Franklin Jorge e a Crítica: UM HOMEM ALTIVO*

Por O Santo Ofício | 17 setembro, 2008

Por Honório de Medeiros

 

Franklin Jorge. Desenho de
Madé Weiner [1992]

 

Franklin Jorge não condescende. Altivo, repeliu, ao longo de uma vida cujo viés mais característico é seu amor incondicional à cultura, entendida esta em seu sentido mais estrito, os cantos de sereia que lhe propunham sua rendição. Aparentemente frágil, trigueiro, gestos suaves e incisivos desenhando arabescos geométricos enquanto fala, sua mente contradiz o corpo: ali está uma inteligência privilegiada fulcrada em uma erudição impar cuja irradiação iluminista lhe dá contornos irreais, pela profundidade e sofisticação.

 

Pois Franklin Jorge é o grande escritor do Rio Grande do Norte hoje. Será, sempre, um dos maiores em todos os tempos. Sua poesia tão rara, da qual é exemplo “Poemas Diabólicos e Dois Temas de Satã”, lembra-nos a magnífica tradição francesa que vai de Villon a Baudelaire pela riqueza filosófico/imagética contida em versos deliberadamente escassos. Sua prosa espalhada ao longo de cadernos de viagem, ensaios, perfis, fragmentos, memórias, convida à reflexão e ao prazer que o texto incomum, pela qualidade, pode proporcionar, nos remetendo a uma viagem sem retorno até seus pares, dentre os quais Montaigne e Villaça, sem esquecer a presença misteriosa do Borges ensaísta.

                       

Entretanto, antes de tudo, como conseqüência ou contraponto, é preciso afirmar que Franklin Jorge jamais se dobrou ou foi dobrado no exercício diário de sua angustiante e fecunda, do ponto de vista ético, atividade profissional de jornalista. Não foi cooptado. Não espargiu sorrisos fáceis nem se prestou a salamaleques ante o Poder. Muito pelo contrário, invertendo a lógica dos homens-com-espinha-de-borracha, aos quais foi dada a imensa capacidade de ser servil com o poderoso e arrogante com o humilde, parece comprazer-se em tratar duramente aqueles em quem perceba a vocação e a aptidão do domínio pelo domínio, enquanto abarca com a totalidade da compreensão que o conhecimento e a sensibilidade lhe proporcionam, os excluídos das festas privadas do Poder.

 

Custou-lhe caro sua independência moral. Custa-lhe ainda. Nada se compara à angústia de olhar, enquanto se caminha “à gauche”, o que nos cerca e perceber o triunfo do medíocre, do bufão, do venal. Nada se compara à tristeza pela impossibilidade de apresentar os frutos de uma lavoura literária única aos poucos que são muitos no exercício do amor incondicional à cultura, quando até mesmo o Estado, que de nós exsurge e deveria promover o entretenimento da cultura, não a cultura do entretenimento, existe apenas como instrumento de manobra das elites cuja essência é o vácuo. Mesmo assim, angústia e tristeza cedem, como ele afirma, ante a constatação de que o talento dobra o tempo por que imortal para os que são, às vezes, contemporâneos do futuro.

 

A esse Franklin Jorge eu sugeri e instiguei para ir morar em Mossoró. Tirei-o do conforto que alguns poucos e especiais amigos proporcionam, do prazer da releitura dos livros que são lidos e relidos por toda uma vida, da rotina do “flaneur” – composta por café e conversas, do exercício de lavrar o texto já precioso por que bem acabado, e lhe pedi que, juntamente com o “Página Certa”, deixasse na terra de Rodolpho Fernandes – outro homem altivo – uma contribuição para a história.     

*Originalmente publicado em “Tribuna do Norte” [Natal] e posteriormente transcrito no semanário “Página Certa” e em “De Fato” [Mossoró], em fevereiro de 2007


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