AS ENTREVISTAS DE MARIZE DE CASTRO
Por O Santo Ofício | 11 agosto, 2008
Por Franklin Jorge
Leio em Woden Madruga que Marize de Castro está reproduzindo em livro, finalmente, as entrevistas que publicou originalmente, aos domingos, na Tribuna do Norte, sob o titulo genérico de “Além do Nome”.
Fui, na época, creio que em 2000, um dos escritores que ela ouviu, por motivo que até hoje desconheço, pois não creio que alguém tão à margem do sistema e do oficialismo, no meu caso em especial, pudesse despertar-lhe, naquela circunstância, o interesse.
Mas o fato é que fui entrevistado. Um amigo me disse que era porque eu estava ficando velho e me ouviam como uma “figura histórica” ou como remanescente de uma geração que marcou, aqui, os anos setenta. É fatível, como diria o próprio Woden. Pode ser…
Trata-se, porém, no caso em questão, de entrevistas feitas por quem é do oficio e, creio que, segundo uma escolha difícil se considerarmos a nossa pobreza cultural congênita, sobretudo se comparada ao que tem sido produzido em outros estados, como a Paraíba, o Ceará e especialmente Pernambuco, todos nossos vizinhos que não temos conseguido acompanhar em seu ritmo evolutivo rumo a uma cultura de primeiro mundo.
Entrevistas — as de Marize — que acompanhei semanalmente, como outros o fizeram, por sua qualidade jornalística e também por tornar acessível ao leitor o universo mental de um grupo de escritores provincianos. Lembro-me que lhe sugeri na ocasião que entrevistasse Maria Eugênia Maceira Montenegro, que completara por aqueles dias, se não me engano, 86 anos – o que ela fez, contribuindo dessa forma para animar moralmente a velha rapsoda mineiro-potiguar, que se achava então muito deprimida e órfã do carinho e da assistência dos seus.
Recebi-a, à Rua Simon Bolívar, em meio ao que restara de minha biblioteca após o roubo de que fui vitima e que resultou na agressão que sofri da parte de um sebista, principal receptador do roubo, que queria por aquele expediente intimidar-me para sustar a investigação policial. Creio que também entre os meus retratos pintados por Fernando Gurgel, Scaldaferri, Siron Franco, Gilson Nascimento Diniz Grilo, Franmarques, Madé Weiner e Dorian Gray – um dos raros retratos pintados por nosso mais importante marinhista.
Lembro-me que foi a mais difícil das entrevistas que concedi, por reconhecer o talento da entrevistadora – um talento que ajudei a propagar – e porque via, naquela circunstância, a oportunidade de falar sobre coisas que fugissem ao padrão das entrevistas feitas aqui com escritores, quase sempre baseadas em estereótipos e coisas-feitas, aplicáveis, em último caso, a qualquer artista, como se as idéias não contassem numa entrevista.
Difícil, reitero, por tratar-se de uma ação levada a termo por uma oficial do mesmo ofício, que, no entanto, insistia em apegar-se aos aspectos mais exteriores de minha personalidade – como a do polemista, como se a polêmica não fosse, na vida de um intelectual, uma contingência inevitável; refiro-me ao intelectual cônscio do que cria, não ao beletrista que se auto-lisonjeia e se agrada do que faz.
Confesso que cheguei a afligir-me, pois temia perder a chance de falar efetivamente sobre idéias e processos de criação, temas que, como entrevistador, sempre valorizei em meus contatos profissionais. Inclusive ao entrevistar pessoas do povo, sempre empenhei-me em garimpar nas profundezas do pensamento, ao mesmo tempo em que desdenhava o lugar-comum e o elemento anedótico que geralmente as pessoas incultas apreciam em detrimento das lições que podemos extrair da experiência.
Penso, no entanto, que o livro de Marize há de ser um marco em nosso jornalismo literário. Por seu talento — que não discuto –, pela eficácia do seu texto, mas também pela radiografia que resultará da nossa cultura naquele momento, ainda muito enquistada e dominada por figuras acomodadas ao déja vu ou ousadas a ponto de publicarem livros. Louvada seja.




1 Comentário
Angela Aquino on 16 de agosto de 2009 at 22:33.
Que elegância, Franklin Jorge! Que classe! Por esta e por outras é que o temos na conta de nosso maior escritor vivo!