MEUS VERDES ANOS

Por O Santo Ofício | 3 março, 2009

Por Franklin Jorge

 

Conheci no Estevão as felicidades prodigadas pelo inverno. Em algumas manhãs, a caminho dos roçados encharcados de seiva, rompia cercas viva ou equilibrava-me sobre os leirões; no sítio uberoso, sentia roçar-me a pele, oloroso, transparente e gelado o orvalho da madrugada que refulgia ao sol ainda brando do inverno. Por toda parte a alegria dos pássaros meliantes e a respiração da terra grávida e satisfeita.

 

Outras vezes, numa marcha cheia de obstáculos, seguia a cavalo ou sentava-me sobre os ombros de Seu Midas, amálgama de gênio alegre e de gigante amável, amando as crianças e a liberdade, sempre de bom humor, em deambulações perpétuas por várzeas e tabuleiros.

 

Andar, sentindo a terra viva sob os pés, constituía então para mim uma forma inconsciente de felicidade. Uma felicidade informe e visceral que me avassalava todos os sentidos.

 

Nas grandes inundações, inútil resistir aos descontroles da natureza. Sempre os elementos afirmariam sua pujança sobre a vontade dos homens. Era quando, no último instante, deixávamos a casa grande construída para as bodas de minha avó materna.

 

Debaixo da chuva ou aproveitando que estiara, atravessávamos em cortejo de nadadores exímios o rio álgido e voraz. Sobre uma balsa manobrada por vareiros provados no ofício, vencíamos custosamente a correnteza tumultuosa., na maior expectativa.

 

Após a escalada da íngreme encosta esculpida pelas intempéries, os altos do Panon, terra bárbara no limiar da mata nativa, antigo refúgio de indígenas e negros fugidos. Nome de origem africana, sugere “pequena onda”. Enfim, debaixo dos nossos olhos, a caudalosa Lagoa das Portas, duma aquosidade metálica, plúmbea e mortuária, embalsamada no odor adocicado e carnal dos aguapés.

 

Pântano luzente, fervilhando de ervas úmidas, a lagoa despertava em mim atração e repulsa. Troncos rugosos bóiam à flor da água marchetada de placas luminosas. Um vapor vitrificado dá paisagem uma nota de irrealidade; algo assim como a estranheza que fazia o meu pequeno coração bater descompassadamente.

 

A paisagem parecer-me-ia, anos depois, como que composta por um artista profuso e sintético. Alguém que fizera as criaturas e os elementos e que fora ainda capaz de da existência a assombrações diurnas.

 

Vivia eu naquela idade que nos dá a felicidade de maravilhar-nos e de ver milagre em tudo. Tocado então pelo mistério das águas lustrais, mirava à distância a lagoa imóvel, resplandecente como uma lava de gelo.

 

 

 

 

 

 


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