GRITO DA MEMÓRIA

Por O Santo Ofício | 7 junho, 2009

Rizolete Fernandes

mrizolete@yahoo.com.br

 

 

O grito é uma dentre as várias formas de expressão oral inerentes aos seres vivos. Os humanos gritam para expressar sentimentos que vão da felicidade à dor, aí inclusos o gozo, a atitude autoritária e outros transbordamentos em situação-limite.

 

Os animais irracionais também reagem gritando ao sofrimento ou à alegria: quem na vida não presenciou um cão grunhir de dor após receber raivoso pontapé de um representante da espécie humanóide? Existe, claro, exceções: as plantas são vivas e não gritam, embora os ventos o façam, ao passar por entre sua folhagem.

 

As árvores substituem o grito de sofrimento pelo choro, silenciosamente expresso na forma de resina; já seu contentamento se transmuda em flores e os frutos a embelezar nossa vida.

 

O grito humano que com maior freqüência ocupa o imaginário de crianças e adultos é o de terror, medo, ou agonia, presente em verso, prosa, nas artes plásticas e outras manifestações artísticas, ao longo da história.

 

O pintor norueguês de tendência simbolista, Edvard Munch (1863-1944), o representou no quadro intitulado “O Grito”, de 1893, que se encontra na Galeria Nacional de Oslo. Nele, o artista expressou, através de uma figura de aparência andrógina, toda a angústia e o espanto que pode se apoderar de uma pessoa tomada pelo pânico. As cores densas utilizadas, os tons escuros e fortes se propagando em forma de ondas, dão conformidade à peça mundialmente famosa.

 

Na literatura, assoma o exemplo de Elizabeth Bishop, poeta norte-americana nascida em Worcester, Massachusetts, em 1911 e que viveu no Brasil entre1951 e 1967 (posteriormente voltaria para temporadas menores). Sua biografia dá conta de um grito ouvido na infância cuja lembrança traumática lhe acompanharia vida afora.

 

Trata-se do grito desferido por sua mãe, momentos antes de ser levada para o hospício, destino único dos acometidos de surtos psicóticos, na época. Após o que, Bishop, então com pouco mais de quatro anos, perambulou sem rumo pela noite, extenuando-se, na tentativa de esquecer a cena. Em vão: o lancinante grito materno a perseguiria até a morte, em Boston, em 1979.

 

Também eu, amigo leitor, carrego desde a adolescência um grito na memória, articulado não por um familiar, como no caso de Bishop, mas por pessoa de meu conhecimento e revestido de alto teor de tragicidade.

 

Naquela época, a minha Caraúbas ainda não fora palco da rivalidade que durante um longo período dizimou famílias locais e pôs aquele município oestano no primeiro plano do cenário da violência praticada no Estado.

 

A centenária cidade de então, seguia a sua pacata rotina de trabalho e alegre expectativa das festas de fim de ano, do padroeiro São Sebastião, em janeiro, São João e São Pedro, em junho. As noites fechavam os dias com as pessoas sentadas na calçada, comentando as ocorrências da cidade e ouvindo as notícias e músicas da difusora local.

 

Uma noite, após o locutor anunciar o fim da programação e o motor gerador da luz elétrica dar o primeiro dos três sinais de despedida às 22 horas, todos de casa nos recolhemos.

 

Adormeci logo, sono tranqüilo, dos justos. Despertou-me no meio da noite um grito, incomum, aterrador. Atordoada, corri à sala, onde já se encontravam outros familiares e constatamos que janelas e portas das casas vizinhas se abriam e os moradores saíam para a calçada, curiosos.

 

Não tardou que alguém vindo do centro, região das casas noturnas onde se encontravam a juventude, os boêmios e retardatários, informasse: numa briga de bar, haviam assassinado o filho de uma vizinha nossa. Segundo consta, o próprio homicida tinha acabado de dar a notícia à mãe.

 

A senhora viúva, nossa vizinha, dedicava-se a administrar seus negócios e cuidar da enorme prole, atividades que exercia com garra e severo amor materno. Era uma mulher de estatura física acima da média, corpulenta, decidida e que, acordada no meio da noite com a trágica notícia, em vez de ceder ao abatimento, saíra em desabalada correria na direção do local da fatalidade.

 

No trajeto, que passava por nossa rua, ia emitindo os gritos desesperados, que sobressaltaram a sonolenta população das adjacências. Gritos viscerais, medonhos, desferidos pelo peito de uma mãe que acabara de saber roubada ao filho a vida. Eram verdadeiros urros de uma fera correndo ao encontro da cria atingida, na inútil esperança de salvá-la.

 

Aqueles gritos doridos rasgaram o silêncio da pacata noite de uma cidade do interior. E ficaram marcados a fogo na memória desta caraubense.


11 Comentários

Ridan on 7 de junho de 2009 at 14:49.

Temática interessante e o texto bem escrito, encadeado. Trouxe-me reflexões acerca da forma de expressão a que se refere. Muito bom!

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Pedro Jorge on 7 de junho de 2009 at 15:49.

Ótimo! Excelente! Li com satisfação.

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Araceli on 8 de junho de 2009 at 11:15.

A gente vive aprendendo a dar sentido a tudo, mas a memória por si só recupera os sentidos que damos ao que presenciamos. Rizolete faz um excelente percurso: indica a dor e o eco transmitidos pelo grito… Muito sensível…

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Talita de Melo e Sousa São José de Mipibu on 8 de junho de 2009 at 18:53.

Bom o artigo, mas a autora sempre acaba se perdendo no final, pois bota tudo num discurso provinciano e valorizando as gentes do interior, não precisava disso, seria melhor universalizar.

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Rizolete Fernandes on 10 de junho de 2009 at 11:56.

Sobre o oportuno comentário de Talita (de Melo e Sousa), que agradeço, gostaria de frisar que sou, sem dúvida, uma provinciana assumida e nesta crônica em especial, quis deixá-lo registrado. Contudo, vou tentar levá-lo em consideração nos próximos textos.

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Moema de Azevedo, de Alexandria on 13 de junho de 2009 at 11:25.

Ridículo assumir que é provinciana, depois de ter viajado tanto…não deveria ter saído do “tronco natal”, do pé da serra. Tem tanta feminista sem futuro neste Estado…

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Carlos do Amaral on 14 de junho de 2009 at 7:54.

Se a Senhora que escreveu o artigo é tão provinciana, deveria tratar de rapadura, cuzcuz e macaxeira com carne de sol. Não entendo como se vive numa cidade tão grande e ainda se acha provinciana. Ela ainda senta na calçada da sua casa para ver o povo passar, de tarde, quando o sol esfria? Mulher, melhore. Avancemos, este é o papel de quem escreve, como o faz magnificamente bem o nosso melhor jornalista cultural: Franklin Jorge. Isto aqui não tem jeito mesmo…

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Alexandre Abrantes de Albuquerque on 15 de junho de 2009 at 17:42.

Parabéns, querida Rizolete, por ter transmitido o grito da mãe ao encontro do filho que jazia. Daria um bom conto na esteira de Poe.
Abraços

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Franciusca Sales Viana on 15 de junho de 2009 at 18:52.

Apóio a mulher que escreveu o artigo, pois não tem coisa mais bonita nesse mundo do que dar ponto a terra em que nasceu, isso sim, é pessoa de valor, não gente que fica bossando de comopolitismo, e não dá valor a sua gente e sua terra. Parabéns, minha conterrânea Rizolete, pois até o nome é de gente humilde, nasceu ja´com a marca da humildade. Viva Caraúbas! E sua gente hospitaleira.

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Minerva Wanderley on 16 de junho de 2009 at 20:11.

Minha filha, acredite numa velha de setenta anos. Continue escrevendo e publicando: você demonstra ter experiencia de vida e muita história pra contar. Alguns não vão gostar, outros vão aplaudir e pedir bis. Como eu que vivi experiencia semelhante na velha cidade de Goiana, Pernambuco, de onde sou natural e oriunda.

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Nivaldete Ferreira on 23 de junho de 2009 at 19:55.

Não tem cabimento esse rótulo de ‘provinciano/a’… W. Whitman já dizia: “não há províncias. As províncias estão em nós”. Ora, que autor não tem ‘uma terra’ e não a cita?!… A começar pela Odisséia, cheia de mitos e deuses PRÓPRIOS da Grécia… E a Itabira de Drummond?… E a aldeia de Saramago (Pequenas Memórias)?… Gente, estamos no mesmo mundo: tudo é universal! O grito de Caraúbas deve se repetir em todos os continentes, em algum momento… Infelizmente.

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