POR QUE DEIXEI MOSSORÓ [1]
Por O Santo Ofício | 16 agosto, 2008
Por Franklin Jorge
Transcrito do Jornal Folha Potiguar
MOSSORÓ – Ao aceitar o convite do diretor geral do Diário de Natal-O Poti, para dirigir a sucursal desses jornais em Mossoró, pensava comigo mesmo ficar por aqui, pelo menos por uma temporada na qual me esquecesse de voltar ao meu lugar de origem. Desde que me lembre, Mossoró me agrada por sua hospitalidade, pela graça do seu povo, pelo empenho de fazer-se notar como uma república independente da Constituição. E, também, por sua condição de fronteira. A última fronteira entre a civilização e o deserto.
Aqui fiquei pouco mais de dois anos, os últimos oito meses envolvido numa polêmica que, se por um lado – digamos assim –, “estadualizou” o meu nome, chamando a atenção de todos para o jornalismo que me empenhava em praticar em defesa da cidadania. Essa estadualização do meu nome, naquele momento, ocorreu graças à arrogância e ao despreparo do filho do prefeito Dix-huit Rosado, que passou a atacar-me em mau idioma, diariamente, através do seu programa de rádio, no qual se fazia ajudar por uma claque de radialistas de aluguel. Tal ofensiva culminou com a minha demissão do cargo que procurei exercer, em todos os momentos, em defesa da cidade e do seu povo caloroso e hospitaleiro. Assim, graças a um boquirroto que se apossara do mandato do pai, em pouco tempo me tornei tão lido em toda a parte quanto é conhecida em Mossoró a igreja de São Vicente.
Contudo, o fator decisivo nesse desfecho decorreu, principalmente, duma grande pressão exercida por um dos diretores desses jornais que eu editava em Mossoró. Certa vez ele veio a Mossoró numa circunstância ridícula, fumando numa quenga e agarrado ao seu uísque, episódio grotesco que mancha a sua própria biografia.
Veio para pressionar-me a repercutir a terrível campanha desencadeada pelo dono da Gazeta do Oeste contra o então presidente da Fundação Municipal de Cultura, hoje prefeito oficioso da cidade, submetido a um verdadeiro linchamento moral pelo autor de notinhas atômicas contra o calado e mudo Gustavo Rosado. Qualquer pessoa provida dum mínimo de decência repudiaria tais palavras que, a rigor, afrontavam a todos e não apenas ao atualmente todo-poderoso irmão da prefeita Fafá Rosado.
Recusei-me prontamente a contribuir para a desonra do presidente da Fundação Municipal de Cultura, que teve sua intimidade devassada e exposta ao escárnio popular. E, apesar de considerar a polêmica natural no exercício do jornalismo, parte mesmo do seu tecido de idéias e contraditórios, não concordei com os termos chulos usados pelo dono do jornal ao referir-se a Gustavo Rosado como “lorde”, mas adjudicando-lhe à nobreza do título expressões chulíssimas só encontradas então no jornalismo de Mossoró, o que chocou a opinião pública da cidade de Santa Luzia, onde as pessoas viviam aterrorizadas com o vitríolo veiculado nas páginas do seu principal jornal. Nem mesmo o papa João Paulo 2º escapou dos achaques. O Chateaubriand da imprensa local mandou que ele, o Papa, tomasse com areia naquele lugarzinho escondido e mau cheiroso, sim senhor.
Confesso que atribui à bebedeira o comportamento desse diretor da empresa jornalística para a qual eu trabalhava e relevei o seu ataque de nervos na presença de vários funcionários do Hotel Termas. Porém, cônscio de que o jornalismo não deve ser usado como instrumento de chantagem, recusei-me a transcrever a diatribe diária e permanente dessa campanha difamatória contra a qual as próprias freiras que dirigiam o chamado “Colégio das Irmãs” se insurgiram e, verdade seja dita, foram elas, essas discretas, pacíficas e admiráveis religiosas que tiveram naquele momento uma postura que seria de se esperar da parte dos homens, não das mulheres. Mas, eles condescenderam e ficaram calados diante do massacre moral, único e peculiar, de toda a história do nosso jornalismo provinciano.
Tudo isso me vem à lembrança neste momento em que releio a coleção das notas então produzidas por Canindé Queiroz em sua coluna diária. Recortei-as e as arquivei pensando escrever, algum dia, uma memória de minha passagem por Mossoró, onde, por assim dizer, me doutorei no conhecimento dos homens e no mau uso da imprensa escrita e falada, pois havia de quebra, diante dos microfones, o filho do prefeito melando todos com a sua baba virulenta. Quem sabe, oportunamente, voltarei a escrever a respeito desse período que representou para mim uma grande escola?




23 Comentários
Dorinha do Abolição on 16 de agosto de 2008 at 14:41.
Mossoró está atenta e à espera da continuação destas suas memórias do tempo em que viveu entre nós.
Gregório on 16 de agosto de 2008 at 15:03.
Faço minhas as palavras de Dorinha: queremos mais. Sua versão do fato é importante para a história politica de Mossoró.
Luzia Ferreira de Souza on 16 de agosto de 2008 at 15:09.
Deve ter muita gente fazendo estoque de maracugina para esperar o desdobramento dessa história. Quero parabenizá-la pela forma classuda com que tratou um tema escabroso. Seu site está no meu “Favoritos”, não por benevolência mas pela qualidade e estilo do seu jornalismo que tem muitos admiradores.
Marcelo Roberto on 16 de agosto de 2008 at 18:05.
Mermão, tu és phoda. Fiquei teu fã lendo o que escrevestes sobre o que é jornalismo cultural. Coisa que nenhum dos meus professores conseguiram explicar direito. Imprimi todo o teu site e vou ler tudo para fazer a cabeça.
Quanto a politica, é sujeira, não me meto. Mas esse “lorde”, hmmmm…
João Pereira on 16 de agosto de 2008 at 19:07.
Veja as voltas que o mundo dá: Canindé phodeu o”Lorde” e agora todos comem no mesmo cocho…
DOCÉU on 16 de agosto de 2008 at 19:23.
VALHA-ME DEUS!!!
Alberto Magno on 16 de agosto de 2008 at 20:41.
Você veio fazer agora o que os malévolos o impediram de fazer quando morou aqui no tempo que descreve em seu artigo. Vai fazer cultura e contribuir para elevar o jornalismo em Mossoró. Seja bem vindo.
Post-scriptum: Parabéns por este artigo que foi o melhor que a campamha eleitoral produziu até este momento. Escreva mais.
Ângela on 16 de agosto de 2008 at 22:26.
Cheguei aqui através de indicação da Zélia Freire (escrevemos no mesmo site) e de cara já gostei. Vou colocar seu blog nos meus favoritos. Abraços e boa sorte em seu retorno a terra de Sta. Luzia.
Briolanja Acosta on 17 de agosto de 2008 at 0:23.
Sem querer agradá-lo, muito menos bajulá-lo:primeiro, porque não o conheço senão através do seu magnífico talento; segundo, porque não faz parte do meu feitio e caráter a bajulação, que, em toda a minha vida de internauta, coisa de uns cinco ou seis anos, pela primeira vez acessei um site dessa categoria. Só alguém, como você, sabendo escrever e senhor da Cultura, poderia nos beneficiar com um empreendimento tão bem provido de conteúdos — excelentes todos –, como as Séries que passaram a fazer parte dos meus Favoritos, o Retrato Falado, Babélia, Grande Angular etc e o blogue O Santo Ofício que é o seu canal de comunicação direta com os leitores. Formidável a coragem e integridade moral e intelectual desse jovem belíssimo, Bruno Gaudêncio, que você acolhe regiamente como tem feito e está registrado em seu histórico de vida e em tudo o que escreveu: em Natal, e duvido mesmo que em outros lugares, jamais um homem de letras se empenhou em acolher e divulgar tantos talentos. Acompanho-o há bons 30 anos e posso afirmar: você engrandeceu figuras como os pintores Fernando Gurgel, Vicente Vitoriano, Marcelus Bob, Madé Weiner etc que vem a ser, entre os da sua geração, os mais talentosos. E escritores como Marize de Castro, Jarbas Martins, João Gualberto, Eulício, Racine Santos que não sei se lhe são gratos, mas lhe devem a melhor recepção. Você nos fez admirá-los, escrevendo sobre o trabalho deles. O fato é que não se pode falar em cultura, no RN, sem citá-lo, a não ser que se trate de individuo mal intencionado e sem caráter. Por este seu comportamento é que nos curvamos diante do seu talento.
Ricardo on 17 de agosto de 2008 at 0:55.
Véi, tu tás eleito. Amei o que escrevestes sobre o jornalismo cultural e quando destes aquela bronca no Renato Fernandes. Aqui em casa todo mundo riu do apelido que botastes na prefeita, Raquelly, aquela despirocada da novela das sete. Mete a maçaroca nessa turma que quer se dar bem com o nosso voto. Ok, véi.
Maria José da Boa Vista on 17 de agosto de 2008 at 1:07.
Daqui pra frente o seu site passa a ser a novela das oito e o big brother de muita gente daqui de Mossoró. Era a sopa no mel que faltava.
Alice da Boa Vista on 17 de agosto de 2008 at 2:06.
Você chegou e roubou a cena! Não tem mais prá ninguém.
Luis on 17 de agosto de 2008 at 17:43.
Mossoró nunca esqueceu as lamboradas que você deu no lombo de Bibi. Era você em Bibi e Canindé Queiroz metendo o relho no “lorde”… Quer dizer que você vai contar essa história para aqueles que não acompanharam o caso em 1995? Olha, se você quer alavancar ainda mais o seu site o caminho pe por aí.
Paulo da Boa Vista on 17 de agosto de 2008 at 17:46.
Mas pelo menos a Bibi gritava, coitada, agarrada no microfone da Tapuio. Já o “lorde de ouro”, masoquista como um vascaíno, sofria calado e talvez gostando.
N.N. on 17 de agosto de 2008 at 18:59.
Todo mundo sabe que você deixou Mossoró por causa de uma trama de Canindé Queiroz e Vicente Serejo. Bibi foi apenas o instrumento, o bobo que serviu aos interesses de terceiros sem tirar nenhum proveito, a não ser o de ficar conhecido por seu ridiculo. Serejo sempre quis lhe derrubar. Toda essa gente morre de inveja do seu talento e da sua cultura. Você sabe tambem e deve contar aos leitores os detalhes dessa história que está fazendo o “lorde” se borrar.
ribamar de aguiar on 17 de agosto de 2008 at 21:54.
franklin, há muito tempo admiro o seu talento e muito me apego aos seus artigos e ao seu estilo incomparável e inimitável. agora, ao navegar,farei uma abordagem ao seu sitio. parabéns e avante com o aplauso de muitos. o amigo e admirador de longas datas.ribamar
Jesuino on 17 de agosto de 2008 at 22:12.
Bom deveras.
PEDRO COSTA on 17 de agosto de 2008 at 22:45.
Não arredo daqui enquanto Franklin Jorge não contar a história do tempo que viveu em Mossoró e teve aquela pelenga famosa com a Bibi que pensava que era a dona do mundo. Vai ser bom demais ler tudo isso de novo contado pela pena de ouro – que o “lorde” não saiba – de um artista da palavra.
william on 18 de agosto de 2008 at 7:55.
agora, com a internet, você tem a sua tribuna e não corre mais o risco de ser demitido ou sacaneado por esses invejosos que lhe puxaram o tapete. parabéns pelo recorde de acessos e pela coragem de ter colocado um contador em todas as páginas do site. agora todos ficam sabendo quantos leitores você tem.
Rafael Dantas on 18 de agosto de 2008 at 11:55.
Mossoroenses, me acudam: quem danado é Bibi e que peleja foi essa travada com Franklin?
Para F.J.: seu site é minha página inicial, só isso! Maravilhoso!
Sua humilde professora no Açu on 18 de agosto de 2008 at 23:50.
Franklin, sua melhor defesa é a sua obra inigualável, admirada e aplaudida pelas pessoas de bem. Conhecendo-o, como o conheço e sabendo das campanhas sórdidas de que tem sido vítima, da parte de invejosos e medíocres que nada criam nem produzem, faço minhas as palavras do grande advogado José Ribamar de Aguiar que escreve mais acima, neste espaço, exaltando o seu talento e chamando a atenção dos leitores para o grande número de pessoas que o admiram e agora podem ler o que escreve em “estilo incomparável e inimitável”. Estou feliz por testemunhar o apreço dos seus leitores e a justiça que embora tardia se faz ao seu nome do melhor quilate. Quero lembrar do quanto o admirávamos em sua adolescência, amando a leitura dos grandes escritores, servindo de exemplos aos seus amigos que não eram poucos, defendendo os fracos, consolando os velhos e enaltecendo a nossa terra. Rogo ao seu Anjo e ao espirito de sua Avó que o guarde da inveja e da maldade dos falsos literatos.
Marta do alto da Conceição on 19 de agosto de 2008 at 16:59.
por que será que o lorde tá tão calado?
Mário Gerson on 21 de agosto de 2008 at 15:00.
Franklin, infelizmente esse tipo de jornalismo ainda tem um certo espaço na Terra de Santa Luzia. Infelizmente. Achei seu site muito bom, muito legal mesmo, em todos os sentidos. Acredito que ele só trará um melhor debate, que falta nos jornais. Sem censura, claro. Continue assim. E conte-nos mais dessa sua história, conte, recontece. Reflita e nos repasse. Achei bacana a sua posição em não repercutir aquele episódio da época. Hoje realmente não valeria a pena. Quando escrevi uns cadernos especiais para a GAZETA lembrei aquele período, e coloquei umas fotos que o jornal guardava, mas que não haviam sido publicadas, que eram, justamente, fotos que mostravam o protesto contra Canindé Queiroz, que atacou o Gustavo. Eu li as notas, mas não publicamos. Só lembramos mesmo por uma questão histórica.
Vá em frente. Tudo está legal aqui. Abraços, do seu amigo de escrita e de jornalismo,
Mário Gerson