NO PASSEIO PÚBLICO [2]
Por O Santo Ofício | 3 junho, 2009
Por Franklin Jorge
O Passeio Público foi construído sobre o leito da antiga Lagoa do Boqueirão, aterrada para este fim com os destroços do Monte das Mangueiras por determinação do vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza, sucessor do marquês de Lavradio, administrador já velho e experiente, hábil e feliz que deixou excelente memória pelo apoio que dispensou à agricultura e a cultura no Rio de Janeiro.
Homem de grande finura de espírito e inteligência funcional revelou-se o novo governante, cuidando do embelezamento da cidade e algumas vezes agindo de maneira surpreendente, como no dia em que ao descer o Morro da Conceição, sob o sol ardente, deparou-se com João Homem, gordo e pesadão que se fazia transportar numa cadeirinha por dois escravos que se esfalfavam e arquejavam contando os passos que davam na subida da ladeira que recebera do povo o apelido do seu senhor.
Apiadado com o sofrimento dos negros que cumpriam sem remissão tal penitencia e agastado com a pachorrice de João Homem, o vice-rei, do alto do seu cavalo, mandou-os parar e fez a troca. Mandou o rico proprietário descer da cadeirinha e ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos escravos e obrigou que este se sentasse na cadeirinha… E lá se foi o João Homem, sem reclamar, derretendo-se em suores, ajudando a carregar ladeira acima o escravo bem sentado…
No entanto, apesar desses rompantes de poder arbitrário, foi o vice-rei um grande empreendedor que não desmereceu a fama de administrador e político profundo deixada por seu antecessor.
Talvez mais adiante, se o velho livro que consulto não se desfizer em pó entre minhas mãos, acrescente mais alguns desses episódios pitorescos que singularizam a crônica do se governo, do governo do vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza, que começou em 1779 sob o mau augúrio de um surto de febre maligna que o povo que sempre encontra explicações para tudo batizou de “zamparini” em homenagem a uma cantora veneziana que por aquela época fizera sucesso em Portugal…
Conta a lenda, aliás bem contada por um dos fundadores da literatura brasileira, o dr. Joaquim Manuel de Macedo – romancista e autor de uma saborosa crônica urbana de São Sebastião do rio de Janeiro –, que o primeiro jardim público da cidade fora sonhado por uma moça bonita de nome Suzana, por quem o vice-rei nem sequer chegara a arrastar a asa, pois o destino traçara-lhe um desfecho diferente.
Deixemos agora a palavra com o autor de “A Moreninha” e dessas crônicas exemplares que fui encontrar numa velhíssima e prestigiosa primeira edição de “Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro”. Mas não tão prontamente, pois o relato é um tanto extenso. Claro que eu podia condensá-lo ou resumi-lo com minhas próprias palavras, mas aí se perderia o encanto dessa prosa que me traz tantas recordações de minha avó materna. O dr. Macedinho, por ser um tipo miúdo e médico queridíssimo, era um dos seus escritores prediletos que ela lia, ainda menina e moça, no Ceará-Mirim dos nossos antepassados… [Continua]




5 Comentários
Lisa Kikoler, Humaitá-RJ on 3 de junho de 2009 at 21:42.
Que interessante v. falar do escritor Joaquim Manuel de Macedo, o imortal autor de “Memórias de um sargento de milícias” que assinala o surgimento do romance urbano no Brasil. Não sabia que ele tinha escrito essas crônicas sobre o Rio já tão presente em sua obra de ficção. Viu procurar para ler… Estou acompanhando seu blogue com muito prazer. É excelente ler o que publica aqui, até sobre assuntos desinteressantes como a política que se tornam atraentes graças a cooperação do seu estilo sem igual. Diverti-me lendo sobre a “senadora de Mossoró” que fez aquele papelão da tribuna do Senado. Excelentes “A Eminência Parda”, “A orgia do Poder”, “Escravidão Moral na Cidade Junina” e “Governadora à beira de um ataque de nervos”. Repito: você tem o poder de transformar a realidade e de fazer o ridiculo interessante.
Zayra Kihbder, Barra da Tijuca on 4 de junho de 2009 at 19:19.
Ah, o senhor é também um torturador! Interromper o texto quando a gente estava na iminencia de descobrir o que originou a construção do nosso lindo Passeio Público! Fiquei aborrecida com esse corte e exijo-lhe, na condição de leitora cativa deste blog, que retome o relato interrompido. Urgentemente, Franklin Jorge!!! Estou adorando ler sobre o nosso Rio e estou recomendando “O Santo Oficio” ao meu circulo de amigos.
João Sebastian, Urca -Rio on 5 de junho de 2009 at 0:29.
Um personagem esse vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza! Essa molecagem que ele fez com o João Homem, que se não me engano era um alforriado ou um homem do povo que fez fortuna, é uma resenha. Ri muito às custas de João Homem. Espero que continue escrevendo a crônica do Rio nesse tom. Não lhe faltarão leitores: ainda há leitores que sabem reconhecer um escritor de verdade!
Frans Szermann - Jacarepaguá on 5 de junho de 2009 at 13:29.
Um prazer melancólico ler esta crônica sobre um Rio que passou…
Hugo Starling (Laranjeiras) on 5 de junho de 2009 at 20:38.
Cumprimento-o por trazer ao desfrute dos leitores essas crônicas que resgatam o Rio antigo, um assunto que não é muito acessível nas publicações impressas ou virtuais. Nascido e criado aqui, toca-me o que escreve com tanta classe e refinamento hoje tão ausentes em publicações do gênero. Descobri-o por acaso, procurando matérias de cunho cultural e de repente estava diante desta página que já incorporei aos meus “Favoritos”. Somente agora estou conhecendo um pouco mais a nossa querida Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E o que é curioso, através do talento de um potiguar.