VAUVERNAGUES

Por O Santo Ofício | 21 dezembro, 2008

O castelo de Vauvernagues visto por Pablo Picasso

 

Por Franklin Jorge

 

Nunca me ocorreu interrogar minha avó sobre sua admiração por Vauvernagues [1715-1747], cujas máximas – citadas quase sempre para aclarar uma circunstância ou servir de esteio a uma lição – lastrearam, de alguma forma, a minha educação.

 

Minha avó o lia num pequeno volume encadernado em couro de porco, o nome do autor gravado em letras de ouro com duplos marcadores de cetim púrpura. O uso constante e obstinado que dele fazia aquela ledora desde o seu tempo de solteira, no Ceará-Mirim, até a sua segunda viuvez no Estevão, quando o livro desapareceu e nunca mais o vi em parte alguma, a não ser em minha memória, com as suas páginas já amarelecidas, impregnadas de vivências, recendendo ao delicado e característico odor do seu suor.

 

Suponho que foi um presente do seu professor de inglês e latim, o poeta Abner de Brito, que pousou por algum tempo no Ceará-Mirim, antes de sua mudança definitiva para o Paraná, de onde nunca mais regressou ao Rio Grande do Norte que lhe fora tão hostil e adverso. Curiosamente, era Vauvernagues o autor que a grande atriz Glauce Rocha lia, quando na companhia de minha avó a visitamos em seu apartamento no Grande Hotel. Foi esse volume que ela me presenteou com uma bela dedicatória, como uma lembrança desse encontro, há mais de quarenta anos, quando – respondendo à sua indagação sobre o que eu queria ser – disse-lhe, num ímpeto de arrogância juvenil, que desejava ser “escritor ou nada”…

 

Recentemente, ao comparecer a uma conferência sobre Clarice Lispector, deparei com uma nova edição de Vauvernagues, em cujo castelo Picasso, glorificado por seu talento, viveu seus últimos anos em meio a uma profusão de obras de arte. Senti, ao folheá-lo, a presença invisível de minha avó, que me trazia de volta alguns momentos inesquecíveis de minha infância rural no Estevão, quando ela, em seus momentos de solidão e recolhimento, perlustrava suas máximas e reflexões que recreavam o seu espírito e ao mesmo tempo propiciava-lhe o recheio de minha educação sentimental sem que eu o suspeitasse.

 

Já rapazinho, quando Glauce me presenteou com o seu exemplar de Vauvernagues, pude ler pela primeira vez o filósofo e com muita surpresa percebi que algumas das lições prodigadas por minha avó haviam saído das reflexões do autor daquelas “Reflexões e Máximas”, em boa hora reeditadas pela UNESP em tradução de Dorothée de Bruchard e Fúlvia Maria Luiza Moreto. Confesso que passei aquela hora dividido entre o que dizia o ilustre professor da UERN sobre Clarice e a sorrateira leitura de Vauvernagues, o que eu tentava fazer sem privar-me da performance do conferencista que, dominado pela paixão lispectoriana, empolgava os presentes com as suas considerações de leitor e especialista à serviço das ciências sociais.

 

De repente, conscientizei-me de que muitos dos conselhos que ouvira de minha avó ela os tomara emprestado do querido marquês. Em minhas primeiras tentativas de aspirante a escritor, ela instruía-me que escrevesse prezando a clareza, reforçando suas palavras com uma sentença que sempre tive presente em minha memória toda vez em que me dispunha a escrever uma página. A clareza embeleza os pensamentos profundos.

 

Outras vezes, quando eu me afadigava a ponto de pensar em desistir, ela socorria-me, pedindo-me que fosse perseverante, e reiterava que as fortunas rápidas de todo tipo são as menos sólidas, pois raramente são obra do mérito. Os frutos maduros, porém laboriosos da prudência — pude eu próprio descobrir depois –, são sempre tardios. E que, quem sabe suportar tudo, pode ousar tudo.

 

E, ao insistir para que eu procurasse aprimorar os meus esforços, advertia-me de que a satisfação não é a marca do mérito, pois nem o espírito nem a vaidade podem fazer o gênio. Ou, ainda, que a indolência é o sono dos espíritos e a limpidez, o verniz dos mestres, assim como a clareza é a boa-fé dos filósofos. Afinal, a perfeição de um relógio não está na rapidez, mas na precisão…

 

Todas essas lições que impregnaram a minha infância, minha avó as absorvera de Luc de Clapier, marquês de Vauvernagues, grande escritor francês da primeira metade do século XVIII, nascido em Aix-em-Provence, de família nobre, porém sem fortuna e destinado a uma vida difícil, como a de todos aqueles que buscaram a glória pela virtude e souberam por intuição ou ciência própria que ganhamos pouco com a esperteza e que não temos o direito de tornar infelizes aqueles que não podemos tornar bons.


10 Comentários

Lúcia de Fátima on 22 de dezembro de 2008 at 16:28.

Belíssimo artigo.

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Lenira Arruda on 22 de dezembro de 2008 at 17:06.

Nunca ouvi falar nesse marquês, mas achei legal a sua filosofia. Melhor ainda ter uma avó dessas. Vou procurar ler Vauvernagues e saber mais do seu pensamento.

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UMA LEITORA DE MUITOS ANOS on 24 de dezembro de 2008 at 18:19.

Oh felicidade, ter uma avó dessas, que o acalentou e orientou com tanta sabedoria pelos caminhos da vida. Mas, você mereceu, Franklin Jorge! Sempre me comove o que tem escrito sobre sua Avó. Aquela crônica sobre a sua infância no Estevão, que você, como grande artista da palavra que chama de “infância rural”, levou-me às lágrimas. Quanta delicadeza e sensibilidade ao descrever esse relacionamento e o bucolismo de uma paisagem que encontrou enfim o seu poeta! Um poeta que escreve em prosa, coisa que somente sabe fazer quem é do ramo. Obrigado, Franklin Jorge!Imprimi tudo e mandei para o meu neto que vive na Alemanha.

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João Paulo Frossard Delmare (Foz de Iguaçu) on 26 de dezembro de 2008 at 12:22.

Grande emoção ler esta crônica. Já estive em Vauvernagues, o castelo onde Picasso viveu seus últimos anos, já citado em seu artigo sobre a escritora argentina Luisa Mercedes Levinson, que passei a ler depois que a vi em Grande Angular.

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Maria Delmira on 26 de dezembro de 2008 at 13:42.

Fiquei muito comovida lendo esta crônica, pois também tive uma Avó que me amava e zelou pelo meu bem-estar físico e espiritual. Uma Avó, em verdade, muito parecida com a sua… O que disse essa Bibi é a pura realidade: também ouvi essas mesmas palavras da boca de muitos sertanejos que povoaram a minha infância, na fazenda onde nasci e me criei até ir estudar em Souza e depois no Recife, onde me formei em Filosofia e Neolatinas. Já tenho quase 80 anos com muito orgulho, sou Avó e Bisavó. Hoje, meu passatempo é ler. Posso afirmar que já o leio hpa muitos anos. O senhor não vai acreditar, mas colecionei e guardo até hoje o que escreveu na revista “Fórum”, que fechou depois que o senhor deixou sua editoria. Aqui na Paraiba seu nome e suas letras são muito valorizados, a começar pelo nosso grande mestre Ascendino Leite, que não lhe poupa elogios. Seu nome está citado com muita admiração em váriuos volumes do seu “jornal literário” (possuo todos, graças a Deus). Sei que é muito invejado, como todos os grandes homens de letras, pois são eles que discriminam os fatos e produzem a verdadeira História, aquela que perdura em palavras. Há-de existir muita gente por aí querendo escrever o que o senhor escreve com tanta arte, cultura e sensibilidade inquestionáveis. Mas não se avexe com isso: a inveja, quando não pe maliciosa, é também uma forma de admiração. Ninguém atira pedras em árvores maninhas. E a sua seara é um rico pomar de letras e idéias. Nele, podemos matar a nossan fome de boa literatura e de jornalismo sumarento. Que 2009 o cubra de benesses. Aqui, da minha cadeira de inválida, rezarei oeko sednhor e pelos seus. Hei-de tecer com a minha fé uma couraça de orações para protegê-lo dos maliciosos que abundam e prosperam nessa triste sociedade de homens ocos, vazios do sopro divino. Continui sendo o que é, senhor Franklin Jorge, e nos seduzindo com palavras tão amáveis e bem nascidas do seu engenho artístico.

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Bruno Gaudêncio on 2 de janeiro de 2009 at 12:36.

Já alguns anos tenho o hábito de colecionar aforismos e máximas. Desde adolescente vários cadernos meus foram sendo completados com frases e mais frases lapidares dos mais variados autores do mundo. Tenho incluisive até uma idéia de uma antologia, que se chamaria Relicário das Citações Brasileiras.
Logo que descobri esses chamados moralistas franceses, como Vauvernagues e La Brunyre, fiquei muito imtusiasmado com o pensamento dos mesmos. Não há dúvida que Vauvernagues teve uma alma mais sensivel, um estética mais valida; suas máximas e reflexões reflectem e muito os sistemas de idéias que são os paradigmas da chamada modernidade.
Voltando as máximas, foi com muito sabor que provei encantado também os seus desaforismos meu caro Franklin Jorge, no seu volume Frcções, Fricções Africções. Uma frase como essa “Um Artista alegre é tão inconsebivel como um boi voador”, é de inigualavel maestria.

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João Cláudio Pessoa - Olinda on 13 de janeiro de 2009 at 18:10.

Estou de férias em Natal e adquiri o livro de entrevistas feitas pela jornalista Marize Castro com escritores locais. Li de cabo a rabo e notei que a maioria dos entrevistados não têm o que dizer. É uma radiografia da pobreza intelectual daqueles que deveriam promover a inteligência, como faz o Franklin Jorge e uns dois ou tres outros, visivelmente subjugados por questionamentos banais e corriqueiros. Dá para perceber o esforço que faz FJ para se libertar da camisa de força dos esteriótipos. Como se o intelectual não fosse, já pelo esforço de pensar sobre as coisas, alguém que nada contra a maré…

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RONALD on 19 de janeiro de 2009 at 12:31.

ESTOU SENTINDO A FALTA DE NOVOS ARTIGOS. NÃO QUE O SITE NÃO TENHA AINDA MUITA COISA BOA PARA SE LER, MAS CADÊ OS ARTIGOS DE FRANKLIN JORGE SOBRE POLITICA? AQUELES QUE ELE ESCREVEU SOBRE O SALAFRÁRIO EX-PREFEITO DE PAU DOS FERROS, QUE FRANKLIN APELIDOU DE “DOUTOR CANDIDATO”, FICARAM NA HISTÓRIA DO JORNALISMO POTIGUAR. EM POUCAS PALAVRAS, ESSE GRANDE JORNALISTA “MATOU E ENTERROU” NILTON FIGUEIREDO, DESALOJANDO-O, QUIÇÁ PARA SEMPRE DA POLITICA DO ALTO OESTE.

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Dorothée de Bruchard on 22 de março de 2009 at 10:03.

A tradução das Máximas de Vauvenargues não foi feita por mim, e sim por meu irmão, HELY DE BRUCHARD, falecido em 1991, aos 25 anos. Pela antiga editora Paraula, publiquei sua tradução (edição bilíngue, 1993), como forma de honrar sua memória.
Quando a Editora Paraula encerrou as atividades, em 2000, a editora da UNESP interessou-se em reeditar a obra – feliz por perpetuar o trabalho do meu irmão, cedi-lhe os direitos da tradução.
Em 2007, era publicada a edição da Unesp que você menciona.

A edição da Paraula, tal como traduzida por Hély, seguia a edição francesa revisada e aprovada por Vauvenargues antes de morrer. A Unesp optou por reinserir as máximas que haviam sido eliminadas pelo autor, pedindo a Fulvia Moretto que fizesse a tradução e o prefácio.

E, EQUIVOCADAMENTE, atribui a mim a tradução. Apesar de meus inúmeros contatos com a Unesp, inclusive através de advogados quando vi que não havia chance para o diálogo, o livro, que era para ser uma homenagem à memória de meu irmão, continua circulando como tradução minha.

Sou tradutora profissional há muitos anos e, como é inevitável, vivi algumas (poucas) situações desagradáveis com editoras ao longo da trajetória. Mas nunca tinha vivido nada tão triste, nunca tinha sentido tamanha impotência… Tento então, num trabalho de formiguinha, desfazer o equívoco quando possível.
Obrigada.

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Alice brandão on 6 de julho de 2009 at 22:53.

Puxa! acho q lembra de mim né? gostaria de manter contato contigo, e q visse minhas obras. Agora moro em SP, e estou na Galeria Mali Villas Boas. Fico no aguardo d notícias.Bjs… Te amo em Cristo Licinha

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