“O SANTO OFÍCIO”

Por O Santo Ofício | 3 fevereiro, 2009

Transcrito de O Jornal de Hoje

O jornalista Franklin Jorge cria site com o intuito de publicar obras literárias e produzir conteúdos que fujam dos enfoques primários ou amestrados por interesses corporativos. Franklin Jorge, 56 anos, escritor e jornalista, editor do site www.franklinjorge.com e do blog “O Santo Ofício”, um fenômeno de comunicação na Internet, fala de sua experiência e de seus projetos, como a difusão dos autores norte-rio-grandenses estreantes e consagrados, além da criação de museus de literatura e artepostalismo formados a partir do seu valioso acervo recolhido em quase 40 anos de atividades culturais.

O JORNAL DE HOJE – Me conte um pouco da sua trajetória profissional?
Franklin Jorge
– Cheia de altos e baixos, mas fiz tudo o que desejava fazer e continuo fazendo, como escrever o que penso sem a canga de interesses subalternos. E sempre com um foco, construir uma obra literária que dê voz àqueles que não têm voz.

O JORNAL DE HOJE – Como surgiu a idéia de criar o blog?
Franklin Jorge
– Fui dos primeiros, no Rio Grande do Norte, a acreditar e a investir na Internet, ao publicar em setembro de 2.000 nossa primeira revista virtual, numa época em que não existiam ainda as lan houses e o número de internautas, em Natal, caberia dentro de um ônibus. Mesmo assim, criamos “Navegos” que chegou a ter 40 editores contribuintes. Era uma bela publicação criada com a tecnologia e o webdesign de Mônica Rayol. Nosso editor-executivo era o jornalista Paulo Sérgio Martins, que pode mostrar então o seu talento. Tivemos que parar porque na verdade havíamos nos adiantado no tempo… Seis anos depois criei um site a que não dei muita divulgação e nisso tive muita sorte, pois acabei logrado pelo webmaster. Em 2008, após amadurecer um novo projeto e estudar a sua viabilidade, contratei uma empresa mossoroense, a Grospim, do competente Daniel Lopes, e lancei o site, no qual incluímos um blog, “O Santo Ofício”. Lançados em 11 de agosto do ano passado e depois de ficarem sem novas postagens durante mais de 80 dias, por causa de uma bateria de vírus mal-intencionados que destruíram arquivos inéditos e desfizeram a configuração do site, voltamos recentemente a fazer publicações regulares e já contabilizamos mais de 54.000 acessos, o que segundo pessoas que são do ramo, constitui um verdadeiro fenômeno de comunicação. Creio que conquistamos a confiança dos leitores e uma grande audiência em franco processo de expansão.

O JORNAL DE HOJE – Qual a proposta do blog?
Franklin Jorge
– Produzir conteúdos que fujam dos enfoques primários ou amestrados por interesses corporativos. Pessoalmente, tenho publicado muito sobre cultura e produzido alguns artigos políticos, satisfazendo assim um velho desejo de jornalista: praticar aquilo que entendo como articulismo político, não como mero registro dos fatos, mas interpretando-os segundo valores éticos. Não vendemos opinião.

O JORNAL DE HOJE – Em breve, o site lançará alguns escritores?
Franklin Jorge
-sim, estamos finalizando a publicação de sete séries de minha autoria que, ao final, darão espaço a novos autores, alguns tarimbadíssimos. Novos, quero dizer, naquele espaço que continuará publicando a cada dia uma série diferente, algumas com duração entre 15 e 50 semanas. Já estão programadas séries extraídas de livros de Lêda Gurgel Batista ["Cartas da Infância"], Nelson Hoffmann ["O Homem e o Bar"], Caio Flávio Fernandes ["Sertão Bravio"], Nivaldete Ferreira ["Memórias de Bárbara Cabarrús"], Anna Maria Cascudo Barreto ["O Colecionador de Crepúsculos"], Honório de Medeiros [sobre Massilon Leite, que convenceu Lampião a atacar a cidade de Mossoró em 1927] e a continuação do meu “O Spleen de Natal”. Também aos atuais colaboradores, como o Procurador Regional da República Edilson Alves de França, os jornalista Walter Medeiros e Nadja Lira, e às cronista Zélia Maria Freire e Nivaldete Ferreira, se juntarão novos nomes, entre os quais o da atriz Socorro de Figueiredo e do professor e ensaísta Márcio de Lima Dantas e o poeta e jornalista Adriano de Souza, que terão espaço cativo no site e no blog. Tenho a esperança de acrescentar a estes nomes o de Franci Fernandes, que muito admiro.

O JORNAL DE HOJE – Quais são os critérios para ter uma obra postada lá?
Franklin Jorge
– Sempre, como Lênin, acreditamos que a qualidade deve estar presente em tudo. Este deverá ser o critério a nos nortear.
 
O JORNAL DE HOJE – Qual a sua opinião sobre a produção literária no Rio Grande do Norte?
Franklin Jorge
– Temos alguns bons valores, no passado e no presente, mas falta uma política cultural que dê visibilidade à produção local. Sobretudo carecemos de uma critica militante. No passado tivemos grandes luminares como Edgar Barbosa, Nilo Pereira, Américo de Oliveira Costa, Câmara Cascudo, Berilo Wanderley e Navarro; hoje temos Nivaldete Ferreira, Rodrigo Levino, Franci Fernandes, Márcio de Lima Dantas [excelente critico], João Gualberto Aguiar, Marize Castro, mas falta-nos a critica. Não podemos ter uma produção literária de qualidade sem o exercício da critica. O que temos, atualmente, é uma espécie de crônica mundana da cultura, geralmente praticada por uma gente despreparada que não sabe sequer discernir os estilos de época.
 
O JORNAL DE HOJE – E, a crescente procura da população pelos escritores locais?
Franklin Jorge
– Não tenho certeza disso. Me parece que ninguém lê os autores locais.
 
O JORNAL DE HOJE – Na sua opinião, a internet por ser um espaço democrático foi um dos grandes responsáveis por estimular a leitura?
Franklin Jorge
-A internet é a mídia planetária. Criou mundos novos e novas categorias de leitores. No Brasil, em dois anos, o número de internautas cresceu em 73%. Somos o segundo país do mundo com maior numero de pessoas regularmente conectadas, mais de 40 milhões. É um número portentoso. Creio até que, como veiculo de comunicação, a internet sobrepuja a mídia impressa, mas em muitos casos carece de qualidade e de conteúdos capazes de orientar a leitura. Lê-se mais, é verdade, mas não tão bem quanto podíamos desejar. Em todo caso, resumindo, a internet socializou a leitura, sim. Mas é uma leitura ainda de má qualidade. Uma leitura motivada pela indústria cultural, como deu provas recentemente disso uma professora da UERN, ao recomendar aos seus alunos a leitura de Paulo Coelho… Por proporcionar a auto-edição, a internet tem se tornado conivente com a mediocridade que se encastela em toda a parte. Porém, de qualquer modo, está ajudando as pessoas a pensarem melhor sobre as coisas.
 
O JORNAL DE HOJE – O que você diz sobre o sucesso dos blogs?
Franklin Jorge
– Inevitável. O blog responde a uma demanda reprimida dos leitores por opiniões independentes. Uma prova disto um artigo recente que escrevi sobre as primeiras semanas do governo de Micarla, em pouco mais de três horas tivemos 800 acessos e uma profusão de comentários que publiquei e alguns dias depois, inadvertidamente, ao editar novos comentários, deletei… Também devemos considerar o papel que teve a internet, recentemente, na reeleição do prefeito de Pau dos Ferros. O candidato derrotado alegou em juízo que minha participação como marqueteiro, através da internet, desequilibrava o pleito…
 
O JORNAL DE HOJE – Franklin Jorge por Franklin Jorge?
Franklin Jorge
– Alguém que se empenha em ser melhor do que é.


6 Comentários

CARLOS GOMES on 3 de fevereiro de 2009 at 17:29.

Amigo Franklin,
Vibrei com a sua entrevista. Ela retrata muito bem o seu valor e mostra que estás em merecida evidência. Continue nessa mesma linha, divulgando o seu talento e ampliando os admiradores. Fazer cultura é difícil, principalmente numa província como a nossa cheia de “guetos”. Um abraço de Carlos

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Equipe Grospim.com on 3 de fevereiro de 2009 at 23:46.

Temos orgulho de ter feito parte da construção de um belo trabalho que teve origem em uma pessoa espetacular como Franklin Jorge.

Sucesso, amigo.
Abraços,
Daniel Lopes

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Marilia Vieira on 5 de fevereiro de 2009 at 16:14.

Franklin Jorge deitando erolando na Internet, para o deleite de mais de 55.000 leitores que sabem o que é bom…

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Rafael Souza on 7 de fevereiro de 2009 at 11:41.

Franklin, quando li essa entrevista (estava em Natal e comprei o jornal) pensei em cumprimentá-lo, mas deixei passar…Você escreve e é lidissimo:o que sai da sua oficina tem gabarito e repercute na opiniçao pública do estado. Ouço sempre o seu nome como uma referência importante e respeitada, uma coisa muito rara no meio jornalístico especialmente do nosso estado. Acesso esta página todo dia, mesmo quando você não estava publicando nada. O que você escreve não pe descartável e suporta a releitura, o que não acontece com a maioria dos seus colegas que a gente lê por força do hábito mas sem tirar proveito desse esforço. Um abraço, meu velho.

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Souzinha on 10 de fevereiro de 2009 at 11:51.

Escreva sobre a Capitania das Artes e FAPERN, por favor.

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Maria José on 14 de fevereiro de 2009 at 12:24.

Parabéns por mais esta entrevista.

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