SALVEMOS A PRAÇA DO CODÓ

Por O Santo Ofício | 2 agosto, 2008

Franklin Jorge

 

MOSSORÓ — Disse Francis Bacon [1561-1626] que Deus Todo-Poderoso foi quem primeiro plantou um jardim a que chamou de Paraíso e o destinou para residência de Adão e Eva. Assim, como as praças, o jardim faz parte da vida humana. E, desde que o mundo é mundo, servem ao embelezamento dos lugares e para o recreio e o repouso do espírito do homem. Estão para as cidades como os oásis para o deserto, ponto de convergência humana e refrigério das agruras da vida. É uma dádiva do divino ao humano.

 

Quem viaja para instruir-se com os costumes alheios, percebe a importância que praças e jardins têm para os povos civilizados. Em Franca e na Inglaterra, onde podemos apreciar talvez os mais belos jardins da Europa, são praças fortificadas das quais os moradores do seu entorno, em muitos casos, chegam a ter uma chave que lhes dá acesso exclusivo ao seu usufruto. Noutros países, igualmente civilizados, são espaços abertos a todos, como em Roma, cujo nome invertido significa amor.

 

Ora, sem jardins e praças os palácios e demais edifícios seriam construções grosseiras e inumanas, enfatizou ainda Bacon que felizmente morreu antes do surgimento de Mossoró e, portanto, não teve o desprazer de saber que neste momento alguns dos empresários e políticos estão conspirando contra a existência da Praça Bento Praxedes. Querem-na transformar – avaliem o absurdo e a pobreza intelectual desses senhores – em estacionamento! Sim, em estacionamento de automóveis e motocicletas. Não em uma escola, por exemplo, o que já seria uma idéia absurda, mas em um vulgar estacionamento para meios mecânicos.

 

Embora atualmente reduzida a um lastimável estado de penúria que depõe contra a administração pública, a referida praça faz parte da história dessa cidade em diversos períodos, da Monarquia à República, lugar de celebrações cívicas e de meetings populares, coisas naturais e imprescindíveis àqueles que vivem em sociedade e valorizam a comunicação que o convívio proporciona.

 

A destruição da Praça Bento Praxedes ou Do Codó, como é mais conhecida em Mossoró, constitui um crime de lesa-cidadania. Um lastimável mau exemplo. A cidade, que carece de espaços comunitários. Desmente a própria tradição de que se jacta o seu marketing político de cidade cultural, sempre na vanguarda de embates em prol da dignidade de seus habitantes, capitula diante da dificuldade de resolver um grande problema que afeta a todos, a falta de estacionamento, criando um outro igualmente grave – a falta de espaço para a convivência humana, que não pode faltar numa cidade tão arrogantemente orgulhosa de si e com a pretensão de tornar-se a “capital de cultura” do Rio Grande do Norte.

 

É um tremendo retrocesso e um acinte aos modernos paradigmas urbanísticos que se empenham na humanização das cidades, através a criação de espaços de uso coletivo, como praças e parques, a exemplo do que o prefeito Carlos Eduardo Alves está fazendo em Natal, criando, além de numerosas praças, nos bairros mais remotos, o Parque da Cidade, para o qual obteve o concurso estético e funcional do arquiteto Oscar Niemeyer, criador de Brasília, cidade-monumento, um dos patrimônios culturais da humanidade. Aqui, porém, despreza-se o humano em favor dos gananciosos e dos egoístas que pensam somente em seus próprios interesses.

 

Praza aos céus que tudo isso não passe de fuxico da oposição ou do desapreço dos que não amam Mossoró e desejam diminuí-la, destruindo-lhe um dos seus espaços públicos mais importantes — embora, sob a administração da prefeita Fafá Rosado, esteja completamente abandonada essa praça que e uma grife da cidade. Ora, caso venha isso a acontecer, a segunda mais importante cidade do estado estará andando de marcha-ré, como os caranguejos.

 

Queira Deus que em sua inocência reconhecida até por seus adversários, a prefeita Fafá Rosado diga não a essa sandice de empresários desprovidos de senso de cidadania, de civilidade e de respeito a Mossoró, defensores indefensáveis da destruição da Praça Bento Praxedes — um patrimônio do povo mossoroense. Alienar a praça do povo seria mais que andar para trás; é pura sandice. Tal proposta não pode merecer outro qualificativo. Sandice, sandice, sandice. A Promotoria de Defesa do Patrimônio precisa entrar em cena para defender a Praça Bento Praxedes. Para defender o patrimônio cultural da cidade e preservar a cidadania. Urgentemente, Doutor Eduardo Medeiros. Urgentemente.


4 Comentários

Marize Cortez on 6 de agosto de 2008 at 11:17.

Acabei de ler com o meu marido todos os artigos do seu blog. E ficamos comentando sobre a sofisticada apresentação e os conteúdos que é o que geramente falta na Internet. Somos seus admiradores e procuramos ler tudo o que escreve, como um prêmio que nos concedemos. Já compramos alguns dos seus livros, O Spleen (que é o nosso guia de Natal), Ficções (com aqueles personagens surpreendentes), Fantasmas Cotidianos (que soubemos ser dos seus livros aquele que mais lhe agrada) e ao meu marido também que vê nele o resumo de uma grande biblioteca. Sempre recomendamos aos nossos amigos a leitura do que escreve. E vamos recomendar o seu site como o principal dos nossos favoritos (que são poucos). Sucesso e saiba que você tem mais admiradores do que pode imaginar.

Reply

Bruno Gaudêncio on 6 de agosto de 2008 at 21:39.

Em recente visita a cidade de Mossoró, conheci alguns dos patrimónios culturais e urbanísticos desta cidade. E fiquei encantado, algumas vezes emocionado como a “História ou a memória” estar ainda presente em cada vila, rua ou praça. Assim como Franklin Jorge se indigna com a proposta de destruição desta simpática praça da qual conheci, peço que os historiadores, estudiosos do património material desta cidade se rebelem contra esta proposta absurda e infame. Pelo bem da cidade…pelo bem da História…

Reply

Luciana on 17 de fevereiro de 2009 at 18:24.

Louvável sua colocação no que se refere a Praça Bento Praxedes.Parabéns!!!Concordo com vc,quando diz ser uma sandice,contra a um patrimônio cultural.Fico indignada quando passo pelas ruas de minha cidade Mossoró ,e vejo a loucura de pessoas que se dizem responsáveis, em conservar o que a cidade tem de melhor(ou tenha sido o melhor),desfaz das maiores recordações, que a nossa cidade nos traz…isso é falta de amor ás suas origens….

Reply

Télescope on 11 de novembro de 2009 at 17:00.

O seu artigo é muito bem fundamentado, principalmente, quando aborda sobre àqueles que querem auferir “lucros” com a cultura, mas, primordialmente, esquecendo-se de preservá-la, como é o caso da praça em foco. Infelizmente, por culpa nossa, que não sabemos votar, temos como resultante pessoas incultas e insensíveis no exercício dos poderes, as quais, simplesmente, não sabem o significa patrimônio histórico-cultural. Parabéns.

Reply

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>