A Paisagem humana de Antonio Martins
Por O Santo Ofício | 26 maio, 2009
SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA
Por Franklin Jorge
Simplício nasceu em 1914, no Moquém, hoje um bairro de Antonio Martins. Antigamente isso aqui ficava fora da rua e era um lugar habitado por uns índios que sobreviveram à colonização. Era um povo muito rude que tinha o costume de moquear a carne, que comiam ainda sangrando, por isso ficaram conhecidos como “os Moquéns”.
O velho estava no quintal, fazendo as necessidades, quando batemos à sua porta. Ele demorou a aparecer. Sua casa é um depósito de tudo o que é sucata. Ele é muito vivedor e inventa cada coisa que só vendo, informa sua filha, Maria das Graças, de 57 anos. Ela nos guiou até a sua casa, por ele mesmo construída nos fundos dum terreno onde há de tudo, hortas e criação. Impressiona o número de garrafas vazias espalhadas pela casa e no quintal, sob as árvores ou no meio do tempo. Ele é danado para consertar qualquer aparelho. Rádio, televisão, toca-discos, automóveis. Não há segredos para esse homem…
Inteligentíssimo e cheio de habilidades as mais diversas, por muito tempo ganhou a vida fabricando toda qualidade de bebidas. Uísques, campari, rum, aguardente, confessa depois de alguma relutância. Ainda conserva o alambique que fabricou com as próprias mãos, há muito, sem uso. Por muito tempo, explica a mulher, ele abasteceu todas essas bodegas daqui com a bebida que fabricava. Muito curioso e vivedor, em certa época tornou-se dentista prático, extraiu dentes, fez obturações e esculpiu centenas de dentaduras. Como ourives fez muitas jóias, especialmente alianças, brincos e anéis. A derradeira aliança que fiz foi a de um rapaz que trabalha na loja Fonseca. Aprendi a fazer tudo vendo as pessoas fazer. Não tive professores.
Apesar da idade avançada tem um jeito de menino levado. Meio desconfiado a principio, pensava estar recebendo algum fiscal ou alguém que pudesse criar-lhe alguma espécie de problema. Depois das apresentações, relaxa um pouco e aos poucos vai se tornando mais confiante e respondendo às minhas perguntas. Magro e ágil, exala um cheiro forte de quem tem ojeriza à água e ao sabão. A simpatia em pessoa, conversa sorrindo. Mora sozinho nessa casa que é tudo: refúgio, destilaria, oficina, palco.
Filho de Antonio Pereira da Silva e de Joaquina da Conceição, teve um tio, Vicente Lira, esfaqueado por Lampião, quando por aqui passou em 1927. Lampião o prendeu, pensando que ele tinha dinheiro. Mas estava equivocado, quem tinha dinheiro era o irmão dele. Chateado com o engano, Lampião mandou que ele corresse, mas ele não correu. Então, para não ficar desmoralizado, Lampião lhe deu uma punhalada. Mas ele não morreu da punhalada e continuou vivendo para contar a história.
Simplício canta os versos que compôs sobre o episódio que se deu aqui mesmo, na cidade de Antonio Martins, naquele tempo ainda chamada de Boa Esperança.
Lampião mandou recado
Por um portador de linha
[...]
Eu vim buscar o dinheiro,
Pois goma não é farinha…




5 Comentários
Delzinha on 26 de maio de 2009 at 9:31.
Que bom ver nossa terra em tão boa companhia! A cidade de Antonio Martins quase não aparece nos noticiários, apesar de pitoresca e colorida como um pastoril. Volte, Franklin, para fazer outras entrevistas tão gostosas como esta que fez com o velho Simplicio.
Maria Eulina Hatoum on 26 de maio de 2009 at 13:48.
Franklin Jorge, minha terra é pequenina e pobre, mas ficaríamos muito honrados com sua visita e tenho certeza de que seria bem recebido por todos e colheria aqui boas entrevistas e material para divulgação neste site que eu acesso todos os dias, para lembrar-me do RN. Sou natural de Jaçanã mas moro em Dubai – casei com um árabe e vivo aqui há muito tempo. Vá a Jaçanã! Lá encontrará um povo muito bom, velhos sabedores de histórias como as que gosta de contar para seus leitores. Tenho certeza que gostará de Jaçanã e talvez até queira se mudar para lá, um lugar calmo e lindo, muito adequado para quem escreve e deseja a paz, como penso que é o seu caso. Rezo por ti.
Judicélia Matos on 26 de maio de 2009 at 17:28.
Minha professora leu e trouxe para a sala de aula o que o senhor escreveu sobre seu Simplicio. Achamos muito bom e engraçado. Vamos fazer um trabalho sobre o que escreveu e eu pensei que o senor pudesse entrevistar tambem meu avô e uma tia que sabe muitas histórias de Trancoso. Eu moro no sitio e tem lá muita gente que sabe histórias antigas. A professora passou uma tarefa. Quer que a gente entreviste o senhor para saber muitas coisas e como conheceu o velho.
Amadeu Pereira on 26 de maio de 2009 at 17:44.
Não sei se o sr. esteve aqui antes ou já depois que fizeram esse carnaval com a nossa cidade que ficou parecendo mais um pastoril. Aqui, depois que a cidade caiu nas mãos desse prefeito demagogo, tinta tem serventia. É tudo muito colorido e parecendo com o carnaval. Se veio depois, muito agradecemos ter nos tratado com tanto respeito, apesar de toda essa “fachada” alegre.
Hemetério on 26 de maio de 2009 at 19:56.
Conheci o velho Simplicio fabricando uisque e outras bebidas finas que muita gente bebeu pensando que vinha do Paraguai… Não sei se ainda está vivo: era em todo caso uma grande figura! Tinha talento para todas as artes, principalmente a misteriosa arte de transformar uma coisa em outra. Não pensava que ia ler um artigo tão interessante sobre uma figura de minha terra que já não vejo há uns cinquenta anos! Revivi, remocei, voltei a ser rapaz, lendo este artigo de Franklin Jorge e recordando um tempo que não volta mais, a não ser através do resgate da memória, como faz essa grande jornalista potiguar!