O JORNALISMO CULTURAL
Por O Santo Ofício | 15 agosto, 2008
Por Franklin Jorge
Deu-nos os Estados Unidos além do dólar e do fastfoods o Novo Jornalismo, ou seja, o jornalismo cultural por excelência, cuja influência se faz sentir presentemente no Brasil, um pouco tardiamente, sobretudo nesses anos de globalização, quando as fronteiras parecem ter sido abolidas graças à sofisticação dos meios de comunicação, como a Internet, veículo que desencadeou uma onda planetária, ainda não devidamente avaliada, democratizadora de conceitos e idéias.
O Novo Jornalismo, assim batizado por Peter Hamil – informa Seymor Krim, citado por Tom Wolf –, que teria usado essa expressão pela primeira vez em 1965, ao encomendar-lhe um artigo sobre um novo gênero de jornalismo que começava então a ser praticado por gente como Gay Talese e Jimmy Breslin. A denominação tornou-se corrente e deu ensejo ao surgimento de uma geração de repórteres, geralmente dotados de sólida cultura humanística, que rechaçava o texto seco e objetivo, meramente informativo, produzido para o consumo de leitores apressados e talvez acríticos.
Praticado por repórteres com veleidades literárias, tem sido chamado no Brasil de “jornalismo cultural”, embora a maioria que o pratica pareça desconhecer suas características básicas e insista em confundi-lo com a cobertura de eventos culturais. Resulta dessa confusão de gêneros a despreocupação para com a elaboração de textos superficiais, articulados sem o exercício da critica, o que exigiria do repórter mais que informação – conhecimento e domínio de questões que às vezes transcendem o próprio assunto em pauta.
A rigor não temos jornalismo cultural no Rio Grande do Norte, mas cobertura jornalística de eventos culturais. É o que costumam fazer as “editorias de cultura” dos nossos jornais, geralmente marcadas pela apatia em relação ao debate de idéias. Por isso, ao lermos o que produzem, ficamos sabendo o que está acontecendo, mas não travamos conhecimento com as idéias e o universal mental dos entrevistados, o que exigiria do repórter um preparo intelectual que os cursos de jornalismo não têm condição de repassar.
Eu lembraria, a propósito, a contribuição dos jornalistas Luis da Câmara Cascudo, no passado e, no presente, de Laurence Bittencourt Leite, Emanoel Barreto, Rafael Duarte, Michele Ferret, Rodrigo Levino e Sílvio Santiago, que se mostram aptos a discutir conteúdos, em vez de apenas noticiarem os fatos. Isto porque a critica é um elemento que não pode faltar à formulação do verdadeiro jornalismo cultural. Ou seja, daquela espécie de jornalismo que é cultura e conhecimento e não apenas informação, algo que qualquer verborrágico pode dar impunemente.
Creio que falta nas redações editores capazes de orientar seus repórteres, no sentido de incentivá-los a transcender a circunstância em busca da essência dos fatos. A maioria das entrevistas, por exemplo, estão vazadas numa grade que expõe a superficialidade e o comodismo de uma prática que reduz o criador a um artesão desprovido de vida interior, como se a obra resultasse de um fiat divino.




15 Comentários
Marizete Monteiro on 16 de agosto de 2008 at 2:02.
Esse texto que acabo de ler deveria ser lido todos os dias, humildemente, por todos os editores. É a súmula de uma grande experiência profissional e de uma devoção do autor às artes e às idéias. Morando no RN há muito tempo, tenho acompanhado Franklin Jorge escrevendo em jornais e em livros e sempre me surpreende o seu afã de difundir cultura numa terra que lhe tem sido hostil. Franklin, li aqui em alguma parte alguém se oferecendo para ajudá-lo a manter este site. Quero ser sua colaboradora, além da admiradora que sou desde que o li, ainda muito moço, escrevendo em jornais do Recife.
Bruno Siqueira on 16 de agosto de 2008 at 2:09.
Cursando Comunicação Social e já estagiando em jornal, concordo em número e grau com este mestre do jornalismo.
Thiago Aguilles on 16 de agosto de 2008 at 2:11.
Véio, ninguém lhe amarra as chuteiras.
LUCAS GADELHA on 16 de agosto de 2008 at 19:32.
Véi, tu ensina aonde? tô afim de ser teu aluno em jornalismo
Bruno Gaudêncio on 16 de agosto de 2008 at 19:36.
Concordo perfeitamente Franklin Jorge quando afirmas críticamente que as faculdades de jornalismo são despreparados (ou podemos dizer assim, incapazes) de formarem legítimos jornalistas culturais. O que estes cursos formam em sua maioria são “produtores de Lides”, “Copiadores de Relises” não mais que isso. Falta uma formação humanistica. Conhecimentos de Literatura, cinema, Teatro, Artes Plásticas, Filosofia, entre outros. E isso me parece esta mais ligado a uma influência familiar ou tendência interna ás artes. Intendo o Jornalismo como uma prática estética cotidiana, um exercício de cidadania, uma arte política e social. Pois como bem afirmou Tristão de Ataíde “Assim como a literatura é um tipo especial de arte, o jornalismo é um tipo especial de literatura.”
Michael on 16 de agosto de 2008 at 20:33.
Com o curso de letras é a mesma coisa…Estou adorando passear por este site de Franklin Jorge de quem falam tanto: os invejosos e maus, de mal; os justos e honestos, a verdade que quase sempre não podemos suportar, como alguém que como Franklin Jorge concilia cultura humanistica ao talento. Não o conheço pessoalmente, mas procuro ler o que escreve e publica ncom a intençao de aprender alguma coisa. Agora, na Web, vou puder fazer isso na tranquilidade do meu quarto.
Jessé on 17 de agosto de 2008 at 1:22.
Franklin é no jornalismo o que a Gisele Bundchen é nas passarelas: eles botam o pé no palco e arrasam. Esse artigo sobre jornalismo cultural é uma aula que a maioria dos professores do Curso de Comunicação não tem tarimba nem cultura pra dar aos seus alunos. Por isso é que a qualidade dos nossos jornais está em baixa e o moral do jornalismo caidaço. Acorda, reitor!
RAFAEL on 17 de agosto de 2008 at 1:26.
Professor, manda vê outro biscoito fino.
Miguel on 17 de agosto de 2008 at 12:32.
Brother, teu site tá bombando. Tu deste uma dentro. A moçada tá ligada em tu, tá sabendo.
Luzinete Pinto on 17 de agosto de 2008 at 17:49.
Esse site já está servindo a Mossoró. Vai obrigar o reitor a melhorar o Curso de Comunicação.
Diego on 17 de agosto de 2008 at 19:15.
Vários colegas meus já acessaram seu site e ficaram ligados na qualidade de seus conteúdos. Passei hoje o domingo navegando nele, nem almocei pois fiquei grudado no computador. Espetacular tudo, no bom sentido do termo, pois o que lhe sobra é qualidade e talento para dizer dessa maneira nova.Você é o professor que faltava ao nosso Curso de Comunicação (Habilitação em Jornalismo), onde a gente só aprende o feijão com arroz. Concordo com o Bruno Gaudêncio: falta cultura e refinamento intelectual aos professores, agora “doutores” ou “mestres” cheios de pretensão, mas não sabem escrever um parágrafo. Tô muito desencantado com o meu curso, mas agora, lendo o que escreve, tenho certeza de que aprenderei o que me falta.
Fernando de Nova Betania on 19 de agosto de 2008 at 17:12.
Porreta esse artigo sobre jornalismo cultural.
Neivinha Rocha on 19 de agosto de 2008 at 17:13.
em poucas palavras o professor Franklin Jorge disse tudo.
Mário Gerson on 22 de agosto de 2008 at 14:03.
Massa, Jorge!
Judite Minizola on 23 de agosto de 2008 at 1:32.
O problema de Franklin está em se fazer querido e admirado por quem o lê. Uma única fez é suficiente para que nos tornemos seus leitores que este sítio está nos mostrando ser uma maçonaria. Ninguém escreve como ele, não digo aqui, mas em qualquer latitude talentos como o seu são uma raridade. Pensando com originalidade, expressa-se de uma maneira única e se faz entender por todo mundo com a sua “arte de feiticeiro”. Esse artigo que acabo de reler, já, umas dez vezes, resume toda uma cultura que não encontramos num pernóstico como Vicente Serejo, cuja inveja que sente de Franklin vem se manifestando de uma forma sorrateira em sua afetaçao de uma cultura literária e humanística que não tem nem terá pois sua ambição de poder e prestigio não lhe dá trégua nem o tempo necessário para aprofundar-se no vasto mundo da Cultura literária e artística. Sua energia intelectual me parece direcionada para coisas vãs, exteriores e mundanas, como o pedante blogueiro Ailton Medeiros que acaba de expor suas fraquezas em um artigo magistral, deixando o dito cujo moral e intelectualmente em carne viva; dispensável dizer que falo de Vicente, uma personagem hilária que apesar disto chegou a exercer um poder absurdo sobre a nossa governadora ainda no tempo que era prefeita de Natal, e sobre outros notáveis que devem ter o rabo preso com ele. Recomendo a todos que acessem o Blog do Ailton e façam aquilo que em Letras chamamos de “estudo comparativo”. Sucesso, Franklin! Seu sítio virtual é tudo de bom.