosta”… Morreu após o governo de Juvenal Lamartine, o defensor do voto feminino.

Dona Maria Luisa tem olhos azuis, vivos e transparentes, que denunciam, segundo informa, a sua remota ascendência flamenga de sua avó, Teresa Rebouças Ferreira Souto, oriunda do Aracati. Noto que usa com simplicidade aristocrática um belo colar de coral. O escritor Luis da Câmara Cascudo costumava dar-lhe o tratamento de Duquesa.

Casada em 1938 com Ciro Barreto de Paiva, Dona Maria Luisa nasceu e criou-se em Natal, num casarão na Avenida Junqueira Ayres. Filha do desembargador Dionísio Filgueira [1868-1947] e de Dona Elisa Souto Filgueira [1886-1950], tem três irmãs, Margarida, a primeira assistente social do Estado, Marta Maria e Tereza, todas solteiras e residentes no Rio de Janeiro. Minha mãe escrevia muito bem. E foi, durante anos, a revisora dos jornais editados por meu avô Elias Souto. Lia muito e gostava de corresponder-se com Maria Eugênia Celso, filha do Conde Afonso Celso. Era amiga das poetisas Carolina e Palmira Wanderley, que escreveram versos jubilosos no álbum dos quinze anos de Dona Maria Luisa.

Me alfabetizei com Dona Belém Câmara, uma senhora que se diplomara na primeira turma da nossa Escola Normal e tinha uma escolinha particular muito conhecida e respeitada. Depois estudei no Colégio Pedro II, do professor Severino Bezerra e, posteriormente, no Atheneu Norte-rio-grandense. Nunca estudei em colégios de freiras nem na Escola Doméstica – diz, sorrindo. Nessa época a cidade se resumia, praticamente, aos bairros da Ribeira e da Cidade Alta. 

 

[1980]


Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>