CASCUDO, JORNALISTA CULTURAL

Por O Santo Ofício | 22 agosto, 2008

Colação de grau na Faculdade de Direito de Recife, em 1928.
Fonte: Site Memória Viva
 

Por Franklin Jorge

 

 

Em 1934 o polígrafo Luis da Câmara Cascudo [1898-1986] acompanhou o Interventor Mário Câmara em uma viagem administrativa por onze municípios do Rio Grande do Norte, da qual resultou uma reportagem publicada em A República e posteriormente em livro, sob o titulo “Viajando o Sertão”, reeditado quarenta anos depois numa mal cuidada edição chancelada pela Fundação José Augusto.

 

Antes dele, em ordem de seqüência, o jornalista e poeta Francisco Otílio Álvares da Silva e Manuel Ferreira Nobre, o primeiro historiador do Rio Grande do Norte, em circunstâncias semelhantes, percorreram parte do estado em 1861, como integrantes da comitiva do presidente Pedro Leão Veloso, descrevendo-o em seus múltiplos aspectos em reportagens originalmente publicadas na imprensa natalense da época.

 

Francisco Otílio é, historicamente, na segunda metade do século XIX, o primeiro jornalista a realizar trabalho de campo. No caso de Ferreira Nobre, suas notas — depois transformadas em livro –, tornou-o oficialmente o autor da primeira história do Rio Grande do Norte, embora obra de cronista e repórter, não propriamente de historiador, como costuma ser considerado em função do seu pioneirismo. Na verdade é o seu único livro, produzido mais pela circunstância do que propriamente por deliberação própria. Quase cem anos depois, Mário Câmara repete a façanha e, ao fazê-lo, presta inestimável serviço à nossa cultura, além de proporcionar a Cascudo que escreva um dos mais importantes documentos do moderno jornalismo literário.

 

Experiente no ofício que abraçou aos dezoito anos, Cascudo está incluído entre os precursores do jornalismo cultural, ao evidenciar em seu livro aspectos característicos do gênero, segundo a posterior classificação de Tom Wolfe, um dos criadores do chamado Novo Jornalismo que surgiu em Nova York e contaminou a imprensa moderna a partir de 1960. Um jornalismo dominado “por uma esmagadora necessidade de fazer parte do mundo real”, que o levou a realizar uma espécie de autópsia social, histórica e etnográfica, ao exigir-lhe o exercício do pensamento e uma intervenção direta no processo da entrevista.

 

Em “Viajando o Sertão”, o livro mais revelador do processo de trabalho de Cascudo, mostra-nos o repórter em ação e não o intelectual de gabinete, atrás de um birô, sem contato direto com o objeto de sua escrita. Medularmente jornalista, formado na escola do jornalismo desde os dezoito anos, quando o pai o presenteou com um jornal – A Imprensa –, Cascudo ia em pessoa à procura dos fatos, antecipando-se aos manuais do jornalismo moderno.

 

Nada de recorrer a terceiros ou ao “ouvir dizer”, mas diretamente às fontes primárias capazes de informar e esclarecer as dúvidas. Justamente o oposto do que tentou me impor o jornalista Nelson Patriota, quando membro do Conselho Municipal de Conselho, ao tempo em que intentei escrever a biografia do próprio Cascudo, para ser lançada no ano do centenário do escritor…  Desmontei-o, ao perguntar-lhe através de uma correspondência em que faculdade de jornalismo ele estudara.

 

Em seus textos jornalísticos exercita Cascudo — avant la lettre — alguns característicos do New Journalism, o jornalismo cultural por excelência. Um jornalismo, digamos subjetivo, em oposição ao jornalismo objetivo que terá inspirado a Nelson Rodrigues a paradigmática figura do “idiota da objetividade” – um vulgar portador da informação desprovida de conhecimento.


8 Comentários

FERDINANDO MAUX on 23 de agosto de 2008 at 9:44.

Esta sua publicação virtual é um mundo real de cultura, conhecimento, novidades e estímulo intelectual. Fico pensando como pode nos privar por tanto do prazer e da variedade de sua leitura. Sua ausência dos jornais impressos é a prova de que são mal orientados e servem apenas como veículo dos interesses dos políticos que bebem o nosso sangue e querem ver a nossa caveira, como você tem dito tantas vezes no que escreve. O apoio que tem recebido dos leitores é a prova de que segue pelo caminho certo, do trabalho e do estudo, da variedade e da profundidade que requer o leitor que não se deixa enganar com superficialidades vistosas. Nós, que o lemos, encontramos aqui o prazer de um texto que associa estilo e conhecimento tão em falta nos outros veículos que só podem nos servir notinhas vãs ou pretensiosas de quem leu pouco ou não leu. Tenho recomendado a todos os meus amigos que o acessem e desfrutem do que há de melhor, no momento, na internet e no jornalismo cultural, MESTRE.

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William Cássio Jr. on 23 de agosto de 2008 at 10:57.

Concordo em número e grau.

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Bruno Gaudêncio on 23 de agosto de 2008 at 12:31.

Cascudo realmente é um figura Sui generis na História cultural de nosso país…Intelectual em primeiro grau. Mereceria uma biografia do escritor Franklin Jorge. Fatos como a sua tendência ao Integralismo na década de 1930 e as suas relações com os intelectuais do sul do país ainda permanecem obscuras. Percursor de vários paradigmas hoje modernos, tanto Historiográficos como jornalísticos, como por exemplo, Cascudo produziu livros que são inaugurais do ponto de vista histórico, só para citar um: História da Alimentação no Brasil, obra clássica do Género, até hoje não ultrapassada em erudição, informação e análise, e agora a revelação de Franklin Jorge, que percebeu em Cascudo um percursor do chamado Jornalismo literário. Pelas informações que eu tenho o percursor “moderno” do jornalismo literario no estado do Rio Grande do Norte foi o próprio Franklin Jorge, nas décadas de 1970 e 1980. Esses potiguares, não sei não, paradigmas do New Jornalism, ontem e hoje.

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GUSTAVO DE BARRO VERMELHO on 23 de agosto de 2008 at 17:58.

Minha Avó, sua leitora desde os tempos da “Tribuna do Norte”, me pediu que lhe transmitisse um recado: “AGORA TEMOS O QUE LER” e votos de muito êxito… O nome dela é Marília Brito pra quem o senhor autografou o Spleen e Ficções no shopping.

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Paulo de Tarso on 24 de agosto de 2008 at 0:45.

Um senhor analista, como diria o Villaça, esse Franklin Jorge. Seus desafetos dissimulam a admiração e a inveja, falando mal dele.

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Gernira on 24 de agosto de 2008 at 0:53.

Bom demais!

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boy rodrigo on 24 de agosto de 2008 at 10:31.

a vontade era comentar tudo. véi, tu faz as nossas cabeças no curso de jornalismo.

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ROMAN CORTEZ on 28 de agosto de 2008 at 16:03.

Repito: Jornalismo Cultural é isso.

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